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Que espécie é esta: lagarta de geometrídeo

Por Equipa Wilder

O leitor Fernando Matos fotografou esta lagarta no início de Novembro no lugar da Açoreira-Cinfães e quis saber qual a espécie a que pertence. A equipa da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas responde.

“Encontrei esta lesma ou parecido num castanheiro, bem camuflado, como podem ver pelo ramo de castanheiro”, escreveu o leitor à Wilder.

Trata-se de uma lagarta de uma borboleta noturna da família Geometridae.

Espécie identificada e texto porRede de Estações de Borboletas Nocturnas.

Trata-se, sem dúvida, de uma lagarta de uma borboleta noturna da família Geometridae.

Sendo difícil avançar com uma identificação precisa, dada a similaridade das lagartas deste grupo, arriscamos dizer que pertence ao género Biston. 

Este género está representado por duas espécies em Portugal continental, Biston betularia e Biston strataria.

Aqui pode recordar outro registo da mesma família, feito pela leitora Odete Melo na Trofa a 26 de Setembro de 2020.


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie-nos para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

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Que espécie é esta: nabo-do-diabo

Por Equipa Wilder

A leitora Luisa Galhardo fotografou esta planta no seu quintal em Mafra em Julho e pediu para saber a que espécie pertence. Carine Azevedo responde.

“Esta planta cresce espontânea no meu quintal em Mafra, para grande regozijo dos caracóis. Fotografei-a a 1 de Maio. Dizem-me que é comestível, mas eu nem me atrevi porque desconheço de que planta se trata. Podem fazer o favor de a identificar e esclarecer se é comestível ou não?”, perguntou a leitora à Wilder.

Trata-se de um nabo-do-diabo (Bryonia cretica ssp. dioica).

Espécie identificada e texto por: Carine Azevedo, consultora na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas.

A planta das fotografias é uma espécie do género Bryonia, possivelmente Bryonia cretica ssp. dioica (anteriormente classificada como Bryonia dioica).

Esta planta pertence à família Cucurbitaceae e é vulgarmente conhecida como briónia-branca ou nabo-do-diabo.

É nativa do sul e oeste da Europa e em Portugal é muito comum em todo o território continental.

O nabo-do-diabo é uma planta herbácea, trepadora, que se apoia facilmente a outras plantas e estruturas por meio de gavinhas. Os caules são quadrangulares, fibrosos e revestidos de pêlos e as gavinhas são simples, verdes e podem crescer até cerca de 15 centímetros. 

As folhas são pecioladas e/ou palmadas e cordiformes na base, muito parecidas com as folhas da videira. São verde-escuras e geralmente ásperas, devido à presença de pêlos. A página superior é verde-escura e a parte inferior é glauca, devido à maior presença de pêlos.

As flores surgem em inflorescências, são formadas por cinco pétalas brancas, com linhas verdes e fundidas. As flores masculinas estão dispostas em cachos, em conjuntos de cerca de 17 flores, e as femininas estão dispostas em corimbos, em conjunto de sete flores.

O fruto é esférico, de cor verde, depois torna-se avermelhado quando maduro. As sementes são castanhas.

O nabo-do-diabo é conhecido pelas suas propriedades purgativas e diuréticas, embora a sua utilização deva ser sempre acompanhada e aconselhada por um técnico de saúde.


Agora é a sua vez.

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Que espécie é esta: aranha-dos-troncos-grande

Por Equipa Wilder

A leitora Alexandra Rosa encontrou esta aranha em Cascais-Sintra a 21 de Novembro e pediu ajuda para saber qual a espécie. Pedro Sousa responde.

“Encontrei a 21 de novembro na zona de Cascais-Sintra. Será uma aranha de tronco grande ou uma aranha lobo? Não consigo perceber bem”, escreveu a leitora à Wilder.

Trata-se de uma aranha-dos-troncos-grande (Zoropsis spinimana).

Espécie identificada e texto por: Pedro Sousa, investigador do CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos).

Parece ser uma Zoropsis spinimana, um macho.

Esta é a maior das duas espécies deste género que se conhecem em Portugal continental. Há uma terceira espécie que existe na Madeira.

Estas aranhas podem ser de grandes dimensões quando atingem o estado adulto, possuem quelíceras robustas e podem defender-se mordendo quando se sentem encurraladas, existindo registos de mordeduras por esta espécie na Suíça

De qualquer forma, as mordeduras parecem ter apenas efeitos moderados segundo o mesmo registo suíço, desaparecendo os seus efeitos passados poucos minutos ou horas.

Estas aranhas são robustas e podem encontrar-se ativas todo o ano. São capazes de subir a superfícies como vidro, ao contrário de espécies com aspecto semelhante, como as aranhas lobo.

São muitas vezes encontradas junto a construções humanas, onde procuram abrigo não só dentro de vasos e outros recipientes, mas também em pilhas de lenha ou debaixo da sua casca.


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Rede portuguesa de Estações de Borboletas Nocturnas já registou mais de 500 espécies

Por Helena Geraldes

Saber onde estão e quando voam as borboletas nocturnas de Portugal é o objectivo da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas. Desde que começaram em janeiro de 2021, os cidadãos que estão a registar estes insetos em 50 locais de amostragem, incluindo em quintais e varandas de Norte a Sul do país, já fizeram mais de 11.000 registos de 512 espécies. Os resultados de 2021 já estão publicados na plataforma GBIF (Global Biodiversity Information Facility).

A Wilder falou com João Nunes, coordenador do projecto de ciência-cidadã Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN), e com a restante equipa. Aqui contam como funciona esta rede de vários locais de amostragem dispersos pelo país onde, de uma forma coordenada, se faz a amostragem destes insectos com recurso a um método estandardizado baseado em armadilhas luminosas. Além de aumentar o conhecimento sobre as espécies de Portugal, esta rede – que recentemente passou a integrar a equipa de peritos do “Que Espécie é Esta?” – ajuda a reunir os naturalistas num objectivo comum.

Foto: Rede de Estações de Borboletas Nocturnas

WILDER: Quando e porquê começou esta a REBN a funcionar?

REBN: A Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN) começou a funcionar em Janeiro de 2021. Apesar de Portugal ter cerca de mais de 2.600 espécies de borboletas nocturnas conhecidas, os aspectos da ecologia e fenologia de muitas espécies são ainda mal conhecidos. Assim, achámos que um projecto de ciência-cidadã poderia ser a solução para uma amostragem em grande escala e de forma sistemática. Outro aspecto muito importante do projecto é a divulgação e sensibilização para a diversidade de espécies de borboletas nocturnas e o seu papel como bioindicador da qualidade dos habitats. 

W: Neste momento, quando estão prestes a fazer dois anos, quantas estações existem e onde se encontram?

REBN: Neste momento temos 50 locais de amostragem, que designamos de “Estações”. Estas estações estão distribuídas por todo o país e em vários habitats diferentes, que vão desde varandas em prédios inseridos em ambiente urbano até zonas dunares. Todos os habitats são interessantes de amostrar embora, por uma questão de facilidade de acesso regular, muitas estações estão localizadas em jardins e quintais. Uma característica demográfica do nosso país é também reflectida na distribuição das estações, já que muitas estão concentradas na faixa litoral, onde há uma maior concentração de população. Esta é uma tendência que gostaríamos de contrariar e estimular a criação de estações no interior do país, que é muito biodiverso.

Spilosoma lubricipeda. Foto: João Nunes

W: Qual o objectivo desta rede?

REBN: Um dos grandes objectivos da REBN é a recolha sistemática de dados sobre borboletas nocturnas em Portugal. Estes dados podem depois ser trabalhados de vários ângulos, mas de forma mais imediata é possível obter dados sobre a distribuição das espécies no território e períodos de voo. Pretendemos que a REBN seja um projecto de amostragem a longo prazo, de forma a trabalhar as tendências populacionais para as espécies mais comuns. Só com uma amostragem continuada no tempo, regular e padronizada é possível detectar variações nas populações de borboletas nocturnas. A REBN disponibiliza integralmente os dados que recolhe na Global Biodiversity Information Facility (GBIF), uma plataforma que agrega dados biológicos e que permite outros investigadores utilizarem os dados.

Ao integrarmos cidadãos que nunca tiveram contacto com as borboletas nocturnas estamos também a criar uma maior consciencialização para a diversidade de espécies e a necessidade de preservação dos habitats. Apesar de os dados serem muito úteis quando analisados em conjunto, há também uma outra dimensão local que é desafiante para os participantes, por exemplo, perceber quantas espécies visitam o seu jardim ou quintal.

W: Quem coordena as estações e de quem partiu a iniciativa?

REBN: A iniciativa para a criação deste projecto partiu do Helder Cardoso, ornitólogo e que se dedica a estudar borboletas nocturnas de forma amadora há 12 anos. Na sequência de amostrar durante vários anos na região Oeste, surgiu a ideia de tentar comparar dados com outros locais e seguiu-se o contacto com outros entusiastas das borboletas nocturnas.  Rapidamente a ideia evoluiu para a criação de um projecto de ciência-cidadã. Os moldes do projecto são muito próximos do que tem vindo a ser feito noutros países do norte e centro da europa, caso do Reino Unido, Holanda ou Bélgica. 

Foto: Rede de Estações de Borboletas Nocturnas

Neste momento o projecto é coordenado por um grupo informal de seis elementos (Ana Valadares, Helder Cardoso, João Nunes, João Tomás, Paula Banza e Thijs Valkenburg) e conta com o apoio de outras pessoas organizadas em pequenos grupos de trabalho, dedicados à edição do boletim informativo ou à divulgação do projecto. 

W: Em que consistem estas estações e como funcionam? 

REBN: A REBN é essencialmente uma rede de pontos de amostragem de borboletas nocturnas (Estações), com recurso a armadilhas luminosas não letais. Estas armadilhas são colocadas num local fixo e que, idealmente, não sofra muitas alterações de habitat. O princípio de funcionamento é muito simples: a lâmpada vai atrair as borboletas para dentro de uma caixa de retenção temporária. As borboletas ao entrarem, têm dificuldade em sair e vão ficar pousadas nas caixas de ovos vazias no interior. 

As armadilhas devem funcionar pelo menos uma vez por mês, onde a lâmpada é ligada ao final do dia e fica a atrair borboletas a noite toda para dentro da caixa de retenção. Na manhã seguinte a armadilha é visitada e procede-se à identificação e contagem do número de indivíduos por espécie e as borboletas são posteriormente libertadas. 

As amostragens decorrem durante todo o ano, já que muitas espécies estão apenas activas nos meses de inverno. 

Rhodometra sacraria. Foto: Ana Valadares

Mensalmente temos também a publicação de um boletim informativo (Borboletim). No boletim são abordados diversos temas relacionados com as borboletas nocturnas, incluindo artigos de identificação de espécies mais difíceis e também uma compilação dos dados do mês anterior. Qualquer pessoa pode subscrever o boletim gratuitamente e ficar a par do que se vai fazendo no projecto.

W: As pessoas comuns podem participar? Se sim, como? É preciso ter conhecimentos sobre estes insectos? 

REBN: A participação na REBN é aberta a todos, mesmo a quem não tem qualquer tipo de experiência prévia com borboletas nocturnas e a sua identificação. Basta ter vontade de aprender e descobrir o mundo natural. 

O primeiro passo para começar a participar é contactar a REBN de forma a podermos explicar como construir uma armadilha simples e onde a colocar. Criámos ainda várias ferramentas com o intuito de auxiliar quem está a começar incluindo um e-mail dedicado a dúvidas de identificação, um pequeno guia das borboletas nocturnas mais comuns e um grupo de Facebook. 

W: Na vossa opinião, qual a importância deste projecto?

REBN: Projectos de monitorização de invertebrados são algo de extrema importância no panorama actual para que possamos perceber e quantificar, a longo-prazo, as tendências nas populações destes organismos. O declínio dos insectos é uma problemática conhecida. Contudo, em Portugal não temos dados passados que nos permitam quantificar com rigor quanto perdemos até agora, ou quanto o cenário se modificou até agora. Projectos semelhantes à REBN já existem em alguns países da Europa. O projecto inglês já conta com mais de 30 anos de dados, o que permitiu constatar recentemente (“The State of Britain’s Larger Moths 2021 report”), entre outras coisas, a alteração dos padrões de distribuição de algumas espécies e uma generalizada queda na abundância. Este projecto pioneiro em Portugal permitirá, a longo-prazo, avaliar o estado das populações, a real fenologia e distribuição das espécies e a sua variação no tempo. A recolha de informação já começou, agora é a parte mais difícil, manter as amostragens. As borboletas nocturnas são um grupo usualmente utilizado neste tipo de estudos devido à facilidade de atracção destes animais.

Foto: Rede de Estações de Borboletas Nocturnas

W: Quais os principais resultados para já?

REBN: Após apenas um ano de amostragens completo, é difícil anunciar resultados muito elaborados por falta de relevância do componente tempo nos dados. Um ano de amostragens não é suficiente para avaliar tendências. Contudo, é de destacar a enorme massa de dados produzida que, no imediato, permitiu estender a área de distribuição conhecida de algumas espécies. Entre as 512 espécies registadas no projecto, o correspondente a mais de metade das macro-borboletas citadas para Portugal, em 41 foi possível aumentar a distribuição conhecida.

Foram angariados um total de 11.123 registos, o que por si só é um resultado surpreendente, fruto do trabalho de muitos cidadãos empenhados que possuem agora uma nova e recompensadora actividade.

W: Quais as espécies mais registadas?

REBN: Relativamente ao ano de 2021, as cinco espécies mais registadas ao nível de número de observações foram: Gymnoscelis rufifasciata (324), Eilema caniola (205), Hoplodrina ambigua (175), Idaea degeneraria (175) e Mythimna unipuncta (159). Já ao nível do número de indivíduos registados, as espécies mais contabilizadas foram Eilema caniola (1316), Agrotis puta (1060), Gymnoscelis rufifasciata (1019), Hoplodrina ambigua (805) e Rhodometra sacraria (745), sendo o pódio muito semelhante. Todas estas espécies são bastantes comuns em Portugal, por vezes mesmo em zonas urbanas, sendo previsível a sua predominância nos registos. No total, foram contabilizados 28.668 indivíduos.

Hyles euphorbiae. Foto: João Nunes

W: Qual o destino desses resultados?

REBN: O destino dos resultados vai-se tornando mais abrangente com a duração do projecto. A curto-prazo, o destino dos resultados passa principalmente por complementar o conhecimento de distribuição das espécies já existente. Os registos de 2021 em que isto se verifica serão publicados brevemente em revista científica, tendo a submissão do manuscrito já sido feita. Anualmente pretendemos também publicar todos os dados na plataforma GBIF (Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade), de forma que os dados gerados possam ser utilizados livremente pela comunidade científica e não só. Todos os registos de 2021 foram recentes publicados, num total de 11.123 registos. Já a longo-prazo, pretende-se que os dados sejam utilizados de uma forma mais holística que permita aferir tendências globais e específicas de cada espécie, pelo menos das mais comuns. Para isso serão necessários alguns anos de trabalho, de forma a garantir que os resultados estatísticos representam as reais tendências e não variações anuais.

W: E como identificar borboletas nocturnas?

REBN: As borboletas nocturnas, tal como qualquer outro grupo de insectos e invertebrados, exigem um cuidado especial na sua identificação. Isto porque a diversidade existente nestes organismos é muito superior à observada, por exemplo, nos vertebrados, o que origina inúmeros casos de espécies morfologicamente pouco distintas entre si. Para além disso, são seres naturalmente pequenos, o que dificulta ainda mais a sua separação. Em muitos casos, a opinião de um especialista é necessária.

Contudo, entre os insectos, as borboletas são talvez a ordem mais fácil para se trabalhar ao nível das identificações. A existência de um padrão característico de cada espécie (mesmo que variável) garante diversidade morfológica suficiente para facilitar a tarefa, mesmo para um olhar menos experiente. Na REBN o grupo-alvo são as macro-borboletas nocturnas, que em si constituem perto de 1.000 das mais de 2.600 espécies de borboletas nocturnas registadas em Portugal. Nestas, a identificação passa muitas vezes por ser trivial, já que são espécies maiores e geralmente muito distintas entre si.

Mythimna unipuncta. Foto: Ana Valadares

A tarefa de identificação levada a cabo pelas estações de amostragem é auxiliada por parte do projecto de três formas: 1) Fornecimento de um guia fotográfico digital com as espécies mais comuns; este é principalmente útil nas primeiras abordagens ao tema; 2) Através de um email de apoio para o qual as estações podem enviar todas as dúvidas relacionadas com as identificações; 3) Através de um grupo restrito às estações na plataforma Facebook, onde são colocadas e esclarecidas dúvidas taxonómicas e metódicas.

Grande parte das espécies mais abundantes passam a ser facilmente reconhecidas pelos responsáveis das estações depois de algumas observações. Isto é potenciado pelo facto de as estações consistirem em pontos fixos de amostragem, ou seja, haverá naturalmente recorrência de várias espécies. Pormenores a ter em conta para uma correta identificação incluem a própria morfologia do insecto, principalmente o seu padrão, e o período de voo – espécies semelhantes podem ter períodos de voo diferentes. A comparação com imagens de espécimes correctamente identificados e o esclarecimento com os especialistas que coordenam o projecto em caso de dúvida será sempre a metodologia mais adequada.

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Ave que não era vista por cientistas há 140 anos reencontrada na Papua Nova Guiné

Por Inês Sequeira

Desde 1882 que não havia registos do pombo-faisão-de-nuca-preta, agora filmado e fotografado pela primeira vez. Acredita-se que é uma espécie extremamente rara.

Uma equipa de investigadores e de conservacionistas passou o mês de Setembro em buscas nas florestas da ilha de Fergusson, na Papua Nova Guiné, até finalmente obter provas da existência do pombo-faisão-de-nuca-preta (Otidiphaps insularis). Imagens desta ave foram captadas por uma das 20 câmaras de foto-armadilhagem colocadas em vários locais da ilha, incluindo a montanha mais alta, o Monte Kilkerran.

“Quando recolhemos as câmaras de foto-armadilhagem, calculei que haveria menos de 1% de hipóteses de conseguirmos uma fotografia do pombo-faisão-de-nuca-preta”, reagiu Jordan Boersma, um investigador ligado à Cornell Universety (EUA) e co-líder da expedição, citado numa notícia da American Birds Conservancy (ABC). Esta associação dedicada à conservação das aves foi outro dos parceiros desta viagem de exploração na ilha de Fergusson, no Pacífico Sul.

“Depois de um mês de procura, ao vermos estas primeiras imagens do pombo-faisão pareceu-nos que tínhamos encontrado um unicórnio”, comentou John Mittermeyer, director do programa Aves Perdidas, ligado à ABC, e outro dos co-líderes da expedição. “Este é o momento com o qual sonhas a vida inteira, enquanto conservacionista e observador de aves.”

O pombo-faisão-de-nuca-preta tem uma cauda larga e achatada e um tamanho semelhante ao dos faisões, tal como outras espécies de pombo-faisão. Havia notícias de observações por caçadores locais, mas a ave nunca mais tinha sido vista por cientistas desde a primeira vez em que foi descrita para a ciência, em 1882.

Chamado localmente de ‘Auwo’, acredita-se que este pombo-faisão seja extremamente raro, e a redescoberta poderá ajudar a evitar a sua extinção, pois a espécie está ameaçada pela destruição das florestas onde vive. Os membros da equipa aperceberam-se de que o maior número destas aves se distribui pelo sopé do Monte Kilkerran, pois foi onde começaram a ouvir relatos da parte dos habitantes locais.

Foi aliás graças a um caçador local, Augustin Gregory, que a equipa finalmente obteve registos desta ave, dois antes da data agendada para o final da viagem. Este caçador explicou que já tinha observado a espécie várias vezes, num local de florestas densas junto ao rio Kwama, e que já tinha também ouvido os seus chamamentos. Nessa área foi colocada uma máquina de foto-armadilhagem que finalmente captou imagens da ave, 140 anos depois do último registo.

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Que espécie é esta: cogumelo Leratiomyces ceres

Por Equipa Wilder

O leitor Artur Cadete fotografou este cogumelo em Angeja, Albergaria-a-Velha, a 19 de Novembro, e pediu a identificação da espécie. A associação Ecofungos responde.

Trata-se de um Leratiomyces ceres, uma atualização taxonómica de Stropharia aurantiaca

Identificação da espécie e texto por: Ecofungos – Associação Micológica.

O chapéu possui uma cutícula bastante viscosa e nas margens podemos constatar a presença de vestígios da cortina protetora do himenófero (ou seja das lâminas na parte inferior do chapéu) – flóculos brancos. 

A cortina protege as lâminas de ataques de insetos na fase de crescimento do cogumelo. 

As lâminas, na sua maturação, variam na cor, de amarelas/cremes a pretas.


Agora é a sua vez.

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Leitores: onde ver pernilongos

Por João Serafim

João Serafim, 41 anos, escolheu o Sítio das Marinhas, na Moita, como um dos seus locais preferidos para estar na natureza. Ali, uma das aves de eleição são os lindos pernilongos.

Quero aqui deixar o meu testemunho de um lugar que adoro frequentar, passear e fotografar várias espécies de aves.

O Sítio das Marinhas – Centro de Interpretação Ambiental da Moita é um local onde passam várias espécies de aves e onde eu já tirei várias fotografias, algumas delas engraçadas, pelas várias posições em que alguma aves se colocam. Até parece que fazem pose para a foto.

Mas o que trago para mostrar são algumas fotos desta ave linda que se chama pernilongo (Himantopus himantopus), uma ave que habita por aqui praticamente todo ano.

É um local que adoro e gostava de deixar aqui o meu testemunho deste local e da variada fauna que por aqui se encontra.


Conheça aqui e aqui outras fotografias de natureza de João Serafim.

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O que procurar no Outono: o dragoeiro

Por Carine Azevedo

Carine Azevedo apresenta-nos esta espécie nativa da Madeira e dos Açores, que encontramos também em muitos jardins do continente, considerada uma das plantas mais originais e interessantes do mundo.

Muitas plantas chamam a atenção pela sua altura, diâmetro do tronco, tamanho da copa, pela sua forma ou longevidade. O dragoeiro (Dracaena draco) soma todas estas particularidades e muito mais. 

É um fóssil vivo que se destaca pelo seu aspecto invulgar e exótico, com uma copa em forma de guarda-chuva fractal. A sua seiva, em contacto com o ar, oxida e forma uma resina de tom vermelho-vivo conhecida como sangue de dragão – uma cor inesperada numa planta, que a tem envolvido em misticismo até à atualidade.

Foto: Frank Vincentz/Wiki Commons

O dragoeiro é uma espécie em grande perigo no meio natural, nativa dos arquipélagos da Madeira, Açores, Ilhas Canárias, Cabo Verde e sudoeste de Marrocos.

Embora não seja nativa de Portugal continental, esta espécie é muito comum em parques e jardins nesta parte do país, existindo aí alguns exemplares emblemáticos. Um destes tem mais de 400 anos de idade.

Asparagaceae 

O dragoeiro, também conhecido como sangue-de-dragão, é uma espécie da família Asparagaceae, que compreende cerca de 118 géneros e pouco mais de 3100 espécies.

Esta família, extremamente diversificada, encontra-se distribuída em quase todo o mundo. Inclui muitas espécies com elevado valor económico, como o espargo (Asparagus officinalis) – bastante apreciado, particularmente nas cozinhas francesa, inglesa e alemã – e os agaves: o agave-azul (Agave tequilana), usado para a produção de tequila, e o sisal (Agave sisalana), amplamente cultivado para a produção desta fibra natural.

Muitas outras espécies desta família são reconhecidas pelo seu potencial ornamental, das quais se destacam algumas das mais utilizadas em jardins: as iucas (Yucca spp.), a relva-de-sombra (Ophiopogon japonicus), as dracenas (Dracaena spp.), a nolina (Beucarnea recurvata), o aspargo-pluma (Asparagus densiflorus) e o clorófito (Chlorophytum comosum).

Em Portugal continental, há registo de pouco mais de três dezenas de espécies nativas distribuídas por 13 géneros botânicos, algumas das quais bem conhecidas, nomeadamente pelo seu interesse ornamental: a gilbardeira (Ruscus aculeatus), a cila (Scilla monophyllos), a cebola-albarrã (Drimia maritima) e o selo-de-salomão (Polygonatum odoratum), o muscari (Muscari neglectum), entre outras.

Cebo-albarrã. Foto: Zeynel Cebeci/Wiki Commons

No Arquipélago da Madeira há registo de cinco espécies nativas, distribuídas por três géneros botânicos, algumas das quais endémicas da região: o Asparagus nesiotes subsp. nesiotes, o Asparagus umbellatus subsp. lowei e o Ruscus streptophyllus.

Nos Açores há apenas registo do dragoeiro (Dracaena draco subsp. draco).

Dragoeiro

O dragoeiro é uma planta perene, de aparência arbórea, que apresenta um caule robusto, suculento e fibroso, e pode atingir até 15 metros de altura e cinco ou mais metros de diâmetro de circunferência. A casca é castanho-prateada e lisa, tornando-se rugosa com a idade, por vezes com listras horizontais e avermelhadas.

Esta planta tem um crescimento lento, podendo levar uma década para crescer apenas um metro de altura. Além disso, o seu caule cilíndrico ramifica-se por dicotomia, ou seja, o crescimento é feito por uma única célula apical que bifurca dando origem a dois ramos apicais, que a seu tempo se voltam a dividir repetidamente. Este processo ocorre apenas após a floração, aproximadamente a cada quinze anos. 

Foto: PVAraujo/Flora On Madeira/Flora-On Açores

Devido a esse intervalo de tempo, os exemplares mais jovens apresentarem-se escassamente ramificados, muitas vezes constituídos apenas por uma roseta terminal de folhas, no topo do caule. Já os exemplares mais antigos formam uma coroa densa de ramos e de folhas, originando uma copa com a configuração de um chapéu-de-chuva.

As folhas do dragoeiro são coriáceas, embora flexíveis e pontiagudas. São lanceoladas, com cerca de 60 centímetros de comprimento, verde-acinzentadas e surgem agrupadas nas extremidades dos ramos.

Quanto às flores, ocorrem no verão, entre julho e agosto, em grandes inflorescências cónicas que têm cerca de um metro de comprimento, crescendo a partir das pontas dos ramos. As inflorescências são constituídas por muitas flores pequenas, hermafroditas, actinomórficas, branco-esverdeadas, com seis tépalas e com uma fragrância característica.

A primeira floração ocorre por volta do décimo ano de idade, e as restantes seguem em intervalos de 10 a 20 anos.

Foto: PVAraujo/Flora-On Madeira/Flora-On Açores

JÁ os frutos são redondos, geralmente monospérmicos e com um diâmetro de cerca de 15 milímetros, de cor vermelho-alaranjada e uma textura carnuda. As sementes são pequenas e globosas, quase perfeitamente esféricas, muito duras, de cor esbranquiçada a nacarada.

Nativa de Portugal

O dragoeiro ocorre nas montanhas do Atlas, no sudoeste de Marrocos e na região da Macaronésia, nomeadamente nos arquipélagos da Madeira, Açores, Ilhas Canárias e Cabo Verde. 

A origem das populações existentes no arquipélago dos Açores é incerta. Alguns autores referem que a espécie não é nativa da região, sendo a sua presença provavelmente resultado da introdução precoce a partir de sementes da Madeira, ou mesmo das Ilhas Canárias e de Cabo Verde. No entanto, os mesmos autores apontam para a possível existência de subpopulações naturais nos Açores, nas ilhas de São Jorge e Flores.

Dragoeiro em Santo Antão, Cabo Verde. Foto: Christian Pirkl/Wiki Commons
Núcleo dos Dragoeiros, Funchal, ilha da Madeira. Foto: Paulo SP/Wiki Commons

Esta espécie, embora não seja nativa em território continental, é classificada como uma espécie nativa de Portugal devido à sua ocorrência natural nas ilhas da Madeira e dos Açores.

É uma planta adaptada às condições climáticas tropicais, subtropicais e temperados suaves. Tem preferência por locais com plena exposição solar, embora tolere a sombra parcial. A nível edáfico requer solos secos, férteis, arejados e bem drenados. 

Por outro lado, é tolerante aos ventos, a longos períodos de seca e a solos salgados, sendo por isso uma boa escolha para áreas costeiras. No entanto, não suporta temperaturas abaixo dos -4ºC e solos encharcados, pois as suas raízes não suportam permanecer molhadas, o que pode levar à sua morte.

Uma planta original

O dragoeiro é uma das plantas mais originais e interessantes do mundo. A aparência extraordinária e o porte arquitetónico garantiram-lhe um lugar de destaque em qualquer espaço verde. Esta planta cria uma característica paisagem muito interessante. Além disso, é resistente e pouco exigente em manutenção.

É uma boa alternativa ornamental para jardins de pedra, jardins suculentos e jardins mediterrânicos. Também pode ser uma escolha interessante para complementar qualquer ambiente com características tropicais e para zonas costeiras.

Foto: Senhormario/Wiki Commons

O dragoeiro pode ser plantado isolado ou em pequenos núcleos em canteiros de jardim, ou pode ser mantido em vasos e aí permanecer durante muitos anos, visto possuir um crescimento muito lento.

Esta planta foi vencedora do prestigiado Award of Garden Merit da Royal Horticultural Society, uma distinção que se destina a ajudar os jardineiros a escolher plantas que melhor se adequam a determinadas condições específicas, tendo por base um conjunto de critérios, nomeadamente a sua razoável resistência a pragas e doenças, boa constituição, estabilidade na forma e cor, entre outros.

Sangue-de-Dragão

O dragoeiro possui uma seiva transparente que quando exposta ao ar oxida, ficando com uma cor bem vermelha, sendo daí que surge o nome científico desta planta.

O termo genérico Dracaena deriva do grego drákaina = “dragão feminino”, pelo extrato vermelho extraído quando é feita uma incisão na casca ou quando é arrancada uma folha. Esta seiva vermelha é conhecida como sangue de dragão.

O epíteto específico draco vem de draconis (em grego drákon) = “dragão”, de reforço às características inerentes ao género.

Alguns autores apontam para a possibilidade de o nome desta espécie estar associado a Francis Drake (c.1540-1596), navegador e pirata inglês conhecido pelos seus inimigos espanhóis como “O Draco”.

Embora atualmente não seja muito utilizado como planta medicinal, no passado o sangue-de-dragão foi considerado um remédio para todos os males, sendo empregue para tratar problemas gastrointestinais, respiratórios, problemas da boca, feridas internas e externas, problemas de pele, entre outros. Foi amplamente vendido na Europa com o nome de sanguis draconis e atingiu preços elevados. Esta substância é ainda hoje utilizada na medicina chinesa.

A seiva do dragoeiro também tem sido amplamente empregue para a produção de corantes em tinturaria. Um dos usos mais reconhecidos da sua seiva é na produção de vernizes usados para revestir violinos, tais como os violinos stradivarius e outras madeiras finas.

Dragoeiros emblemáticos de Portugal e do mundo

Devido ao reduzido número de indivíduos existentes na natureza, esta espécies foi inserida na Lista Vermelha da Internacional Union for Conservation of Nature (IUCN), que a classifica globalmente como “Vulnerável”, em resultado da área restrita de ocupação, da fragmentação severa e do declínio contínuo da qualidade e da área de habitat.

No Arquipélago da Madeira, por exemplo, está quase extinta na natureza, e na Gran Canária desapareceu dos habitats naturais nos últimos anos.

Foto: Petteri Sulonen/Wiki Commons

A espécie está também incluída no Anexo IV da Diretiva Habitats.

Além dos dragoeiros em ambiente natural, existem alguns espécimes plantados que possuem características ímpares. Em Portugal, por exemplo, o destaque vai para o exemplar existente no Jardim Botânico da Ajuda. Segundo os registos, este espécime terá sido transplantado em 1768 e possuiria já porte adulto. É o exemplar mais antigo de Portugal, e é um dos exemplares mais antigos do mundo

Chegou a atingir os 23 metros de diâmetro do caule (medido a 1,30 metros), tornando-se um dos maiores exemplares do país. No entanto, no início da década de 2000 parte dos seus ramos partiram e outros apodreceram, tendo sido necessário ancorar os restantes de forma a manter a planta. 

Dragoeiro no Jardim Botânico da Ajuda. Foto: GualdimG/Wiki Commons

O dragoeiro mais antigo do mundo encontra-se em Tenerife, em Icod de los Vinos, Ilhas Canárias. É conhecido como El Drago Milenario, terá mais de 900 anos e será também recordista, tanto em altura (17,40 metros, em 2020) como em diâmetro do caule (17,44 metros, em 2015).

Se esta espécie o deixou curioso, quer pela sua longevidade, imponência ou aspeto invulgar, aproveite para a procurar em qualquer jardim ou espaço verde em território continental ou aproveite uma viagem aos arquipélagos da Madeira e dos Açores para a encontrar no seu habitat natural. 

Divirta-se e dê-nos a conhecer esse momento, partilhando as suas fotografias com #oqueprocurar #plantasdeportugal #floranativa e #àdescobertadasplantasnativas.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Dicotomia – tipo de ramificação em que um eixo se bifurca, dando origem a dois ramos apicais, que, a seu tempo, se voltam a dividir repetidamente.

Coriácea – que tem uma textura semelhante à casca da castanha ou do couro.

Lanceolada – com forma semelhante a uma lança.

Inflorescência – forma como as flores estão agrupadas numa planta.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).

Actinomórfica – flor com simetria radial, ou seja, a flor pode ser dividida em várias partes iguais.

Tépala – peça floral não diferenciada em pétala ou sépala.

Monospérmico – fruto que possui apenas uma semente.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.

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Projecto internacional vai trabalhar para a recuperação do maior abutre da Europa em Portugal

Por Inês Sequeira

Uma das metas é duplicar a população reprodutora do abutre-preto em território nacional até 2027, para um total de 80 casais.

Aumentar de quatro para cinco o número de colónias portuguesas desta espécie de ave necrófaga, considerada essencial para a manutenção de ecossistemas saudáveis, é outro dos objectivos do novo “LIFE Aegypius return – consolidação e expansão da população de abutre-preto em Portugal e no oeste de Espanha”, explica uma informação da associação Palombar, um dos parceiros desta iniciativa.

Durante cerca de 40 anos não houve reprodução de abutres-pretos (Aegypius monachus) em território português, onde só em 2010 a espécie voltou a nidificar, no Parque Natural do Tejo Internacional. É esta área protegida no distrito de Castelo Branco que alberga a maior colónia nacional desta espécie, com 31 casais.

São conhecidas hoje outras três colónias de abutre-preto, todas elas próximas da fronteira com Espanha: uma no Alentejo, onde vive a segunda maior colónia e onde recentemente foram marcadas três crias, na Herdade da Contenda; outra colónia mais recente, na Serra da Malcata; uma terceira no Parque Natural do Douro Internacional.

Populações muito frágeis

O problema é que, tanto em Portugal como do outro lado da fronteira, as populações desta grande ave “apresentam-se hoje muito frágeis, com baixa produtividade e ameaçadas por vários factores”, acrescenta a LPN – Liga para a Protecção da Natureza, outro dos parceiros do projecto. Entre as muitas ameaças estão os fogos florestais, o uso ilegal de venenos, pouca disponibilidade de alimentos, uso de fármacos veterinários como o diclofenaco, perturbação humana na época de reprodução e electrocussão em linhas eléctricas.

Abutre-preto. Foto: Francesco Veronesi / Wiki Commons

Estes problemas são ainda mais preocupantes porque cada casal de abutre-preto tem apenas uma cria por ano. E muitas das pequenas aves não chegam a sobreviver para além dos primeiros meses, devido precisamente a ameaças como a falta de alimento, a perturbação humana e a predação.

Outra das metas do LIFE Aegypius return é assim aumentar o sucesso reprodutor em Portugal, que mede o número de crias voadoras por cada ovo posto. Hoje, este indicador é considerado “muito baixo para uma população viável” – é de apenas 0,38 – e a meta é aumentá-lo para 0,5 – ou seja, uma cria de abutre-preto sobrevivente por cada dois ovos que forem postos.

Se forem alcançadas até ao fim do projecto, todas estas metas vão ajudar a que seja alcançado um dos grandes objectivos: o abutre-preto deixar de ser considerado como Criticamente em Perigo em Portugal – como foi classificado em 2005 pelo Livro Vermelho dos Vertebrados – descendo um degrau no risco de extinção, para o estatuto Em Perigo.

Mais áreas de alimentação sem vedações e munições sem chumbo

Tendo em vista a recolonização natural da espécie, segundo a LPN, estão previstas acções de gestão do habitat “para prevenir os incêndios florestais nas actuais colónias e a melhoria da disponibilidade de alimento através do estabelecimento e integração de novas áreas de alimentação não vedadas em Portugal”.

A transição para munições sem chumbo em várias propriedades de caça é outra das medidas, de forma a reduzir os episódios de intoxicação quando estas aves se alimentam de presas que foram caçadas. Planeada está também a “redução significativa da perturbação ao redor das colónias”, acrescenta esta organização não governamental (ONG).

O novo projecto é coordenado pela Vulture Conservation Foundation, uma organização europeia dedicada à conservação dos abutres, e vai ter um custo total de mais de 3,6 milhões de euros, financiados por Bruxelas em 75%, através do programa LIFE.

Entre os vários parceiros, além da Palombar e da LPN, contam-se outras cinco organizações portuguesas: a Herdade da Contenda, empresa municipal gerida pela autarquia de Moura; SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves; Associação Transumância e Natureza; GNR; Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e Biodiversidade. Do lado espanhol, o projecto integra a ONG Fundación Naturaleza y Hombre.

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Estava a andar na praia e encontrei uma ave marinha. O que faço?

Por Mónica Costa / SPEA

Mónica Costa, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), explica-nos quais são as principais causas para estes encontros à beira-mar e quais as medidas que devemos tomar.

‘Aves em terra, tempestade no mar.’ Este foi um ditado com o qual cresci, e que ganhou um outro significado quando vi a primeira ave ferida, numa praia. A partir do outono, é bastante frequente encontrarem-se aves com um ar debilitado que chegam às nossas praias, em busca de algum descanso. Por vezes estão feridas, outras vezes só cansadas ou até mesmo encandeadas pelas luzes urbanas.

O que se pode ter passado?

Durante a migração, as aves marinhas estão sujeitas a inúmeras dificuldades: cansaço, condições climáticas adversas, perturbações ou ameaças de origem humana, que podem levar a encontros infelizes. Muitas vezes estas aves chegam às nossas praias já exaustas (por vezes até feridas) e, em certas alturas do ano, pode ser mais comum encontrá-las. Quando não conseguem resistir, dão à costa, num fenómeno a que chamamos arrojamentos. A monitorização destes eventos pode dar-nos pistas muito úteis sobre o estado das populações, bem como sobre a saúde dos ecossistemas.

Luz noturna – o desatino das aves marinhas

É ainda frequente aves marinhas como a cagarra serem vítimas de encandeamento pela iluminação pública durante a noite. Imagine-se a sair de uma sala escura e dar de caras com um ‘mar de luzes’ que não lhe permitem distinguir o caminho até ao seu destino… e assim que avança, bate de frente com um móvel ou parede. É capaz de ficar um pouco abananado e ter de recuperar por alguns segundos, antes de tentar encontrar o caminho. É o que acontece muitas vezes com os juvenis, nos seus primeiros voos: encandeados, têm dificuldades em seguir na direção certa.

O que fazer se a ave estiver ferida

Se encontrar uma ave marinha em estado fragilizado, contacte o SEPNA/GNR ou o Centro de Recuperação mais próximo. Evite tocar em aves selvagens, pois podem ser transmissoras de diversas doenças. Se tiver mesmo de o fazer, use luvas e máscara de proteção.

Nos Açores e Madeira, pode dar-se o caso de ser uma ave que foi encandeada pela iluminação durante a noite. Usando luvas e máscara, aproxime-se lentamente e cubra-a com um pano, toalha ou casaco, tendo especial cuidado com o bico, pois o animal pode tentar defender-se. Agarre na ave e coloque-a numa caixa de cartão com furos. Se não estiver ferida, dirija-se, à noite, a uma praia pouco iluminada e solte-a colocando a caixa no chão, próxima do mar: abra a tampa e a ave saberá o que fazer!

Para mais informação consulte a página do projeto LIFE Natura@night.

Cheguei demasiado tarde…

No caso de se tratar de uma ave arrojada, os animais dão à costa já mortos, vítimas de diferentes situações como as condições climáticas ou artes de pesca onde ficam presas. No entanto, são um dado importante para se perceber a ocorrência e frequência destes eventos, e as possíveis causas de morte destes animais arrojados. Ajude-nos a recolher esta informação, enviando os registos do que encontrar para spea@spea.pt ou preenchendo o formulário disponível.


Saiba mais.

Leia a entrevista de dois voluntários, André Pinto e Maria Diogo, que participam na monitorização de aves que dão à costa portuguesa em arrojamentos.

E descubra quais são as espécies que mais vezes foram encontradas, em oito anos de monitorização.


Conte as Aves que Contam Consigo

A série Conte as Aves que Contam Consigo insere-se no projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, dinamizado pela SPEA em parceria com a Wilder – Rewilding your days e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA) e financiado pelo Programa Cidadãos Ativos/Active Citizens Fund (EEAGrants), um fundo constituído por recursos públicos da Islândia, Liechtenstein e Noruega e gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian, em consórcio com a Fundação Bissaya Barreto.

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Novo crowdfunding quer impedir construção de resort de luxo em Tróia

Por Inês Sequeira

Esta campanha, lançada pela plataforma Dunas Livres, destina-se a financiar os trabalhos em tribunal contra a construção do empreendimento “Na Praia”, prevista em cima das dunas.

A plataforma Dunas Livres inclui nove organizações não governamentais, como o GEOTA, a Quercus, a Sociedade para o Estudo das Aves e a LPN – Liga para a Protecção da Natureza. Desta estrutura faz também parte a associação Dunas Livres, “um movimento de cidadãos formado em 2020, para fazer frente ao desenvolvimento desmesurado da Costa Azul (Tróia a Melides), à expansão e construção de resorts e campos de golf em zonas ecologicamente sensíveis e com um papel importante na proteção costeira contra desastres ambientais”, afirmam em comunicado.

O novo empreendimento de luxo, baptizado “Na Praia”, “vai ser construído inteiramente em cima de dunas, reconhecidas pela sua biodiversidade e excelente estado de conservação, mesmo na frente oceânica”, acrescentam os responsáveis da plataforma, que afirmam que o estudo de impacto ambiental deste projecto “é conclusivo e refere que o impacto é ‘negativo, direto, certo, permanente, irreversível, de magnitude forte e muito significativo'”.

A dona do projeto é Sandra Ortega, herdeira do império Inditex, ao qual pertencem a ZARA e outras grandes cadeias de retalho. A norte da localização prevista situa-se o aldeamento Soltróia, construído nos anos 70; a sul a pequena Reserva Botânica das Dunas de Tróia, da Reserva Natural do Estuário do Sado. Esta reserva botânica, aliás, “não foi delimitada com área suficiente”, pois desde o Estado Novo “houve um ‘lobby’ para excluir o terreno em que o resort será construído […] da delimitação da reserva, através de um programa para edificar o maior pólo turístico da Europa em metade desta península dunar, ainda durante o Estado Novo”, acusa a plataforma.

Além do mais, o mesmo movimento considera que o processo de licenciamento tem sido pouco transparente. “O licenciamento do projeto ainda não se encontra concluído, apesar de a Câmara Municipal de Grândola ter passado uma licença precária de estaleiro no mesmo dia em que a Plataforma Dunas Livres apresentou uma denúncia às autoridades do início de obras ilegais no local, com dois meses de terraplanagem de dunas e destruição total da vegetação, sem sequer alvará de construção”, avança Teresa Santo, porta-voz da Plataforma Dunas Livres, citada no comunicado.

 Entretanto, de acordo com esta organização, foi solicitada à autarquia uma cópia integral do licenciamento do projecto turístico, um documento de acesso público, mas “esse acesso foi negado inúmeras vezes.” O documento terá sido finalmente cedido mas só depois de um recurso ao tribunal, sendo que a Câmara Municipal de Grândola “solicita um valor monetário pelo documento, sem que exista um fundamento legal para o fazer”.

“Acontece que temos pouco tempo e necessitamos de aceder a esses documentos com a maior rapidez. Torna-se assim necessário pagar o valor de €1180″, apela Teresa Santos. Nesta quarta-feira, esse dinheiro já tinha sido conseguido no âmbito da campanha de crowdfunding, com um total de 4.853 euros reunidos até ao final da manhã, através da contribuição de 162 doadores.

O A Plataforma Dunas Livres compromete-se a publicar mensalmente um relatório de contas, com transparência financeira para que os doadores possam acompanhar a utilização do fundo. Para além disto, serão sempre divulgadas, nas redes da Plataforma, novas informações sobre a evolução e os meandros deste problema complexo. 

A dona do projeto “Na Praia” é Sandra Ortega, herdeira do império Inditex, ao qual pertence, por exemplo, a ZARA. Todo o processo de licenciamento ambiental sofreu inúmeras irregularidades, que exigem investigação e julgamento em tribunal.

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Stress causado pela invasora perca-sol foi afinal o que dizimou os anfíbios do Gerês

Por Inês Sequeira

Uma equipa de investigadores recorreu às colecções de anfíbios no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) para fazer uma viagem ao passado, que trouxe interessantes descobertas.

Até agora, acreditava-se que a perca-sol, um peixe exótico introduzido no Gerês em meados dos anos 1990, teria sido o veículo transmissor do ranavírus, um vírus que levou ao colapso das comunidades de anfíbios um pouco por toda a Europa no final dessa mesma década, especialmente em Portugal e Espanha. Esta doença causa ulcerações e hemorragias na pele destes animais.

No entanto, um novo estudo publicado esta terça-feira, na revista Nature Communications, veio mostrar que a história do ranavírus poderá ser bem mais complexa, estando ligada afinal à perturbação e ao stress provocados pela introdução de uma nova espécie exótica.

A Lagos dos Carris, uma lagoa de 1,5 hectares situada a 1500 metros de altitude, dentro da área de protecção total do Parque Nacional da Peneda-Gerês, foi o sítio escolhido para esse estudo realizado por uma equipa de investigadores liderada por Gonçalo Rosa, do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Lagoa dos Carris. Foto: Gonçalo Rosa, cE3c

Há cerca de duas décadas, esta lagoa era conhecida por conter uma comunidade diversa de anfíbios, como a rã-verde e o sapo-parteiro-comum, sendo um sítio importante de nidificação para o tritão-marmoreado, recorda o artigo científico agora publicado. Entretanto, as primeiras mortes de tritão-marmoreado, causadas pelo ranavírus, foram registadas em 1998 e os números desta espécie caíram drasticamente. Outras espécies foram também fortemente afectadas, como o sapo-parteiro-comum, que desde 2004 não foi mais observado nesta lagoa.

Tritão-marmoreado com as ulcerações típicas da ranavirose, fotografado no Gerês. Foto: Gonçalo Rosa, cE3c

Guardados há 40 anos

Numa tentativa de perceber o que terá sucedido, os investigadores extraíram e analisaram o ADN de tritões-marmoreados recolhidos na Lagoa dos Carris na década de 1980, que estavam guardados nas colecções do MUHNAC. Estes tritões tinham sido apanhados mais de uma década antes das primeiras mortes por ranavírus.

A equipa comparou ainda essas amostras com as de tritões-marmoreados recolhidos durante as epidemias (2001-2004) e depois (2015-2020), e ainda com amostras de perca-sol apanhada na mesma lagoa. Foram ainda analisados outros anfíbios, recolhidos noutros locais do Gerês.

Amostragem na Lagoa dos Carris. Foto: Gonçalo Rosa, cE3c

“Surpreendentemente, descobriram que os anfíbios [tritões-marmoreados] das coleções também estavam infectados com ranavirus, cerca de 10 anos antes dos surtos e da introdução da perca-sol”, explica um comunicado divulgado pelo cE3c. “Quando comparadas as estirpes de ranavirus dos anfíbios e da perca-sol verificou-se ainda que eram efetivamente diferentes, e que a mortalidade foi provocada pelo vírus que já estava em circulação desde os anos 80.”

Mas de onde teria vindo então esse vírus? Tal como alguns estudos anteriores, os investigadores sugerem que esse grupo de ranavírus “poderá ter-se originado na Europa e ter uma associação antiga com os anfíbios”. Ao invés de ter sido introduzido pela perca-sol, o ranavírus já estaria alojado nas suas vítimas desde há muito tempo, mas num estado adormecido, sem as afectar.

O problema da perca-sol

Mas a perca-sol não fica isenta de culpas, pois continua a estar associada à mortandade causada pelo ranavírus no Gerês: terá sido a perturbação causada pela entrada deste peixe-invasor no ecossistema que causou altos níveis de stress e “uma disrupção do sistema imunitário dos anfíbios”, levando a que a relação destes animais com o vírus de que eram hospedeiros ficasse desequilibrada, consideram os investigadores.

“A descoberta realça assim a importância de se proceder à remoção da perca-sol do Parque Nacional da Peneda-Gerês (e de outros ecossistemas), para que as populações de anfíbios possam recuperar a sua resistência e prosperar.”

Para Gonçalo Rosa, esta descoberta “virou a história do avesso” e veio demonstrar que “os grandes surtos podem não acontecer pelo aparecimento de um novo agente patogénico, mas antes resultar da rutura de um equilíbrio ecológico estabelecido”.


Saiba mais.

Na Serra da Estrela, o ranavírus tem também provocado um declínio preocupante de alguns anfíbios, como o tritão-de-ventre-laranja.

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Voluntários salvaram 88 cagarras na Madeira

Por Inês Sequeira

A campanha “Salve uma Ave Marinha” contou com a ajuda de dezenas de voluntários que patrulharam as ruas de várias localidades, em busca de jovens cagarras desorientadas pelas luzes artificiais.

Estas brigadas de patrulhamento andaram pelas ruas do Funchal, Câmara de Lobos, Machico, Santa Cruz e Santana, à procura das cagarras que nesta altura do ano deixam os ninhos e voam na direcção das luzes artificiais, caindo nas cidades. Depois de medidas e anilhadas, para serem acompanhadas no futuro, as aves resgatadas foram devolvidas ao mar.

“Os resultados destas brigadas científicas da Campanha Salve uma Ave Marinha foram excelentes e conseguimos, ao longo de 14 dias, desempenhar um papel crucial na sobrevivência das jovens cagarras”, indicou em comunicado a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Madeira), que coordena esta iniciativa, realizada entre 23 de Outubro e 5 de Novembro.

Segundo a SPEA, estiveram envolvidos 50 voluntários locais e 12 voluntários externos à região, que percorreram 160 quilómetros diariamente, num total de 2.240 quilómetros. Foram salvas 88 cagarras; outras cinco aves da mesma espécie não foram socorridas a tempo.

A campanha “Salve uma Ave Marinha”, que se realiza no âmbito do projeto LIFE Natura@night, vai prolongar-se ainda até esta terça-feira, dia 15. “Esteja atento e, caso encontre uma ave, contacte a Rede SOS Vida Selvagem do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, RAM, através do 961957545”, apela a SPEA Madeira.

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O que procurar no Outono: o bordo

Por Carine Azevedo

Esta árvore nativa de incrível beleza, que pode crescer até aos 30 metros, veste-se agora de cores especiais e presenteia-nos com os seus curiosos frutos. Carine Azevedo desafia-nos a partirmos à sua descoberta.

O outono é sinónimo de transformação. As folhas de algumas árvores, antes de caírem sobre o solo, mudam de cor, passando do verde para uma paleta de amarelos e castanhos, a que se juntam tons de vermelho, laranja e roxo.

Simultaneamente, é nesta estação que algumas espécies nos brindam com os seus frutos, como acontece com os áceres, os liquidambares, os amieiros, os plátanos, os carvalhos e tantos outros, todos eles com formas bem peculiares.

O bordo (Acer pseudoplatanus) é exemplo de uma árvore de incrível beleza em qualquer época do ano, mas que no outono se “veste” de cores especiais e nos presenteia com os seus curiosos frutos, que se mantêm na árvore mesmo depois da queda total das folhas.  Vamos conhecer melhor esta espécie nativa. 

Foto: AnRo0002

Sapindaceae

A família Sapindaceae, à qual pertence o bordo, contém cerca de 143 géneros botânicos e perto de 2000 espécies, principalmente árvores e arbustos e, mais raramente, herbáceas. 

Alguns das espécies mais comuns e conhecidas desta família são: o guaraná (Paullinia cupana), o castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum), a árvore-da-chuva-dourada (Koelreuteria paniculata), o bordo-negundo (Acer negundo) e o ácer-do-Japão (Acer palmatum), entre outras.

O género Acer é um dos mais importantes géneros desta família, estando representado por aproximadamente 150 espécies. Os membros deste género ocorrem maioritariamente nas regiões temperadas do Hemisfério Norte, sendo a Ásia o continente com maior representatividade. Na Europa, América do Norte e no norte de África, também ocorrem algumas espécies deste grupo. 

Em Portugal, a família Sapindaceae está exclusivamente representada pelo género Acer, existindo apenas duas espécies nativas: a zelha (Acer monspessulanum) e o bordo (Acer pseudoplatanus). No entanto, são inúmeras as espécies exóticas desta família que ocorrem em território nacional, muitas delas comuns em jardins e outros espaços verdes, como é o caso do castanheiro-da-índia, do ácer-do-Japão, da árvore-da-chuva-dourada, entre outras.

Existem outras espécies, como o bordo-comum (Acer campestre), o bordo-de-granada (Acer opalus) e o bordo-negundo (Acer negundo), que facilmente se naturalizaram e têm algumas populações assilvestradas nas nossas florestas.

O bordo

O bordo é também vulgarmente conhecido como padreiro, zelha, falso-plátano e plátano-bastardo. Os dois últimos nomes devem-se à semelhança das suas folhas e da sua casca com as do género Platanus. A denominação científica Acer pseudoplatanus deve-se igualmente à proximidade morfológica. 

Foto: Radio Tonreg/Wiki Commons

O nome do género Acer é o nome latino para o ácer (bordo) e também significa afiado, pontiagudo, pungente, tanto pela forma pontiaguda das folhas quanto pelo uso da sua madeira para fazer lanças. Segundo algumas fontes, os romanos usavam a madeira do bordo para o fabrico dessas armas.

O restritivo específico pseudoplatanus deriva do prefixo grego pseudo = pseudo, falacioso, enganador e do género Platanus, ou seja, falso-plátano, devido à semelhança das suas folhas e da sua casca.

É uma árvore de grande porte, que pode atingir até 30 metros de altura. Possui uma copa ampla, densa e ligeiramente irregular. Tem tronco reto, revestido por uma casca lisa e acinzentada, que se torna mais escura, escamosa e fendida, que se desprende em placas na idade adulta, lembrando a casca do plátano.

Foto: Marija Gajić

É uma espécie caducifólia, de folhas simples, opostas e palmadas, dividida em três a cinco lóbulos agudos e desiguais, sendo que o tamanho e o recorte das folhas variam com a idade. As árvores mais jovens, por exemplo, possuem folhas maiores e profundamente lobadas, com pecíolos avermelhados. Já os exemplares mais velhos apresentam folhas mais pequenas, com lóbulos menos profundos, sendo os lóbulos basais mais pequenos que os restantes. O pecíolo é mais curto e de cor verde-amarelada ou rosada.

A página superior das folhas desta árvore é lustrosa, glabra e verde-escura, enquanto que a inferior é mais clara, glauca ou avermelhada, com pêlos ao longo das nervuras principais. 

Foto: Zerocool.marko

Quanto à floração do bordo, ocorre entre abril e maio. As flores são pequenas, hermafroditas ou unissexuais, de cor amarelo-esverdeado e de simetria radial. Têm pedúnculos longos e surgem em inflorescências densas de 60 a 100 flores, terminais e pendentes.

Por sua vez, os frutos aparecem no outono, e ocorrem geralmente aos pares, formando uma dupla sâmara ou dissâmara. A dissâmara é um fruto seco, glabro e alado, provido de asas membranosas, que são estreitas na base e amplas na extremidade, formando um ângulo de aproximadamente 90º entre si. 

Foto: AnRo0002/Wiki Commons

Os frutos do bordo são verdes a avermelhados quando jovens e tornam-se acastanhados quando maduros, mantendo-se na árvore durante muito tempo, mesmo depois da queda das folhas.

Uma espécie nativa

O Acer pseudoplatanus é a espécie do género Acer mais comum em toda a Europa. É uma espécie nativa da Europa Central, Bacia do Mediterrâneo, Cáucaso e Ásia Menor.

O bordo está presente em Portugal, sobretudo em áreas montanhosas, sendo mais comum a norte do Tejo. Embora seja uma espécie nativa, há também várias populações de origem não autóctone que facilmente se naturalizaram, tornando-se difícil atualmente distinguir as populações autóctones das naturalizadas.

Esta espécie também ocorre nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, onde foi introduzida no passado. Na Região Autónoma da Madeira, aliás, está classificada como espécie invasora.

Devido à sua plasticidade ecológica e capacidade de se adaptar a uma grande diversidade de habitats, o bordo também está listado como planta invasora em algumas regiões dos Estados Unidos da América, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha e Noruega.

Foto: AnRo0002/Wiki Commons

Esta é uma árvore rústica de sombra ou de meia sombra, que prefere as regiões montanhosas húmidas e exige boas precipitações, embora suporte bem o calor e a seca. É exigente a nível edáfico, sendo todavia indiferente ao pH, e é um bom indicador de solos férteis. O solo destas árvores deve ser fresco, profundo, bem drenado, fértil e rico em nutrientes.

É uma espécie resistente ao frio e às geadas tardias e também muito resistente ao vento, tolerando alguma exposição marítima. Aguenta bem a poluição atmosférica, sendo por isso muito usada em contexto urbano. E além disso, o bordo é uma espécie de crescimento rápido, que se estabelece rapidamente e pode viver entre 300 e 400 anos.

Ecologicamente trata-se de uma espécie muito importante, já que são vários os insetos que dependem desta árvore. Algumas espécies de lagartas de borboletas alimentam-se das suas folhas e as suas flores, muito melíferas, fornecem um precioso pólen a abelhas, borboletas e outros insectos, que também auxiliam na polinização do bordo.

Já a dispersão das sementes ocorre por ação do vento, pois as asas que envolvem as mesmas rodam com o vento durante a queda. Este mecanismo permite que as sementes sejam dispersas a longas distâncias.

Árvore ornamental de sombra

O bordo tem várias aplicações. É utilizado para fins ornamentais, geralmente isolado em parques e jardins, ou em alinhamentos em avenidas e alamedas. As folhas são vistosas, verdes na página superior, aveludadas e avermelhadas na parte inferior. No outono assumem tons de amarelo-dourado, laranja, vermelho ou castanho, criando um efeito visual único, antes de caírem. No verão, a sua copa ampla e a densa folhagem transformam-na numa excelente árvore de sombra. 

Foto: MurielBendel/Wiki Commons

Entre as espécies de áceres europeus, o bordo é aquele que tem a madeira mais valiosa, de grande qualidade e mais fácil de trabalhar, muito apreciada em tornearia, marcenaria e carpintaria. 

A madeira é leve, compacta, homogénea, brilhante, de cor branca a amarelo-dourada e lustrosa. É usada para a produção de móveis, revestimentos de paredes, estruturas para telhados, parquetes e para a produção de vários utensílios de cozinha (ex. colheres) e instrumentos musicais, especialmente violinos, e para culatras de armas de fogo. Fornece também um bom combustível.

Atualmente o bordo não é usado para fins medicinais ou outros usos terapêuticos. No entanto, sabe-se que no passado as folhas, os frutos e a casca das raízes foram muito utilizados na medicina tradicional, sendo-lhes atribuídas propriedades adstringentes e cicatrizantes.

As folhas eram usadas como colírio para tratamento de inflamações oculares, para evitar o choro involuntário, para cobrir feridas e tratar outros problemas da pele. Também eram usadas pelas suas capacidades isolantes, para dispor o peixe nos locais de venda ou para conservar produtos hortícolas como batatas ou maçãs.

Aproveite um passeio outonal para ver esta espécie em transformação.

As folhas estão a mudar de cor e os frutos são bastante particulares e divertidos. Apanhe um que esteja no chão e lance-o ao ar, vai ver como rodopia no ar até chegar novamente ao solo.  

Divirta-se e dê-nos a conhecer esse momento, partilhando as suas fotografias com #oqueprocurar #plantasdeportugal #floranativa e #àdescobertadasplantasnativas.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Naturalizada – espécie exótica que foi introduzida e que encontrou condições favoráveis para se expandir naturalmente na natureza, mantendo-se em equilíbrio com as espécies nativas durante muito tempo.

Caducifólia – planta cuja folha cai espontaneamente na estação do ano mais desfavorável.

Palmada – folha com a forma de uma mão com os dedos abertos.

Lóbulo ou lobo – parte do limbo da folha com recorte pouco acentuado e em regra arredondada.

Limbo – parte larga de uma folha normal.

Lobada – folha simples que possui margens profundamente recortadas que a dividem em pequenos lobos, no entanto, menores que a metade do limbo.

Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.

Glabra – sem pêlos.

Glauca – de cor verde-cinzenta-azulada.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).

Unissexual – flor que possui apenas órgãos reprodutores femininos ou masculinos.

Pedúnculo – “Pé” que sustenta a inflorescência.

Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.

Sâmara – fruto seco, indeiscente e monospérmico, semelhante ao aquénio, mas com asa membranosa, alada.

Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.

Monospérmico – fruto que possui apenas uma semente.

Alada – apresenta uma estrutura específica – asa – que auxilia a dispersão pelo vento.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.

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Crónicas naturais: Verão de São Martinho

Por Paulo Catry

Paulo Catry, biólogo, delicia-se com estes dias solarengos de outono e com a passagem de grandes bandos de pombos-torcazes, ali pela Beira raiana. “Chegam da Europa distante, da Alemanha, da Escandinávia, da Finlândia, vêm à procura das bolotas de sobreiros e de azinheiras no Sul.”

Beira Interior, Novembro 2022 

Sabe bem andar ao sol no campo verde. Há cestos com romãs e marmelos e há quem apanhe azeitona. Diospiros dependurados nos ramos finos. Pilriteiros carregados de bagas vermelhas. Tudo brilha, mas os dias deste verão são demasiado curtos… resta anotá-los, para que não escorram só entre os dedos logo ficando esquecidos. 

Montámos redes de captura de pequenos pássaros (para anilhagem) no quintal, com resultados mais magros do que habitualmente. Este ano há pouca azeitona, será por isso? Ou será pela seca que por aqui foi avassaladora? Só há coisa de duas semanas choveu mesmo a valer pela primeira vez. Um alívio de erva tenra e de musgo intumescido. Despontam cogumelos discretos. Ainda não há flores. 

Logo ao nascer do dia apanhámos dois tordos de plumagem sedosa ao tato, segurá-los por momentos é um prazer físico; libertá-los e vê-los voar é graça divina. E pensar que há quem ande por aí atrás deles aos tiros. 

Tordo-comum Turdus philomelos. “Segurá-los por momentos é um prazer físico; libertá-los e vê-los voar é graça divina.”

Durante a manhã o céu esteve encoberto, sem pinga de vento, cinzentos de todos os tons, névoa nos vales a trepar pelos declives, nuvens finas como fumo branco esfarrapado sobre um fundo de estratos escuros. Um breve chuvisco, quase impercetível.

A meio do dia surge o sol radiante. As nuvens brancas são agora sólidas, espalham sombras enormes na paisagem. Espaço amplo com molduras de montanhas distantes, aldeias esparsas, vistas desimpedidas, adoro a expressão em inglês para isto: “big skyes”. 

O dia aquece um pouco. Soa o canto dos chapins-reais, típico do tempo solarengo mas pouco quente. Chamamentos curtos de estorninhos, toutinegras, tentilhões, o conforto das aves habituais. Começa a dança outonal dos almirantes-vermelhos, borboletas de nome feio e de cores de encantar. 

Pelo verão de São Martinho, por todo o país dão especialmente nas vistas os almirantes-vermelhos Vanessa atalanta de asas estendidas ao sol. Foto: Kristian Peters/Wiki Commons

Depois do almoço sentamo-nos no alpendre a adiantar trabalho, mas logo vem um som de vento no ar parado, levanto-me de um salto, a tempo de ver um bando de duzentos pombos-torcazes voando bem altos, direitos a su-sudoeste, como sempre fazem nesta época do ano. Depois outro, e mais ainda, os bandos têm frente ampla, mais largos do que compridos. Voam rápidos no ar parado, a uns 60 km/h segundo medições feitas noutras paragens. Todos seguem a mesma rota, como se guiados pelas memórias das viagens de anos passados, dos antepassados.

É fácil observar aves migradoras, grande parte das espécies que frequentam o nosso país migram. Mas não é tão frequente assim ver aves a voar e ter a certeza clara de que vão em viagem (e não simplesmente num movimento das lides diárias, entre locais de repouso e de alimentação). Gosto especialmente de ver a passagem dos pombo-torcazes por isso. Chegam da Europa distante, da Alemanha, da Escandinávia, da Finlândia, vêm à procura das bolotas de sobreiros e de azinheiras no Sul. 

Todos estes pombos passam pelos Pirenéus ocidentais, afunilando-se nos colos das montanhas, e depois dirigem-se para a Extremadura espanhola e para o Alentejo*. Nas áreas de invernada comem nos montados e em campos agrícolas, num raio de dezenas de quilómetros em volta dos dormitórios onde se juntam para passar a noite. Nalguns dos locais de descanso chegam a agrupar-se às dezenas de milhares. No sudoeste peninsular passam o inverno dois ou três milhões destes bichos.**

Por esta época chegam a Portugal centenas de milhares de pombos-torcazes Columba palumbus, provenientes do norte da Europa. Foto: Aleksey Levashkin/Biodiversity4All

Aqui na Beira raiana, junto ao Erges, os bandos de torcazes não são uma certeza. Quando as condições meteorológicas de alguma forma empurram o fluxo mais para poente, veem-se milhares a passar por dia, congregados em grandes bandos, normalmente com cem a trezentos (às vezes quinhentos) pombos cada um. Noutros dias, nas mesmas épocas, não passa nenhum.   

Chegou a estar quente por um momento e o céu encheu-se de grifos, mas o sol cai cedo e ainda antes de passar pelo horizonte já o calor se dissipa. O verão fica logo esquecido, os sons e o ar lembram outros invernos e anunciam este que aí vem. Uma braçada de giesta para o arranque da lareira. Nos olivais e nos montados é a hora dos piscos, tic-tic-tic-tic até à última luz do dia. 

Vermelho denso acima do horizonte negro mesmo antes de a noite fechar-se. Frio, mas ainda se aguenta. Nas ruas de granito cheira a fogo de azinho. Sento-me outra vez no alpendre a querer agarrar o dia. O bufo-real não se cala, ouve-se também um ladrar distante e a passagem ao luar de uma laverca fugidia. Céu amplo, Júpiter, Saturno e as constelações da época. Ar quieto, rotas migratórias desimpedidas.

Vista ampla de 40 quilómetros, “big skyes” na raia beirã, com a serra da Gata ao fundo. Foto Paulo Catry

* Tellería JL 2009. Bird Cons Int.

** Bea A et al. 2003. Ornis Hung.


Saiba mais.

Leia aqui outros textos já publicados por Paulo Catry, professor e investigador do Mare – Marine and Environmental Sciences Centre, Ispa – Instituto Universitário, na série Crónicas Naturais. E também os artigos publicados em 2017, quando esteve à procura de aves marinhas no meio do Oceano Atlântico.

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Lista das Aves de Espanha cresce para 638 espécies

Por Inês Sequeira

O documento da organização espanhola SEO Birdlife ganhou agora mais 19 espécies em relação a 2019, incluindo raridades como o mocho-anão e o bufo-mourisco.

A Lista de Aves de Espanha contém as espécies de aves que oficialmente formam o conjunto de avifauna naquele país e que são certificadas pelo Grupo de Taxonomia da SEO Birdlife, organização espanhola dedicada ao estudo e conservação das aves.

“A Lista das Aves de Espanha é um inventário actualizado que contribui para o conhecimento da nossa biodiversidade e que tem, além do mais, implicações para a conservação”, sublinha Miguel Rouco, coordenador do Grupo de Taxonomia, citado num comunicado da SEO Birdlife. “Os avanços taxonómicos, que se reflectem na lista, podem guiar os esforços para preservar populações com um alto grau de diferenciação genética; por outro lado, a constatação de que há novas espécies invasoras constitui um sinal para que se iniciem medidas que impeçam a sua proliferação.”

O novo documento foi apresentado esta quinta-feira e contém mais 19 espécies do que a anterior versão, de 2019, quando da lista faziam parte 622 aves diferentes. Saíram outras três.

Mocho-anão. Foto: Frank Vassen/Wiki Commons

“As raridades, aves com avistamentos muito escassos no nosso país, constituem aproximadamente um terço das espécies da lista e são a base do seu crescimento”, explica a organização ambiental espanhola. Algumas das espécies que foram pela primeira vez avistadas em Espanha, e que entram para o documento, são o mocho-anão (Glaucidium passerinum), o bufo-mourisco (Bubo ascalaphus) e o milhafre-preto (Milvus aegyptius).

O mocho-anão, considerado o mocho mais pequeno da Europa, é uma ave ligada ao norte boreal, mas nos Pirinéus centrais parece agora existir “um pequeno núcleo reprodutor, ou mesmo colonizador”, indica a SEO Birdlife. Quanto ao bufo mourisco, foi “surpreendentemente localizado” em plena cidade de Melilha, uma cidade autónoma espanhola localizada no Norte de África. E por sua vez o milhafre-preto, também de origem africana, foi fotografado a sobrevoar a ilha de Tenerife, nas Canárias.

Milhafre-preto. Foto: Leyo/Wiki Commons

Pintarroxo-mexicano prestes a estabelecer-se

Já o pintarroxo-mexicano (Carpodacus mexicanus) entra para a lista por ser uma ave exótica que está prestes a estabelecer-se em território espanhol. Esta ave de interesse comercial está a espalhar-se a partir da cidade de Murcia, no Sudeste, e terá chegado à natureza devido a fugas de cativeiro.

“O estabelecimento desta espécie no nosso país pode resultar em problemas de conservação, como já tem acontecido com outras espécies”, avisa a SEO Birdlife.

Pintarroxo-mexicano. Foto: Susan Rachlin/Wiki Commons

Mas não são apenas raridades e aves exóticas que entraram agora para a lista oficial de avifauna espanhola. Outra das principais razões são as alterações de taxonomia, que afectam também os nomes comuns. “Às vezes simplesmente modifica-se a nomenclatura acrescentando-se o adjectivo ‘ocidental’ ou ‘oriental’ ao nome; noutras vezes, substitui-se a segunda parte do nome pela local da sua área de distribuição”, explica Miguel Rouco.

Foi o que aconteceu em cinco casos, como o ganso-campestre, que se divide agora em duas espécies: ganso-campestre-da-tundra (Anser fabalis) e ganso-campestre-da-taiga (Anser serrirostris), segundo o habitat em que nidificam. Já a freira-do-bugio (Pterodroma deserta), que nidifica nas Desertas, passou a ser considerada uma espécie autónoma, endémica do arquipélago madeirense, e separada das populações de Cabo Verde (Pterodroma feae). Esta ave marinha madeirense visita por vezes o território espanhol.

Freira-do-bugio, no arquipélago da Madeira. Foto: Christoph Moning/Wiki Commons

Segundo a SEO Birdlife, também a toutinegra-carrasqueira (Curruca iberiae) – que ocorre igualmente em Portugal – se elevou a espécie. O mesmo aconteceu com o chasco-mourisco (Oenanthe seebohmi), que era considerado uma subespécie do chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe), enquanto que o chasco-ruivo (Oenanthe hispanica) se dividiu em duas novas espécies: o chasco-ruivo-ocidental e o chasco-ruivo-oriental.

Por fim, houve ainda algumas mudanças de nome na lista, muitas delas reflectindo simplificações. Em contrapartida, saíram três espécies: o sabiá-da-praia (Mimus gilvus), a felosa-fluvial (Locustella fluviatilis) e o falcão-tagarote (Falco pelegrinoides), este último por motivos taxonómicos.

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Leitores: os pica-paus que João viu no Barreiro

Por João Serafim

João Serafim, 41 anos, conhece bem a Mata Nacional da Machada, no Barreiro. Num dos seus últimos passeios presenciou vários pica-paus em plena actividade, fazendo o seu som tão característico.

Gostaria de dar a conhecer o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major) entre muitas outras espécies de fauna e flora que vivem e que nidificam na Mata Nacional da Machada em Vale de Zebro, Barreiro.

Costumo passear e fotografar muito aqui nesta mata. Além de crescer a conhecer esta linda mata, desde há 7 anos que tenho vindo a aprofundar os meus conhecimentos fotográficos tanto na fauna como na flora.

No meu último passeio por aquela zona observei vários pica-paus-malhados-grandes a subir e a descer das árvores, fazendo o seu habitual barulho quando picam as árvores. Capturei esse momento ao fim de tarde. Por entre árvores e pernadas lá estavam eles no seu habitual picar, com o seu barulho característico. 


Conheça aqui e aqui outras fotografias de natureza de João Serafim.

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Espécies ameaçadas em Portugal: Vamos uivar pelo lobo-Ibérico 

Por Sara Costa

Sara Costa está preocupada com o futuro deste predador que “carrega uma enorme importância para os ecossistemas”. Fique a saber porquê e conheça a realidade portuguesa desta espécie icónica.

Lembro-me de ser criança, nos inícios da década de 2010, e saltar na televisão um anúncio de apelo à proteção do lobo-ibérico (Canis lupus signatus) em Portugal. Uma vez que o anúncio solicitava contribuições telefónicas, pedi entusiasticamente aos meus pais para ajudar, tendo sido recebida do outro lado da linha pelo uivar de um lobo, seguido de uma voz a agradecer o gesto acabado de ser feito. Esse uivar e esse anúncio ficaram sempre na minha memória. 

Apesar de tudo, na altura não entendi a gravidade da situação. Não entendi que a população do lobo-ibérico se tinha reduzido tanto, ao ponto de ocorrer apenas em 20% da sua área de distribuição original, como explicam Sílvia Ribeiro e Francisco Petrucci-Fonseca no livro “Um olhar sobre os carnívoros portugueses”.

O que conduziu a esta situação? Que ameaças enfrenta o lobo-ibérico e qual o seu papel nos ecossistemas? E o que o torna tão fascinante e curioso?

Lobo-ibérico. Foto: Arturo de Frias Marques/Wiki Commons

Apesar das controvérsias, mitos, lendas e medos que rondam este predador de topo, o lobo-ibérico é de facto uma espécie admirada por muitos. O fascínio por esta subespécie do lobo (Canis lupus), que habita apenas na Península Ibérica, deriva de todas as suas características biológicas e ecológicas e da sua importância nos ecossistemas em que habita. 

Signatus, no seu nome científico, traduzido para “marca” ou “sinal”, deriva da pelagem negra que apresenta na parte anterior das patas dianteiras. E como descrevem Sílvia Ribeiro e Petrucci-Fonseca, este lobo diferencia-se das restantes espécies do mesmo género por ser mais pequeno e também mais amarelo-acastanhado, coloração que varia com a idade do animal, sendo os mais jovens providos de cores mais escuras. 

O lobo vive em alcateia, variando a mesma entre dois a 10 indivíduos, dependendo da altura do ano. Todos os indivíduos da alcateia fornecem cuidados às crias, não sendo um trabalho restrito aos progenitores. 

No nosso país encontramos dois núcleos populacionais desta espécie, separados pelo rio Douro. A norte do rio, os lobos ocupam preferencialmente os distritos de Bragança e Vila Real; já a sul do rio, parte dos distritos de Aveiro, Viseu e Guarda. 

O maior número de alcateias encontra-se no Norte, com preferência por zonas altas e com boas condições de vegetação. O Grupo Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema estima uma presença de 2000 lobos na Península Ibérica, dos quais 300 em território nacional. Vários estudos e autores * explicam que a alimentação do lobo-ibérico vai depender da disponibilidade das presas, podendo tratar-se de presas silvestres, como o corço (Capreolus capreolus) ou o javali (Sus scrofa), mas também presas domésticas, como as ovelhas (Ovis aries), sendo que o último caso acontece principalmente em zonas com muita atividade humana. 

Em declínio desde há muito

É de conhecimento geral que a biodiversidade do planeta está em drástico declínio. De facto, esta perda notória leva muitos cientistas a acreditar que podemos estar a enfrentar a sexta grande extinção. Devido aos impactos da atividade humana no planeta, às alterações climáticas, à perda e fragmentação de habitats, à sobre-exploração de recursos e a outros fatores, são muitas as espécies que conhecemos que se encontram ameaçadas. Infelizmente, o lobo-ibérico não é exceção, sendo uma espécie classificada como Em Perigo, de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (2005).

Foi no final do século XIX que surgiram os primeiros sinais do declínio desta espécie por toda a Península Ibérica. Uma das razões, segundo Sílvia Ribeiro e Petrucci-Fonseca, foi o desaparecimento de vegetação autóctone devido às atividades agrícolas, o que levou ao desaparecimento de presas silvestres como o corço. Estes dois investigadores apontam também a falta de locais de refúgio e a destruição dos ecossistemas do lobo-ibérico em resultado das atividades humanas, como a construção de barragens ou parques eólicos. A presença de cães vadios (Canis lupus familiaris) é outro dos motivos para o declínio, por competirem por alimento e espaço. Para além disso, o lobo acaba por ser culpabilizado pelos estragos provocados pelos cães. 

Mas não só. Segundo um estudo realizado pelo Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas, num total de 100 mortes registadas entre 1999 e 2014, a principal causa foi o atropelamento desses animais. Por sua vez, Sílvia Ribeiro e Petrucci Fonseca acrescentam o veneno, o tiro e o laço como outras das grandes causas de mortalidade nesta espécie ibérica. Estes e outros investigadores* declaram que os humanos e a perseguição que se fazia a este predador estão entre os principais motivos do declínio do lobo-ibérico. 

Lobo ibérico, Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Foto: Joana Bourgard

Nos dias de hoje, infelizmente, a perseguição continua. A falta de espaço natural e de presas silvestres pressionam o lobo a aproximar-se das povoações para se alimentar do gado existente, o que leva as gentes locais a tomarem medidas insustentáveis que conduzem à morte destes animais. 

Uma legislação rigorosa e uma aposta na sensibilização da população são fatores cruciais à mudança de mentalidades e destas práticas de perseguição, havendo já entidades que se dedicam a educar para este fim, como é o caso do Grupo Lobo. Esta associação dedica-se à monitorização do lobo em Portugal e foi criadora do CRLI – Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. 

Protegido pela lei 

Em Portugal, o lobo-ibérico é uma espécie protegida, estatuto atribuído em 1988 na Lei de Proteção do Lobo-ibérico, que “integra as bases para a proteção, conservação e fomento” da espécie. Nesse sentido, é “proibido o seu abate ou captura em todo o território nacional, em qualquer época do ano”. Está também expressa nesta lei a responsabilidade do Estado em assumir os prejuízos causados aos cidadãos pela atividade do lobo. 

Já o programa “Cão de Gado”, promovido em 1996 pelo Grupo Lobo, procura conciliar a atividade humana com a atividade do lobo-ibérico, disponibilizando cães de gado de raça nacional aos pastores para que consigam proteger os seus rebanhos. 

O Serra da Estrela é uma das raças utilizadas para proteger o gado. Foto: Sara Jaques/Wiki Commons

O ICNF implementa também um Sistema de Monitorização de Lobos Mortos, com o objetivo de adquirir mais informação sobre as causas que conduzem à morte deste animal e mais oportunidades de desenvolvimento de estudos de conservação. A nível internacional, esta espécie é ainda notada como prioritária pela Diretiva Habitats, potencialmente ameaçada pela CITES – Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção, e estritamente protegida pela Convenção de Berna.

Mas afinal, qual a importância de proteger um animal como o lobo? Que falta faz este carnívoro? Enquanto predador de topo, pois é uma espécie que se encontra no topo da cadeia alimentar, o lobo consegue controlar populações de animais selvagens como o javali ou o veado, o que impede por sua vez que aconteçam fortes danos nas produções agrícolas e nas florestas. 

A presença deste mamífero pode ser também crucial para controlar populações de outros predadores como a raposa (Vulpes vulpes), que se vê obrigada a deslocar-se para outros locais. Sem a presença da raposa, torna-se possível manter uma população considerável das presas que aquela caça, como em Portugal sucede com a lebre (Lepus granatensis) e a perdiz (Alectoris rufa), animais que não fazem parte da dieta do lobo. Para além disso, o lobo controla a presença de cães vadios, que podem trazer prejuízos para a população local e os seus rebanhos.  

Como o lobo “salvou” Yellowstone

Nos Estados Unidos, o Parque de Yellowstone é um bom exemplo da importância do lobo. No início do século XX, o lobo era o animal mais perseguido em Yellowstone e por todo o país. Como resultado, no final de 1940 raramente eram identificadas alcateias neste parque nacional, mas a falta deste predador teve um efeito em cascata que foi notório em todos os hectares dessa vasta área protegida. 

Em primeiro lugar, a população de alces (Alces alces), devido à possibilidade de se expandir livremente por não existirem predadores, cresceu rapidamente, conduzindo a uma grande destruição da vegetação de Yellowstone. Isto por sua vez levou a um grande declínio das aves e dos castores (Castor canadensis) que ali ocorriam, que dependiam fortemente da vegetação arbórea. Sem as barragens construídas pelos castores, a dinâmica dos rios mudou e os peixes começaram a entrar também em declínio. Espécies que dependiam de peixe para a sua alimentação, como é o caso do urso-pardo (Ursus arctos), acabaram por ficar também limitadas. 

Finalmente, em 1995, o lobo foi reintroduzido no Parque de Yellowstone, no seguimento das preocupações de especialistas e cientistas. Essa reintrodução permitiu reduzir e controlar a população de alces, abrindo espaço para a regeneração da vegetação. Assim, reverteram-se também outros fatores que tinham evoluído de forma negativa e a sistemática sustentável de Yellowstone regressou. 

Uma fêmea de lobo em Yellowstone. Foto: Yellowstone National Park

Quanto ao lobo-ibérico, tal como acontece com o lobo em Yellowstone, carrega uma enorme importância para os ecossistemas, para além de possuir características únicas e especiais. É essencial nesta altura trabalharmos na sua conservação, procurando reverter todas as ameaças a que está sujeito, num trabalho de cooperação entre todos. 

Quando era criança, vi um anúncio relativo à extinção do lobo em Portugal. Contrariamente, quão bom seria, daqui a uns anos, uma criança deparar-se com um anúncio sobre a recuperação impressionante da população deste predador tão especial? 

* Álvares F, Pereira E, Petrucci-Fonseca F (2000) O Lobo no Parque internacional Gerês-Xurés. Situação populacional, aspectos ecológicos e perspectivas de conservação. Galemys, 12: 223-239


Sara Costa é recém-licenciada em Ciências do Ambiente pela Universidade do Minho

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Novo projecto quer restaurar os zimbrais das dunas costeiras portuguesas

Por Inês Sequeira

O Zimbral for LIFE iniciou-se em Outubro e vai trabalhar para melhorar o estado de conservação destes habitats, onde dominam a sabina-da-praia e o zimbro-galego.

Tanto a sabina-da-praia (Juniperus turbinata subsp. turbinata) como o zimbro-galego (Juniperus navicularis) são também chamados de zimbro e pertencem ao género Juniperus. O zimbro-galego é um endemismo ibérico, pois só pode ser encontrado em Portugal e Espanha.

Em território nacional, os zimbrais encontram-se em várias zonas de matagais litorais e dunares espalhados pela costa atlântica, “formando comunidades arbustivas que são cada vez mais raras e ameaçadas”, explica em comunicado a Universidade de Évora, que lidera este novo projecto através do MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento.

Nos dias de hoje, podem ver-se zimbrais por exemplo a sul da Figueira da Foz, em Peniche, Sintra, Tróia e na Costa Vicentina. “Esta vegetação, além do seu elevado valor intrínseco, por ser uma espécie endémica com um elevado valor de conservação, constitui ainda o habitat de alimentação, refúgio e reprodução da entomofauna (insetos), avifauna, herpetofauna (répteis e anfíbios) e fauna vertebrada terrestre associada às dunas.”

Zimbral com sabina-da-praia. Foto: CERamalho/Flora-On
Pormenor da sabina-da-praia. Foto: Joana Camejo/Flora-On

Durante os próximos seis anos, a equipa vai trabalhar para diminuir os impactos das ameaças a este tipo de habitat, classificado como prioritário a nível europeu. Em causa estão ameaças como as alterações ao uso do solo provocadas pela pressão urbanística e turística sobre as dunas (construções, aterros e abertura de estradas), o despejo de lixos e o aumento de plantas invasoras como as acácias e o chorão-das-praias.

Obter mais informação que permita aumentar o conhecimento sobre a biologia e ecologia destes zimbros, testar e avaliar práticas de gestão e também melhorar a estrutura e função dos zimbrais são outros dos objectivos do projecto, tal como aumentar a área de ocorrência e desenhar um Plano Nacional de Conservação para este habitat. 

Zimbral com zimbro-galego. Foto: SChozas/Flora-On
Pormenor do zimbro-galego. Foto: MPorto/Flora-On
Frutos do zimbro-galego. Foto: PArsénio/Flora-On

Para já, estão definidas áreas de intervenção para acções concretas de conservação e restauro de zimbrais em três zonas especiais de conservação (ZEC): Comporta/Galé, Costa Sudoeste e Ria Formosa/Castro Marim. As ZEC são sítios designados ao abrigo da directiva europeia Habitats, ligados à Rede Natura 2000.

Além do MED, o Zimbral for LIFE conta com outros quatro parceiros: a Associação de Desenvolvimento da Natureza e Ambiente – Rewilding Sudoeste (RWSW); a FloraData, que é uma empresa de consultoria especializada em biodiversidade, ecologia, ambiente e recursos naturais; o espanhol Centro de Investigação Científica e Tecnológica da Extremadura; e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.


Saiba mais.

Recorde esta proposta de passeio do investigador Sergio Chozas e descubra as plantas fascinantes da Duna de Montalvo, junto a Alcácer do Sal, onde pode encontrar o zimbro-galego e muitas outras espécies botânicas.

E descubra uma pequena árvore do grupo dos zimbros que também podemos encontrar em Portugal, o zimbro-bravo (Juniperus oxycedrus subsp. oxycedrus).

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Pode o burro selvagem regressar a Portugal?

Por Daniel Veríssimo

Daniel Veríssimo, um economista maravilhado pela natureza, apresenta-nos o resistente burro selvagem, explicando como um dia poderemos reencontrar este animal que hoje faz parte do passado.

No passado o burro selvagem fazia parte dos ecossistemas mediterrâneos do continente europeu, desde as planícies alentejanas com vista para o Atlântico aos campos da Bulgária banhados pelo Mar Negro, passando pela Península Ibérica, Sul de França, Península Itálica, planícies das Balcãs e montanhas da Grécia.

Na Península Ibérica talvez fosse conhecido como “zebro”, em português, ou “cebro”, em castelhano, nome de um antigo equídeo selvagem. Mais pequeno que um cavalo, mais resistente aos climas agrestes e com uma dieta mais generalista, como ervas secas e arbustos. Se o cavalo é esbelto e elegante, o burro é resistente e massudo, um cavalo “todo-o-terreno”.

Com o colapso dos ecossistemas devido à caça e mudanças climáticas no fim da última idade do gelo, as populações de burro selvagem europeu foram desaparecendo e extinguiram-se entre o Neolítico e a Idade do Ferro. Este era, à semelhança dos cavalos selvagens e do auroque, um dos grandes mamíferos do continente europeu.

Existem vários registos fósseis um pouco pelo sul da Europa e pinturas rupestres como as localizadas em França, nas localidades de Dordogne, Ariège e Remoulins ou, em Espanha, perto da vila de Albarracín, apesar de o burro selvagem não ser um dos animais mais representados na arte paleolítica. Há ainda crónicas medievais portuguesas e espanholas.

O burro europeu era um animal de médio tamanho, que podia pesar entre 200 e 300 quilos e medir perto de 2 a 2,5 metros. Os machos eram maiores que as fêmeas, viviam em grupos familiares e habitavam zonas áridas, tanto quentes como frias.

Burros selvagens asiáticos, na Índia. Foto: Sballal/Wiki Commons

Hoje, o burro europeu (Eqqus hydrintus) está extinto, mas podemos usar espécies próximas como substitutos. O burro selvagem asiático (Equus hemionus), que ainda existe nas planícies frias da Ucrânia, Cazaquistão e Mongólia e nas zonas áridas quentes do Levante até às planícies indianas, (11) pode ser uma opção, ou ainda o burro selvagem africano (Equus africanus), que em tempos existiu no Norte de Africa, de Marrocos ao Egipto, desde os campos junto ao Mar Mediterrâneo às montanhas do Atlas, mas que hoje apenas sobrevive na Eritreia e no Djibouti, na África Oriental.

Ambos partilham muitas características, como a resistência à seca e a temperaturas extremas e uma dieta variada. Até comungam de um comportamento interessante em zonas árida e semiáridas: escavam poços para beber água, alguns com quase um metro de profundidade, o que beneficia muitos outros animais. É uma espécie bastante resistente e os programas de reintrodução são relativamente simples, já tendo voltado às planícies secas e quentes do Médio Oriente e aos campos frios da Ucrânia e do Cazaquistão.

Esta é mais uma espécie para completar o puzzle do ecossistema. Mais um herbívoro para moldar a paisagem, criar mosaicos, prevenir incêndios e espalhar sementes. Mais uma presa potencial para o lobo-ibérico. Mais um animal que no fim da vida pode ser alimento para abutres e pequenos predadores e que cria habitat para a perdiz e o coelho e, quem sabe, para a tartaruga terreste. É também mais um animal para criar oportunidades para insetos, desde a pequena joaninha ao grande escaravelho.

Mas não só. O burro selvagem é além do mais um grande animal para dar vida à paisagem. É mais uma espécie para restaurar processos naturais, para espalhar nutrientes na paisagem, para ativar o ciclo de carbono, para adaptar e mitigar os efeitos das alterações climáticas. Mais um animal para completar processos e ocupar nichos ecológicos (24).

Cria de burro selvagem africano. Foto: T.Voekler/Wiki Commons

Para esta espécie voltar a Portugal é preciso um programa de reintrodução, identificar áreas com habitat potencial, selecionar animais para solta, alguns em zoos ou centros de vida selvagem, e soltar animais em novas áreas. É igualmente importante realizar campanhas de educação ambiental e delinear boas medidas de coexistência, para que o regresso do burro selvagem seja visto como uma oportunidade e não como um problema.

Em Portugal há várias zonas com habitat potencial para o burro selvagem: as Serras do Algarve, de Monchique ao Caldeirão, as planícies de Castro Verde e os campos do Vale do Guadiana e Barrancos, Costa Vicentina, Serra de Grândola, pinhais de Setúbal, Serra de São Mamede, Tejo Internacional, serras da Zona Centro, Serra de Aire e Candeeiros, Serra da Malcata, planalto do Côa e Trás-os-Montes.

Como será passear pelo mato mediterrâneo no fim do verão e entre zonas abertas, com árvores, arbustos e prados, e encontrar uma manada de burros selvagens, camuflados ao longe entre a paisagem seca? Ou explorar o leito de um rio seco e encontrar poços escavados por burros com pegadas de vários animais selvagens, linces, gamos, cavalos, coelhos, lobos, muflões e veados.

Manada de burros selvagens asiáticos. Foto: Wildmishra/Wiki Commons

É bom preservar raças domésticas de burro, mas é igualmente importante recuperar os descendentes selvagens dos animais domésticos e as suas funções no ecossistema – como além deste caso, é também o que sucede nos cavalos selvagens e no auroque.

Há diferenças claras entre animais domésticos e animais selvagens, pois os primeiros precisam de cuidados veterinários, apoios na forma de subsídios, alimentação suplementar e vedações, enquanto que os animais selvagens não precisam desses cuidados. Por último, se for um animal doméstico e for comido ou atacado é um problema, mas se for selvagem esse é um processo que faz parte do ecossistema. Em caso de ataque um recebe compensação monetária, o outro não.

A diminuição da atividade agrícola em terrenos marginais, um pouco por todo o país, está a criar novas oportunidades para a vida selvagem. Queremos continuar a ver apenas grandes animais, domados ao longo de gerações em pequenos quintais? Ou queremos ver de novo animais livres a desempenhar o seu papel no ciclo da vida em grandes paisagens? Continuar a apostar em ecossistemas degradados e frágeis ou tentar algo novo e apostar em ecossistemas completos e funcionais?

É uma escolha. Histórias negativas, de perda e conformismo, ou histórias positivas, de esperança e possibilidade. O burro selvagem pode voltar a Portugal.


Leia aqui outros artigos do mesmo autor sobre o regresso das espécies extintas a Portugal.

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O que procurar no Outono: a nogueira-comum

Por Carine Azevedo

Carine Azevedo conta-nos tudo sobre esta árvore naturalizada em Portugal desde há muitos anos, que nesta época nos presenteia com os seus saborosos frutos secos, as nozes.

Muitas espécies exóticas foram introduzidas por possuírem um valor socio-económico importante, sendo por esse motivo plantadas e geridas continuamente.

Algumas destas espécies naturalizaram-se, ou seja, encontraram condições de desenvolvimento favoráveis para se expandirem naturalmente na natureza, mantendo-se em equilíbrio com as espécies nativas durante muito tempo.

A nogueira-comum (Juglans regia) é uma espécie florestal de grande importância, pela produção de fruto e de madeira, que terá sido introduzida há muitos anos em Portugal Continental. No entanto, estudos recentes parecem revelar a sua presença desde há muitos anos, antes dos registos da sua introdução para o cultivo pelo homem.

 

Nogueira-comum

A família Juglandaceae, a que pertence a nogueira-comum, engloba pouco mais de meia centena de espécies, divididas em nove géneros botânicos que se distribuem principalmente pelas regiões temperadas do Norte, podendo encontra-se de forma espontânea em qualquer continente, exceto nos pólos. O género Juglans é o mais representativo desta família, com 21 espécies.

A nogueira-comum (Juglans regia), conhecida simplesmente como nogueira ou nogueira-europeia, é uma árvore que pode medir até 25 metros de altura e dois a três metros de diâmetro. É caracterizada por um tronco sólido e por uma copa ampla, arredondada e muito ramificada. O tronco é revestido por uma casca lisa, castanho-esverdeada, que se torna mais escura e com fendas verticais à medida que envelhece.

Uma jovem nogueira. Foto: Cristina Comanici/Wiki Commons

A nogueira é uma árvore de folhagem caducifólia. As folhas são verdes, compostas, imparipinuladas, com cinco a nove folíolos, elípticos a ovados, com pecíolos muito curtos ou inexistentes. Os folíolos são inteiros, de base mais ou menos arredondada, oblíqua, com frequência assimétrica e ápice agudo ou ligeiramente acuminado. O folíolo terminal é maior do que os restantes.

O formato característico das folhas facilita a sua identificação. Além disso, tanto as folhas como a casca verde dos frutos, quando esmagados, libertam um intenso e característico aroma.

A floração da nogueira ocorre nos meses de abril e maio e ocorre antes da formação das folhas. Como espécie monóica que é, as flores, masculinas e femininas, ocorrem na mesma planta.

Flores masculinas da nogueira. Foto: Günter König/Wiki Commons

As flores masculinas são pequenas, amarelo-esverdeadas, formadas unicamente por sépalas e estames. Surgem dispostas em amentilhos cilíndricos e pendentes, no ápice dos ramos do ano anterior. Por sua vez, as femininas são quase imperceptíveis e peludas e crescem individualmente ou em pequenos grupos (até cinco flores), surgindo na extremidade dos ramos do ano.

Flores femininas da nogueira. Foto: Günter König/Wiki Commons

É das flores femininas que surge o fruto. Este é uma trima subglobosa, com quatro a cinco centímetros de comprimento, formada por uma casca verde e lisa, ligeiramente carnuda, que se torna negra e se desprende depois de secar. Por dentro encontra-se a semente, conhecida por noz, que possui uma parede lenhosa e rugosa, bivalve e castanho-clara quando madura. O interior é dividido em quatro lóculos, onde se encontra a parte comestível.

Os frutos da nogueira, ainda verdes. Foto: Jan Mehlich/Wiki Commons
O fruto da nogueira já maduro, com o interior à mostra. Foto: Böhringer Friedrich/Wiki Commons

A maturação dos frutos ocorre sobretudo durante o outono, embora algumas variedades possam amadurecer ainda no final do verão.

Nativa ou exótica naturalizada

A nogueira é uma espécie com origens asiáticas e europeias. Pensa-se que será nativa do oeste da Ásia, da Ásia Central e do sul da Europa, embora alguns autores refiram que terá sido introduzida na Europa pelos Romanos.

Em Portugal, é uma árvore exótica que se naturalizou facilmente, sendo referida como assilvestrada em algumas localizações do território nacional, nomeadamente em Trás-os-Montes e no Alto Alentejo. É mais comum no Centro e Interior Norte.

No entanto, estudos recentes revelam a presença desta espécie em território nacional desde há muitos anos, ainda antes de ter sido introduzida e cultivada pelos humanos.

Ramagens da nogueira-comum. Foto: Lukáš Mižoch/Wiki Commons

É uma espécie de média luz, que prefere locais abrigados. Tem uma grande capacidade de adaptação a diversos tipos de solos, que devem permitir uma drenagem rápida e ao mesmo tempo uma boa retenção de água. Os solos devem ser frescos, profundos e ricos em matéria orgânica.

A nogueira é sensível à asfixia radicular – o encharcamento do solo provoca falta de oxigénio nas raízes, limitando a sua capacidade de respirar, não sendo por isso aconselháveis os solos argilosos e muito húmidos.

É uma espécie bastante rústica e resistente ao frio intenso, podendo suportar temperatura até -20ºC, moderadamente tolerante à secura e sensível às geadas tardias, que afetam a floração.

Embora a nogueira seja uma espécie auto-fértil ou auto-compatível, a polinização é muito difícil, ocorrendo exclusivamente por ação do vento – um processo conhecido como polinização anemófila. Os seus frutos são muito apreciados por vários animais roedores, como ratos e esquilos, mas também por vários pássaros.

Nozes e madeira

A nogueira cultiva-se fundamentalmente pelo fruto. Em anos de boa colheita, uma árvore adulta pode produzir até 150 kg de nozes.

A noz é um fruto seco que no seu interior possui uma semente comestível, de sabor agradável e muito nutritiva. É a oleaginosa mais rica em cobre e zinco, rica em ácido linoleico, vitamina E, vitaminas do complexo B, fibras, proteínas e ómega-3.

Pode ser consumida ao natural ou na confecção de vários pratos, molhos e sobremesas – bolos, gelados, entre outros. Das nozes também se obtém o óleo de noz, utilizado como óleo alimentar e em saladas.

Um fruto já maduro e aberto. Foto: KaiMartin/Wiki Commons

A partir das nozes ainda verdes, que ainda estão mal desenvolvidas, pode obter-se um licor de sabor picante, doce e ligeiramente amargo, que é servido como aperitivo ou regado com sorvete de baunilha. A noz é muito calórica, pelo que deve ter-se algum cuidado para não a consumir em excesso.

A nogueira é também reconhecida tradicionalmente como uma planta medicinal. Possui ação anti-helmíntica, antiparasitária, antisséptica, diurética, fungicida, digestiva, adstringente, hipoglicemiante, tónica, vermífuga, entre outras. Sendo tradicionalmente usada para tratamentos comuns, como asma, cólicas, conjuntivite, constipações, disenteria, inflamações, intoxicações, etc.

As nozes em particular ajudam a combater a fadiga, o cansaço físico, o mau colesterol e a diabetes. Também ajudam a prevenir a arteriosclerose, doenças cardíacas, esterilidade e outros problemas sexuais, bem como problemas do sistema nervoso.

Nozes por abrir. Foto: fir0002/Wiki Commons

A partir das suas folhas pode ser feito um chá que auxilia na redução da glicose, na cicatrização de feridas e erupções cutâneas. Também funciona como um excelente repelente de insetos.

A madeira da nogueira é considerada nobre e uma das madeiras mais valiosas. Possui uma dureza comparável com a madeira do carvalho (Quercus sp.), mas mais fácil de trabalhar. É uma madeira de tons vivos e escuros, bastante decorativa, utilizada sobretudo no fabrico de mobiliário de qualidade e no revestimento interno de edifícios. Também pode ser utilizada em talha e para culatras de armas de fogo.

A casca do tronco, as folhas e a casca das sementes (nozes) são usadas para obtenção de corantes. Do fruto também se extraem óleos com aplicações industriais em tinturaria, cosmética e vernizes, que também podem ser usados como combustível.

Árvore de grande longevidade

A denominação científica desta espécie tem origem latina. O nome do género Juglans deriva da combinação dos termos jovis– (= “Deus” = “Júpiter”) + –glans (= “noz”), ou seja, “a noz de Júpiter”, em alusão ao facto desta planta ter sido no passado, consagrada a Júpiter. O restritivo específico regia por sua vez, deriva do termo rex, régis, isto é “real”, “digno de um rei”, muito provavelmente pela nobreza da sua madeira.

A nogueira apresenta um crescimento lento, mas possui uma grande longevidade, podendo viver cerca de 300 anos ou até mais.

Na Capadócia (Turquia), junto ao Convento Dervish de Haci Bektas Veli em Hacibektas, há registo de um exemplar que terá sido plantado no ano 1300, que terá atualmente 722 anos.

A nogueira é uma árvore de grande vigor, com uma postura majestosa. A sua sombra poderá ser mais um dos motivos para a ter em qualquer jardim ou espaço verde.

Costuma encontrar nogueiras no seu dia a dia? Partilhe-as connosco com #oqueprocurar #plantasdeportugal, nas redes sociais.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Caducifólia – planta cuja folha cai espontaneamente na estação do ano mais desfavorável.

Composta – folha cujo limbo (parte mais larga da folha) é dividido em vários folíolos.

Limbo – Parte larga de uma folha normal.

Imparipinulada – folha composta por vários folíolos em ambos e que termina em número ímpar.

Folíolo – cada uma das partes em que o limbo, de uma folha composta ou recomposta, se divide.

Elíptica – folha com forma que lembra uma elipse, mais larga no meio e com o comprimento duas vezes a largura.

Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.

Acuminada – folha cuja ponta é geralmente aguda e mais estreita que a restante parte e com os lados ligeiramente côncavos.

Monóica – espécie que apresenta flores femininas e masculinas separadamente na mesma planta.

Amentilho – Inflorescência semelhante a uma espiga, onde as flores, geralmente unissexuais, surgem agrupadas num eixo comum. 

Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.

Trima – pseudofruto drupáceo típico da nogueira.

Lóculo – cavidade ou compartimento do fruto, onde se alojam as sementes.

Auto-fértil – planta cujas flores produzem sementes como resultado da polinização pelo pólen da mesma flor ou de flores do mesmo indivíduo.

Auto-compatível – capaz de se autofecundar.

Polinização anemófila – realizada pelo vento.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.

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Que espécie é esta: cogumelo Volvariella bombycina

Por Equipa Wilder

O leitor Mateus Moraes encontrou este fungo em Niterói, Brasil, a 31 de Outubro e pediu ajuda para saber a espécie. A associação Ecofungos responde. 

“Gostaria de solicitar uma ajuda na identificação de um cogumelo que avistei ontem (31 de Outubro) em meu quintal, por gentileza (…). A observação foi feita em 31/10/2022. Estamos na Primavera aqui”, escreveu o leitor à Wilder. Mateus Moraes deu ainda estas informações:

Substrato: tronco de um coqueiro em estado de decomposição

Região: Niterói – Rio de Janeiro – Brasil

Bioma: Mata Atlântica

Coloração do “chapéu”: amarelo claro

“Infelizmente não consegui fotografar a parte inferior (lamelas), pois estava com muitos insetos, mas seguem algumas fotos:

Tratar-se-á de um Volvariella bombycina.

Espécie identificada e texto por:  Ecofungos – Associação Micológica.

Deverá tratar-se de uma Volvariella bombycina

São fungos que frutificam normalmente sobre troncos de árvores.

Possuem um véu universal membranoso – similar a um ovo, onde, no interior, se desenvolve o cogumelo. 

Na maturação, o cogumelo rompe esse véu. Os restos de véu que ficam na base do pé resultam num saco membranoso designado por volva.

O chapéu é normalmente convexo, aplanando-se na maturação e possui com frequência as margens enroladas e possui ainda pequenas escamas na parte superior, sobre a cutícula.

As lâminas são brancas no início e rosadas na maturação, além de muito apertadas. Não têm anel.


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

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Que espécie é esta: gaiola-de-bruxa

Por Equipa Wilder

O leitor João Magalhães encontrou este fungo em Queluz a 26 de Outubro e pediu ajuda para saber a espécie. A associação Ecofungos responde. 

“Gostaria de saber que espécie é esta. Fotografei-as no dia 26 outubro de 2022 perto do Palácio de Queluz, na antiga tapada do palácio. Pareceram-me ser cogumelos, pois estavam as duas no solo, perto uma da outra, sobre a manta morta, mas depois de ver melhor achei que eram flores, pois pareciam “brotar” de uma espécie de invólucro. Uma estava mais viçosa do que a outra. As pesquisas que fiz na rede, sugerem ser da família Hydnoraceae”, escreveu o leitor à Wilder.

Trata-se do fungo da espécie Clathrus ruber, conhecido pelos nomes comuns de gaiola-de-bruxa, gaiola-vermelha ou lanterna-das-bruxas.

Espécie identificada e texto por:  Ecofungos – Associação Micológica.

Esta é uma espécie particularmente interessante de fungo. É uma espécie saprófita, da família Phallaceae.

Surge com frequência no solo, em grupos ou isolado, sobre matéria orgânica em decomposição.

A frutificação inicia-se com o aparecimento de um “ovo” gelatinoso, que na maturação rompe e deixa a descoberto uma pseudo-gaiola vermelha. O ovo gelatinoso permite a disponibilização de humidade ao fruto, mantendo-o fresco mais tempo.

Esta rede vermelha mimetiza a carne em putrefacção, quer pela cor, quer pelo cheiro nauseabundo que exala, a fim de atrair insectos necrófagos. Na fase final de maturação, abre e acaba por se liquefazer no solo.

Essa estratégia permite que os insectos que aqui se banqueteiam contribuam para a dispersão dos esporos desta espécie.


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

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Relatório faz retrato “muito preocupante” das aves em Portugal, mas ainda “reversível”

Por Inês Sequeira

Espécies como a garça-boieira, o sisão e o borrelho-de-coleira-interrompida destacam-se com tendências preocupantes, indica o novo documento divulgado pela SPEA, que compila resultados de 23 programas de monitorização e censos realizados com a participação de voluntários.

A intensificação da agricultura e a perturbação das praias e de outras zonas costeiras em Portugal são duas das principais ameaças que estão a provocar o desaparecimento “a um ritmo alarmante” de aves dos campos, bosques, estuários e praias, avisa a SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

Esta é uma das principais conclusões do relatório “Estado das Aves em Portugal 2022”, que compila os resultados de 23 programas de monitorização e censos que têm vindo a realizar-se em território nacional. Ainda assim, apesar do retrato preocupante, os dados recolhidos demonstram também “o impacto positivo das acções de conservação da natureza”.

“Para muitas espécies, o estado das suas populações em Portugal é preocupante, mas em muitos casos ainda reversível”, afirma Domingos Leitão, director-executivo da SPEA, citado num comunicado desta organização não governamental. “Temos provas de que a conservação resulta, e ainda vamos a tempo, se houver vontade política para passar da exploração desmesurada à gestão sustentável.”

Mas para já, situações como a intensificação da agricultura estão a reflectir-se numa “situação periclitante” de espécies como o picanço-barreteiro e o sisão. Outra ave seriamente afectada é a garça-boieira ou carraceiro, que viu a sua população nidificante reduzir-se em 77% em apenas sete anos, sublinha a associação, que aponta o dedo à “exploração exaustiva dos nossos campos, com recurso a pesticidas e outros contaminantes, sistemas de regadio que secam a região circundante, e monoculturas que esgotam a biodiversidade”.

Sisão (Tetrax tetrax). Foto: Pierre Dalous/Wiki Commons
Picanço-barreteiro (Lanius senator). Foto: Michele Lamberti/Wiki Commons

Quanto às aves que fazem ninho nas praias portuguesas, a associação avida que “poderão estar a sofrer com a perturbação das zonas costeiras, que inclui não só uma maior presença humana e de cães, mas também a limpeza mecânica” das areias do litoral.

Um exemplo é o borrelho-de-coleira-interrompida, espécie para a qual “três censos diferentes apontam para um decréscimo muito preocupante”. “Tanto o Arenaria (programa de monitorização de aves costeiras) como o Programa Nacional de Monitorização de Aves Aquáticas Invernantes detectaram reduções muito grandes no número de borrelhos-de-coleira-interrompida que passam o Inverno no nosso país, enquanto o censo dirigido especificamente a esta espécie revela que a sua população nidificante diminuiu 46% nos últimos 19 anos”, sublinha a SPEA.

Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus). Foto: Zeynel Cebeci/Wiki Commons

Também o britango ou abutre-do-egito e a pardela-balear – a ave marinha mais ameaçada da Europa – estão em declínio.

Em contrapartida, a situação actual da gaivota-de-audouin é mais encorajadora: a colónia de nidificação desta espécie na ilha Deserta, no Algarve, tornou-se nos últimos anos na mais importante em todo o mundo, para esta gaivota. Este local é um dos vários sítios que estão, desde 2019, sob protecção do projecto LIFE Ilhas Barreira, coordenado pela SPEA.

Outra espécie cuja situação está mais positiva é o grifo, “cuja população nidificante teve um crescimento muito importante”. Segundo os dados recolhidos, publicados no relatório, há hoje cinco vezes mais grifos a nidificar em Portugal do que há 20 anos, “fruto também das muitas medidas de conservação que estiveram em curso ao longo desse período”, indica a ONG. Esta alerta todavia que “algumas ameaças continuam muito presentes, como o uso ilegal de venenos, que afeta os grifos, mas também muitas outras espécies de abutres e águias.

Grifo (Gyps fulvus) em voo planado. Foto: Noel Reynolds/WikiCommons

O relatório Estado das Aves em Portugal 2022 inclui ainda informação de novos censos dirigidos como a gaivota-de-patas-amarelas, gralha-de-nuca-cinzenta, periquito-de-colar, borrelho-de-coleira-interrompida e coruja-do-nabal, “que vêm trazer dados sobre espécies que não estavam a ser monitorizadas eficientemente nos últimos anos”.

“Os dados que permitiram aferir este Estado das Aves em Portugal foram, em grande parte, recolhidos por centenas de voluntários que dedicaram o seu tempo a observar, contar e registar aves nos diferentes censos e programas de monitorização”, salienta a associação, que recorda que só o censo de milhafres ou mantas, que decorre anualmente nos Açores e na Madeira, já teve a participação de mais de 2.300 voluntários desde 2006.

“Temos sempre presente que sem a generosidade dos voluntários, muitos destes censos não seriam possíveis,” comentou Domingos Leitão. “Os resultados mostram o poder da ciência cidadã, mas por outro lado é triste que não haja mais investimento do Estado na monitorização das espécies. Portugal tem a necessidade e a obrigação de acompanhar o estado da sua biodiversidade e de reportar esses dados à Comissão Europeia”, afirmou o mesmo responsável.

“Há muitas espécies para as quais há lacunas de informação e, e se não fossem os voluntários e o envolvimento de inúmeras organizações não-governamentais, para muitas espécies não haveria dados para reportar.”


Saiba mais.

Pode descarregar aqui o novo relatório “O Estado das Aves em Portugal 2022”.


Este relatório foi produzido com o apoio do projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, promovido pela SPEA em parceria com a Wilder e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA), financiado pelo Programa Cidadãos Ativ@s/EEAGrants, fundo gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Bissaya Barreto.

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Cientistas portugueses lideram descoberta de nova espécie de mocho em São Tomé e Príncipe

Por Inês Sequeira

A única espécie de mocho encontrada até hoje na ilha do Príncipe foi descrita num artigo liderado por investigadores da Universidade do Porto, publicado esta semana.

Por ser uma espécie endémica da ilha do Príncipe, único local em todo o mundo onde a espécie foi encontrada, este novo mocho foi baptizado de mocho-do-príncipe. A descrição da espécie foi publicada pela revista de acesso livre ZooKeys.

Para esta descrição científica, realizada com base em várias linhas de evidência – incluindo morfologia, cor e padrão de plumagem, vocalizações e genética – contribuiu uma equipa internacional de investigadores, explica em comunicado o CIBIO-InBIO/BIOPOLIS, centro de investigação ligado à Universidade do Porto.

Já desde 1998 se desconfiava da existência de um mocho na ilha do Príncipe – e já em 1928 uma carta relatava testemunhos de habitantes locais sugerindo o mesmo – mas só em 2016 é que a nova espécie foi confirmada para a ciência.

O nome científico deste pequeno mocho, Otus bikegila, homenageia Ceciliano do Bom Jesus, conhecido como ‘Bikegila’, que era apanhador de papagaios na Ilha do Príncipe e agora trabalha como guia da natureza e guarda do Parque Natural do Obô onde esta espécie habita, no sul da ilha. ‘Otus’, por sua vez, é o nome genérico dado a um grupo de pequenos mochos com uma história evolutiva comum, chamados de mochos-d’orelhas.

Foram o “conhecimento e esforços” de Bikegila que “permitiram esta descoberta”, explica o CIBIO, onde trabalham os três investigadores que lideraram a equipa de cientistas: Martim Melo, também ligado ao Museu de História Natural e Ciência da Universidade do Porto e ao FitzPatrick Institute of Africa Ornithology, na África do Sul; Bárbara Freitas, que está também no Museu Nacional de Ciências Naturais, em Madrid, e ainda Angelica Crottini.

Um outro artigo, publicado esta semana pela Bird Conservation International, mostra que o mocho-do-príncipe “é encontrado apenas na floresta nativa remanescente que se encontra hoje na parte desabitada do sul da ilha, onde ocupa uma pequena área de cerca de 15 km2, aparentemente devido à preferência por altitudes mais baixas”, descreve o CIBIO. “Nesta pequena área (equivalente a uma vez e meia a área ocupada pelo Parque de Monsanto em Lisboa), as densidades do mocho são relativamente altas, com a população estimada em cerca de 1000-1500 indivíduos.”

Como todos os indivíduos da espécie ocorrem neste local único e muito pequeno (do qual uma parte será afetada num futuro próximo pela construção de uma barragem hidroelétrica), os investigadores propuseram que a espécie fosse classificada como “Criticamente em Perigo”, o nível de ameaça mais alto da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza

Um novo protocolo de monitorização com recurso à inteligência artificial

De modo a monitorizar as populações deste mocho e a acompanhar alterações ao longo do tempo, a equipa desenvolveu e testou com sucesso um protocolo de monitorização que recorre a unidades de gravação automáticas do seu canto, em combinação com inteligência artificial, para analisar rapidamente os milhares de horas de gravações.

Na natureza, a maneira mais fácil de detetar e reconhecer um mocho-do-príncipe é através do seu canto único – na verdade, foi uma das principais pistas que levaram à sua descoberta. “O chamamento do mocho-do-príncipe é uma nota curta “tuu” repetida cerca de uma vez por segundo, podendo lembrar o canto de insetos. Muitas vezes é emitido em dueto, logo após o cair da noite”, explica Martim Melo.

[Ouça o canto do mocho-do-príncipe]

Som captado por Martim Melo, em Julho de 2018

“A descoberta do mocho-do-príncipe só foi possível graças ao conhecimento partilhado por Bikegila e aos seus inabaláveis esforços para resolver este mistério de longa data”, sublinha Martim Melo, citado pelo CIBIO. “Como tal, o nome é também um reconhecimento a todos os assistentes de campo locais que têm um papel fundamental para o avanço do conhecimento sobre a biodiversidade do mundo.”

“A descoberta de uma nova espécie de ave é sempre uma ocasião de celebração e uma oportunidade para aproximar o grande público do tema da biodiversidade”, afirma o mesmo investigador. “As aves são provavelmente o grupo animal mais bem estudado. Assim, a descoberta de uma nova espécie de ave no século XXI confirma a atualidade das explorações de campo com o objetivo de descrever a biodiversidade, e mostra como este empreendimento movido pela curiosidade tem maiores probabilidades de ser bem-sucedido quando aliado ao conhecimento local, à participação de naturalistas amadores entusiastas e a persistência.”


Saiba mais.

Leia aqui a entrevista dada por Martim Melo e Bárbara Freitas à Wilder, em que recordam como foi a descoberta desta nova espécie de mocho e explicam as preocupações quanto ao seu futuro.

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