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Ontem — 29 de Novembro de 2022Blogue RBE

Biblioteca – o espaço onde se é feliz a aprender

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À palavra biblioteca está associada a ideia de espaço, “habitado” por muitos livros versando temas e áreas diversificadas, onde aprendemos, nos divertimos, refletimos, nos interrogamos e temos a forte convicção de que saímos mais preenchidos do que quando aí entramos.

Atualmente, nas nossas escolas, os alunos têm muitos desafios, nomeadamente, o uso abusivo do telemóvel e dos computadores e a falta de uma cultura de leitura, no seio familiar. Cabe, então, aos docentes e aos professores bibliotecários, criar “incentivos” para que os alunos interiorizem hábitos de frequência desse nobre local onde a aprendizagem evolui de uma forma subtil, atrativa e entusiasmante. Torna-se imperioso criar o “bichinho” pelo espaço biblioteca.

As nossas crianças e jovens são uns felizardos pela facilidade com que têm a sua biblioteca “sempre à mão”. A magia desta não se explica, sente-se no cheiro característico do papel, no prazer de folhear um livro, na ansiedade em descobrir a mensagem que cada obra incorpora.

Aos poucos, a preponderância da biblioteca na Escola torna-se mais evidente. Há um crescente trabalho de articulação entre os professores bibliotecários e os restantes docentes, envolvendo alunos em projetos de leitura, atividades e concursos. Os livros saem para as salas de aula, onde são divulgados e trabalhados, angariando leitores e admiradores que, assim, descobrem o gosto pela leitura e pela escrita. Contudo, estas viagens dos livros ultrapassam o seio escolar e seguem para as famílias, à procura de granjear mais adeptos e mais amigos do “livro”.

Redescobrir o valor de uma obra, ter o privilégio de usufruir de uma boa leitura devem ser um desafio permanente para qualquer criança, jovem ou adulto.

Na biblioteca dos nossos tempos, há muito mais do que livros. O acesso à informação é vasto e variado. Frequentar, conscientemente, esse espaço contribui para ampliar o conhecimento, a capacidade crítica e interventiva na sociedade; organiza ideias e pensamentos; favorece a concentração e a capacidade de ouvir o silêncio.

De uma forma simples diria que o segredo para o sucesso educativo passa muito pelo bom uso da biblioteca escolar.

 

Laureano Manuel Cardoso Valente, Diretor do Agrupamento de Infanta Dona Mafalda, Rio Tinto, Gondomar

Tem a palavra... Isabel Alçada

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“Venha ver a nossa biblioteca”

Vou com frequência a escolas de todo o país e mal transponho a porta, é frequente alguém sugerir: “Venha ver a nossa biblioteca”. A Biblioteca Escolar é geralmente o primeiro lugar da escola para onde qualquer visitante é encaminhado, tanto por docentes, como por alunos. A razão é evidente. As bibliotecas das nossas escolas são espaços amplos, alegres, convidativos, onde todos se sentem bem. São espaços dinâmicos, pensados para colocarem a leitura no centro do processo educativo e, graças ao incrível poder da leitura, estimularem a curiosidade, o conhecimento, o acesso à ciência e à cultura.

As bibliotecas oferecem vários tipos de recursos e de experiências. Mas é bom não esquecer que no centro estão os livros, livros ao alcance da mão, que se podem folhear, consultar, requisitar para a aula ou para casa.

Sei que ainda há quem não se aperceba da importância de assegurar que os alunos disponham de livros, ao alcance da mão. Quem nunca tenha pensado que os livros permitem contactar com personagens inspiradoras, descobrir locais exóticos, conhecer histórias antigas ou recentes, histórias que comovem ou fazem rir. E que a leitura em profundidade abre a mente, abre horizontes, estimula a imaginação, transforma as pessoas. É importante não esquecer como os livros continuam a ser essenciais na formação dos seres humanos e no desenvolvimento da humanidade.

É para mim um privilégio ter assistido ao nascimento da Rede de Bibliotecas Escolares.  Ao longo dos anos pude verificar como as bibliotecas se foram gradualmente instalando por todo o país, sempre com exigência e rigor, e mantendo vivos os princípios fundadores.  

Quero felicitar a Coordenadora e as equipas da Rede de Bibliotecas Escolares pelo excelente trabalho que realizam, pelo caráter evolutivo do projeto, pelas múltiplas iniciativas que lançam e, sobretudo, pela dinâmica de leitura que conseguem gerar nas nossas escolas.

As bibliotecas escolares são hoje um dos mais evidentes símbolos de qualidade da escola portuguesa. 

Isabel Alçada

Margarida Fonseca Santos: A escolha é minha!

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Esta coleção quer acompanhar as crianças e os jovens, para que recuperem também a esperança em si mesmos.

A reconhecida autora Margarida Fonseca Santos lançou o nono título da coleção A ESCOLHA É MINHA, que aborda a adolescência e os desafios do crescimento através de histórias contadas na primeira pessoa, com diferentes narradores e perspetivas. A Penguim Educação conversou com a escritora sobre estas histórias de vida, tantas vezes inspiradas em casos reais.

Depois do confinamento imposto pela pandemia, a família da Carolina decide trocar a cidade pelo campo. A jovem tem de se adaptar à nova realidade, e depressa faz amigos na escola. Mas tudo se complica quando um professor se dedica a humilhar os alunos. Confia na Mudança é uma história que aborda temas como o bullying (neste caso de uma perspetiva menos explorada), os distúrbios alimentares, as relações na escola e na comunidade, os laços de amizade e a cooperação.

A história passa-se na Lapa do Lobo, uma aldeia do concelho de Nelas, que acolhe a Fundação Lapa do Lobo, instituição dedicada à promoção da cultura, da educação e da preservação do património, e à qual a autora dedica este livro. Como explica Margarida Fonseca Santos:

«A história situa-se na Lapa do Lobo porque, tendo sido convidada a falar num evento sobre “Encontros da educação e do pensamento”, na Fundação Lapa do Lobo, mergulhei num mundo de esperança. Não foi só o encontro que me deslumbrou, foi a Fundação. Apoios a estudantes, atividades artísticas, que visam não só as crianças como os habitantes da zona, os idosos, e sobretudo a valorização do trabalho de cada um. Conhecer mais de perto o Projeto Educativo Alcateia e as pessoas que ali trabalham mudou-me.

Achei que seria o cenário ideal para falar de uma comunidade capaz de apoiar os alunos e erradicar o desprezo, e na questão da mudança, algo que se iniciou durante a pandemia e que não parece vir a parar: a escolha do interior para uma vida com mais qualidade. No fundo, naquele lugar, tudo isto poderia ter acontecido, com a ajuda de todos, e a cumplicidade a ligar alunos, escola e fundação.»

Margarida Fonseca Santos responde a algumas questões sobre a coleção A ESCOLHA É MINHA, e ajuda-nos a perceber a importância dos temas abordados.

Muitos dos livros desta coleção têm como cenário a escola e mostram a marca que os professores podem deixar aos alunos. Neste caso, apresenta os extremos: dos bons e maus professores. Porque sentiu necessidade disso?

R: Primeiro que tudo, a escola é o sítio onde acontece muito do que se passa com as crianças e os jovens. Ao longo de toda uma vida ligada à pedagogia e ao trabalho com alunos de todas as idades, esbarrei com professores de todo o tipo, como é fácil de imaginar. Trazendo a memória dos meus tempos de aluna, e tentando esquecer aqueles que me humilhavam e desprezavam, valorizei muitíssimo as características dos meus excelentes professores. A pedagogia veio daí, por sentir que é fundamental sabermos que, para cada aluno, temos um papel muito especial e que temos a responsabilidade de o incentivar a crescer.

Sabemos que os professores assumem papéis (por vezes, não intencionalmente) que moldam a realidade porque os sentimos como exemplos. Quando corre bem, é extraordinário; quando corre mal, há alunos a não acreditar em si mesmos, a desenvolver medos e comportamentos pouco saudáveis, a desistir. Nas aulas de pedagogia que dou, peço: no dia em que deixarem de ter esperança nos alunos, parem de dar aulas. Se temos esta responsabilidade de estimular a curiosidade e a aprendizagem, temos de fazê-los sentir que estamos prontos para ajudar e para elogiar quando conseguem. O elogio ainda é pouco usado, nos dias de hoje, nalgumas escolas. Corrige-se em vez de comentar e ajudar a construir conhecimento. Toda esta coleção quer acompanhar as crianças e os jovens, para que recuperem também a esperança em si mesmos.

A violência verbal e psicológica é tão grave como a violência física, mas fica muitas vezes escondida por não se verem marcas visíveis no corpo. Tem algum conselho para os seus leitores mais jovens e adultos?

R: Bom, penso que a violência verbal e psicológica é pior do que a física. Pode ser sob a forma de uma subtil chantagem emocional, na atribuição da culpa, até chegar ao desprezo e à humilhação. Se pensarmos bem, toda a violência física é psicológica.

Gostaria muito de conseguir, através destes livros, que vejam saídas e caminhos, e que escolham o que lhes fizer mais sentido. Não dou nenhum conselho específico, isso seria moralizar os livros: mostro pistas para que saibam que existe esse poder de escolha e que não precisam de aceitar essas afrontas do dia-a-dia.

Gostaria de destacar o papel da Escola (direção de turma, direção da escola, pais e professores) na resolução de conflitos. Temos de confiar nesse apoio, como acontece neste livro (e que se baseia em momentos a que assisti). Se alguém está a atacar os seus alunos, somos todos responsáveis por mudar esse facto.

Conhece alguma história ou pessoas parecidas com as situações e personagens deste livro?

R: Infelizmente, sim, várias. E não são do passado, são contemporâneas. A forma como falam com as pessoas, o desprezo de se acharem superiores aos outros, o gozo de pôr à vista de outros as fraquezas de alguém, o desrespeito ao ponto de chamar burro, inútil, atrasado, incapaz (só para nomear alguns). Sou um pouquinho radical neste campo: acho que há pessoas a quem se devia barrar o acesso à profissão (neste caso, não poderiam voltar a ensinar).

Esta obra conta uma história pós-pandemia. Todos nós mudámos a nossa vida de alguma maneira. Qual é a mensagem que gostava de deixar aos leitores deste livro?

R: A pandemia trouxe muitas coisas, sendo a mais importante a de nos pôr a pensar nos nossos dias, nas nossas escolhas, no sossego, na falta dos amigos, nos lugares onde vivemos, na profissão, no tempo livre. Foi uma enorme oportunidade de repensar tudo. Aproveitem-na e olhem à vossa volta – há sempre algo que podemos mudar para melhor, arrisquem, vale sempre a pena.

Neste livro, como em livros anteriores, como A Caixa da Gratidão, a importância da ligação da escola à comunidade e a promoção da interajuda entre gerações está muito patente. É intencional ou é algo que surge naturalmente no decorrer da escrita da história?

R: Não sei bem se é intencional, será mais uma evidência ao longo da minha vida, pois tive a sorte de conviver sempre com pessoas com muito mais idade, e isso aparece sempre na escrita. Gosto de ouvir histórias e tecer conversas tranquilas. Por outro lado, dando aulas, convivi sempre com idades muito diversificadas, dos cinco aos 90. Como acredito que, quando se ensina, se aprende muito mais, ando sempre à descoberta desses mundos.

O que desejo, para o presente e para o futuro, é que se aprofunde a relação da comunidade transgeracional. Temos todos a ganhar com isso. A família é maior do que a de sangue, e a comunidade pode realmente transformar-nos em melhores pessoas.

Este artigo foi publicado originalmente pela Penguim Educação e republica-se com autorização da editora.

Antes de ontemBlogue RBE

Palavras&Cª distinguido com Prémio Incentivo

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O jornal escolar dinamizado pela biblioteca escolar da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Alter do Chão foi distinguido no Concurso Nacional de Jornais Escolares, Público na Escola.

Este projeto com mais de meia década tem sobrevivido num contexto particularmente difícil. A leitura e a escrita nem sempre se assumem como uma prioridade nos interesses revelados por alunos de uma escola ligada à formação de profissional na área da equitação, agricultura e turismo.

De forma a contrariar esta tendência, a equipa responsável por esta publicação, Sérgio Mendes e Teresa Casquilho, inovou e promoveu uma maior proximidade com alunos e docentes, convidando-os a assumir um papel mais ativo na produção de conteúdos. Para o efeito, desde 2021 disponibiliza um link onde todos os interessados identificam um conjunto de ideias-chave que facilitam a construção dos artigos em momento posterior. Esta segunda etapa é assumida pelos alunos sob orientação do professor bibliotecário.

Paralelamente, a biblioteca escolar começou também a dinamizar formações em articulação com as diferentes disciplinas, as quais deram origem a vários artigos para o Palavras&Cª.

Para além de um pequeno prémio pecuniário, está prevista a realização de um workshop promovido pela equipa do Público. Este prémio vem, assim, reconhecer todo o trabalho desenvolvido até ao momento, assim como conferir um novo dinamismo a esta publicação semestral.

 

As ligações entre a Inteligência Artificial e a Educação (IA&ED)

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Recentemente, o Conselho da Europa divulgou o relatório ARTIFICIAL INTELLIGENCE AND EDUCATION A critical view through the lens of human rights, democracy and the rule of law,[1] um estudo onde são examinadas as ligações entre a inteligência artificial (IA) e a educação (ED). Com o objetivo de fornecer uma visão holística que ajude a assegurar que a IA empodere e não sobrecarregue educadores e alunos, e que os futuros desenvolvimentos e práticas sejam genuinamente para o bem comum, o estudo está organizado em quatro partes:

1. Ligações IA&ED

2. Desafios-chave para a AI&ED

3. IA&ED e os valores fundamentais do Conselho da Europa

4. Desafios, oportunidades e implicações da AI&ED

Neste artigo apresentaremos uma resenha das principais ideias avançadas na primeira parte do documento, onde, após uma breve introdução ao que é e como funciona a IA, são analisadas as ligações entre a IA e a Educação em três vertentes:

- a utilização da IA para aprender (IA de apoio ao aluno, de apoio ao professor e de apoio ao sistema);

- a utilização da IA para obter informações sobre a aprendizagem (por vezes entendido como análise da aprendizagem);

- a aprendizagem sobre a própria IA, ou seja, literacia da IA, considerando tanto a dimensão humana como a tecnológica.

 

Aprendizagem com Inteligência Artificial

A aprendizagem com IA inclui o uso de ferramentas baseadas na IA no ensino-aprendizagem, e inclui o uso de IA para apoiar:

- os alunos, envolvendo ferramentas com sistemas inteligentes de tutoria, baseados no diálogo, ambientes de aprendizagem experimentais, avaliação automática da escrita, organizadores de aprendizagem, chatbots (conversadores) e IA para apoiar os alunos com deficiências;

- os professores (embora, com exceção da curadoria inteligente de materiais de aprendizagem, existam poucos exemplos).

- As instituições e os sistemas administrativos (recrutamento, calendarização, etc.) e gestão da aprendizagem;

Apoio ao aluno

- Eficácia pouco clara: O uso de IA de apoio ao aluno está rapidamente a tornar-se popular, no entanto, continuam a ser poucas as provas robustas e independentes do seu valor, pelo que muitas pretensões (tais como que o uso de IA na educação melhorará drasticamente a forma como os alunos aprendem) continuam a ser uma esperança. De facto, embora existam algumas exceções notáveis, trabalhos recentes salientam os limites técnicos, sociais, científicos e conceptuais da IA nos sistemas educativos e assinalam a falta de provas robustas e independentes quanto à sua eficácia ou sucesso na obtenção dos resultados pretendidos.

- Substituição de professores: Há quem avance o argumento bastante forte da importância de usar a IA para apoiar os alunos em contextos onde há poucos professores experientes ou qualificados, tais como nas zonas rurais dos países em desenvolvimento. No entanto, a utilização da tecnologia para substituir os professores aborda a sintoma deste problema-chave (crianças que não recebem a educação a que têm direito) e não a causa (a escassez global de professores). Embora algumas crianças possam beneficiar desta utilização da IA, os efeitos a longo prazo da utilização desta abordagem tecno-solucionista para resolver o que é essencialmente um problema social permanecem desconhecidos.

- Enviesamentos: Os criadores de IA&ED tendem a estar sedeados em países ocidentais, educados, industrializados, ricos e democráticos e estão, portanto, menos familiarizados com as necessidades dos jovens nos países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, embora não existam provas específicas disponíveis, é provável que a IA&ED sofra da mesma falta de diversidade pela qual a IA em geral é bem conhecida, com resultados potencialmente enviesados em dados e algoritmos.

- Confiança: Para que as ferramentas de IA se tornem ainda mais amplamente utilizadas nas salas de aula, é essencial que professores, alunos, pais e outros intervenientes possam confiar que serão benéficas - que melhorarão a aprendizagem e não causarão quaisquer danos. Contudo, com demasiada frequência, o ónus da confiança recai sobre os intervenientes na sala de aula (para confiarem nas ferramentas de IA de apoio ao aprendente) em vez de nos fornecedores (para fornecerem ferramentas de IA de apoio ao aluno que sejam dignas de confiança).

Apoio ao professor

- Substituição: Muitos já expressaram a sua esperança de que a IA venha a poupar tempo aos professores, outros sugeriram que a IA, a dada altura, tornará redundantes os professores - ou pelo menos o seu papel será reconfigurado como organizadores/ facilitadores de tecnologia de sala de aula, encarregados de gerir o comportamento dos alunos e de assegurar que a tecnologia seja ligada.

- Pouco desenvolvimento: A IA&ED tem-se concentrado na utilização da IA para apoiar diretamente os alunos, com o objetivo de melhorar a aprendizagem, geralmente assumindo (substituindo) as funcionalidades do professor, tais como através de tutoria adaptativa alimentada pela IA. Tem havido muito pouca atenção à IA concebida especificamente para apoiar os professores.

- Pouca disponibilidade: Recentemente tem havido alguma investigação, sobre o uso da IA para pesquisar a Internet a fim de fazer curadoria de recursos e foram disponibilizadas ferramentas concebidas para analisar e apoiar as práticas dos professores, a gestão do tempo e a planificação de aulas. No entanto, muito pouco disto foi aproveitado pelos agentes comerciais ou está amplamente disponível.

- Avaliação: A IA tem-se concentrado nas ferramentas que visam avaliar automaticamente as tarefas dos alunos para poupar tempo ao professor. Contudo, a IA não é capaz da profundidade de interpretação ou precisão de análise que um professor humano pode dar. Mesmo que a IA fosse capaz de uma classificação justa e precisa do texto livre, a implementação de tal sistema também ignoraria o que um professor fica a saber sobre os seus alunos quando lê o que escreveram.

- Eficácia pouco clara: A IA pode poupar tempo aos professores, embora haja poucas provas disso, mas continua a não ser claro qual poderá ser o seu impacto na qualidade do ensino-aprendizagem.

Apoio às instituições de educação

- Tipos de uso: As principais ferramentas de IA para apoio à instituição são as que permitem a automatização de processos relacionados com as admissões dos alunos, a simplificação da comunicação com os alunos e a planificação da afetação de recursos.

- Previsão de abandono: A utilização de IA para prever o abandono escolar é também uma área de investigação popular, sendo o seu objetivo compreender os fatores que podem ter impacto sobre as desistências, prevê-las e reduzi-las. No entanto, há ainda poucas provas da eficácia de tais sistemas, ou mesmo se as ligações estabelecidas são preditivas ou causais.

 

Inteligência Artificial para conhecer a aprendizagem

- Dados: Os sistemas de IA recolhem grandes quantidades de dados incluindo dados sobre as respostas dos alunos às perguntas, o que dizem, o seu estado afetivo (por exemplo, interessados ou distraídos), onde clicam e como movem o seu rato no ecrã, para citar apenas alguns. Uma única sessão, com uma criança a interagir com um sistema educativo eletrónico com IA, gera um número muito significativo de dados que representam traços digitais de aprendizagem.

- Traços digitais: Os traços digitais de aprendizagem permitem aumentar a compreensão das partes interessadas sobre os comportamentos dos alunos, com o objetivo de melhorar a aprendizagem e os ambientes em que ela ocorre. O conhecimento destes dados permite igualmente criar automatismos (por exemplo, uma plataforma de aprendizagem adaptativa).

- Beneficiários: Embora ainda existam poucas provas de que a análise de dados de aprendizagem melhora o ensino-aprendizagem, são, aparentemente, os alunos que beneficiam. No entanto, também os fornecedores de IA&ED tiram proveitos, uma vez que utilizam os dados com objetivos de gestão de negócio. A questão que permanece é compreender como é que os alunos, os professores, a escola, ou o sistema educativo mais alargado beneficiam dessa análise de dados de aprendizagem possibilitada pela IA.

- Objetivos: Existe o risco de os objetivos de melhoria do processo de ensino-aprendizagem serem substituídos pelos objetivos comerciais das empresas fornecedoras de IA&ED, transformando-se, abusiva e inconscientemente, as crianças de todas as salas de aula em fontes de informação para decisões de negócio.

- Transparência: As empresas privadas não partilham rotineiramente os dados de investigação relativa aos seus sistemas. Há uma transparência muito limitada em relação às taxas de erro e muitos produtos de IA&ED estão a ser adotados com provas de eficácia muito limitadas e fraca supervisão. Há também muitos produtos educativos que afirmam utilizar IA, mas não o fazem de facto. Esta assimetria informativa prejudica o Estado e a sociedade civil.

- Resultados: As empresas multinacionais e os seus produtos não só estão a moldar alunos e professores individuais, mas também questões de agenda relacionadas com a governação e as políticas nacionais. Embora exista alguma literatura que aborda o que as empresas de IA&ED estão a aprender com a utilização dos seus sistemas por parte dos alunos, ainda não é claro como é que isso influencia a nossa compreensão do modo como a aprendizagem acontece, como o ensino deve ser alterado e como a aprendizagem deve ser medida.

 

Aprendizagem sobre a IA (Literacia da IA)

- Duas dimensões: As dimensões tecnológica e humana têm sido importantes para o desenvolvimento das TIC, mas a dimensão humana raramente tem sido abordada em profundidade. Uma vez que as técnicas de IA em muitos casos visam imitar e até ultrapassar processos cognitivos humanos, é, agora, crucial dar à dimensão humana da IA a mesma importância que a dimensão tecnológica. A literacia da IA deve incluir tanto a dimensão tecnológica (o modo como funciona) como a dimensão humana e o impacto da IA (no ser humano, na cognição, na privacidade, nos organismos, etc.) assim como explicações sobre as pessoas, o poder e as motivações políticas por detrás da adoção de cada tomada de decisão automatizada.

- Objetivo da educação: Enquanto os decisores políticos não forem claros sobre o objetivo da educação (por exemplo, transferir conhecimentos, aumentar o sucesso nos exames, ajudar os jovens a desenvolver o seu potencial individual e a autorrealizarem-se, ou a promover a compreensão, a tolerância e a amizade entre todos os povos) e enquanto não forem implementadas as políticas apropriadas, o que deve ser ensinado sobre a IA permanece discutível.

- Destinatários: Todos os cidadãos devem ser encorajados e apoiados para atingirem um certo nível de literacia de IA, devendo ter os conhecimentos, aptidões e valores necessários para o desenvolvimento, implementação e utilização de tecnologias de IA.

- Projetos: Em todo o mundo existem vários projetos de programação e ensino de código que estão a promover, de algum modo, um currículo em IA, liderados por empresas comerciais e ONG. Estes currículos comerciais de IA, bem financiados e desenvolvidos por peritos em IA em vez de por educadores, voltam a levantar questões incómodas sobre o envolvimento do setor privado na educação e sobre o impacto nos alunos dos seus imperativos comerciais.

- Dimensão tecnológica: Todos os projetos de currículo de IA tendem a centrar-se na dimensão tecnológica da IA com exclusão da dimensão humana, exceto para uma breve incursão na ética da IA.

- Dimensão Humana: O objetivo de abordar a dimensão humana da literacia da AI é possibilitar que todos compreendam o que significa viver com a IA e como tirar o melhor partido do ela oferece, protegendo-se simultaneamente de qualquer influência indevida sobre a sua ação ou dignidade humana. Para isso os jovens devem ser ajudados a compreender a forma como a IA, a automatização e especialmente a tomada de decisão automatizada, pode afetar a forma como são tratados na sociedade. Por outras palavras, todos os jovens precisam de compreender se a IA com que se envolvem consciente ou inconscientemente os trata de forma justa.

 

Referência

[1] Holmes, W., Persson, J., Chounta, I., Wasson, B. & Dimitrova, V. (2022). ARTIFICIAL INTELLIGENCE AND EDUCATION A critical view through the lens of human rights, democracy and the rule of law. Council of Europe. https://rm.coe.int/artificial-intelligence-and-education-a-critical-view-through-the-lens/1680a886bd

Fonte da imagem: obra referida em [1]

As bibliotecas escolares do AE Dr. Serafim Leite no contexto do PADDE

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Em 2020, o Plano de Ação para a Transição Digital (PADDE) veio abrir caminho para que as escolas refletissem sobre si mesmas e sobre os alunos que atualmente frequentam a escolaridade obrigatória.

Quando todos tivemos que ficar em confinamento, a forma expedita e competente com que se encontraram caminhos, se partilharam os mesmos e, colaborativamente, se articularam soluções digitais, para continuar os processos de ensino e aprendizagem a distância, foi de tal forma enriquecedora que, na visão das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas Dr. Serafim Leite (AESL), todo esse trabalho deveria ser tratado e disponibilizado no seu sítio na internet. A direção do AESL considerou relevante, tendo incorporado no PADDE do AESL o repositório dos recursos educativos digitais criado em articulação estreita com esta Biblioteca Escolar.

As áreas de intervenção da BE no PADDE do AESL são cinco:

- Apoio à Aprendizagem;

- Atividades com recurso ao digital;

- Literacia da Informação;

- Propriedade Intelectual;

- Segurança em ambientes online.

Para tal, delineámos objetivos de intervenção muito claros e mensuráveis:

1. Criação de uma área, no sítio da Biblioteca na internet, onde conste uma seleção de pelo menos um sítio fiável de acesso à informação, por grupo disciplinar;

2. Criação de um banco de recursos digitais, no sítio da Biblioteca na internet, criados pelos docentes do AESL, onde conste 1 conteúdo por cada ano/disciplina;

3. Promoção de 1 sessão, por turma, do 5.º ao 12.º ano, de sensibilização para a problemática da literacia da informação, com enfoque para o respeito da propriedade intelectual e segurança em ambientes online;

4. Promoção de 1 atividade, em parceria com as estruturas internas e ou com entidades externas, que envolvam recurso ao digital, em cada turma do 2.º ao 12.º ano.

Que caminho já fizemos? 

1. No sítio na internet da Biblioteca Escolar foi criado um menu “Apoio à Aprendizagem” com submenus organizados por ciclos de ensino/disciplinas. Desta forma, os utilizadores podem facilmente aceder aos conteúdos de acordo com as suas necessidades.

2. Para alimentar a estrutura criada e dando cumprimento ao PADDE da BE, foi sensibilizado o Conselho Pedagógico para a importância da partilha de documentos e da curadoria, com repercussão nos departamentos. A biblioteca participou no encontro anual de professores com esta temática, foi desenvolvida uma ação de curta duração (ACD) no mesmo âmbito (“Sabias que a biblioteca partilha o sol e a chuva, o protetor solar e o guarda-chuva?”) para apoio aos professores na cedência de conteúdos digitais, construídos pelos próprios, recorrendo, para tal, aos guiões de orientação da informação a registar, criados pela biblioteca escolar.

3. Foi, ainda, trabalhada a importância de respeitar os direitos de autor e as licenças de utilização de conteúdos de autor, junto dos docentes e dos alunos. Para os docentes, foi dinamizada uma Ação de Curta Duração pela coordenadora interconcelhia (“Direitos de Autor: Conhecemos? Respeitamos? Fazemos cumprir?”). Para os alunos, foram realizadas sessões de exploração da informação, com recurso às propostas do projeto “Brain Ideas” da DecoJovem.

4. Por fim, a BE promoveu e continua a promover, com os alunos, a realização de projetos, internos e externos, recorrendo ao digital.

O que (ainda) não conseguimos fazer?

A disponibilização de recursos educativos digitais traz aos professores um sentimento de insegurança quanto à qualidade dos conteúdos que produzem, pelo que, ainda existe alguma timidez em relação a essa disponibilização. Para que os professores se sintam mais seguros, a Biblioteca Escolar tem prestado apoio, motivado e encorajado os docentes a disponibilizar e/ou criar recursos educativos digitais. Por outro lado, a Biblioteca Escolar disponibiliza formação e apoio constante na área dos direitos de autor e de licenciamento de conteúdos.

Acreditamos que os interesses dos nossos alunos passam pela utilização de conteúdos e dispositivos digitais e nós, biblioteca escolar, queremos ir ao encontro deles. Queremos que estejam motivados e que aprendam em ambientes estimulantes nos quais se sintam confortáveis.

Os nossos alunos e os nossos professores sabem que podem contar SEMPRE com a sua Biblioteca Escolar.

A Saramaguear...

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No dia 16 de novembro de 2022, na Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, comemorou-se o centésimo aniversário do nascimento de José Saramago com um riquíssimo programa que envolveu toda a escola e parceiros locais, bem como insignes personalidades que revisitaram a obra saramaguiana por meio de outras artes que não somente a literatura.

O conjunto de iniciativas teve início logo pela manhã, no auditório da escola, com o Ciclo de cinema “Das palavras de Saramago à tela de cinema”, que incluiu o visionamento do filme “Embargo”, “A maior flor do mundo” e “O conto da ilha desconhecida”, prosseguindo com “Leituras saramaguianas”, na biblioteca escolar, onde os presentes puderam saborear as palavras do autor, retiradas de obras como Memorial do Convento, Os poemas possíveis, Cadernos de Lanzarote e Viagem a Portugal, através da leitura expressiva realizada por representantes dos mais variados elementos que compõem a comunidade educativa. Assim, alunos de vários níveis de ensino, de Português Língua de Acolhimento, de Português Língua Estrangeira, da Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola, uma representante dos encarregados de educação, uma professora, uma assistente operacional, acompanhados musicalmente por alunos do Conservatório das Caldas da Rainha, homenagearam da melhor forma o escritor, reativando as suas palavras e o seu pensamento e deixando ecos perduráveis nos presentes. Afinal, tal como refere Saramago na sua obra Viagem a Portugal, “É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles”. Por isso, os presentes também foram convidados a “Voltar aos passos que foram dados” pelo escritor, percorrendo a exposição da Fundação José Saramago, cedida por empréstimo pela Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, para uma viagem pela biografia literária do escritor, numa narrativa que possibilitou (re)encontrar as suas obras mais impactantes e o seu legado cultural e cívico. À exposição foi associado um quiz a realizar nos dispositivos móveis, criado para guiar os visitantes da exposição.

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O Agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro associou-se ainda ao programa de comemoração do centenário do nascimento de José Saramago, "Saramago na Escola", com as Leituras Centenárias, uma parceria com a Fundação José Saramago, com a Rede de Bibliotecas Escolares e com o Plano Nacional de Leitura 2027. A Beatriz Dottling Carmo, aluna do 12.º LH1, representou a Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, através da leitura de um excerto do último capítulo da obra Memorial do convento, uma atividade resultante da colaboração entre a Biblioteca Escolar, o grupo disciplinar de Português, a artista residente, Amábile Bezinelli, alunos e professores do Curso Profissional de Técnico de audiovisuais.

De seguida, os presentes foram convidados a percorrerem a instalação artística “100 SaramaguiANOS”, em que 100 alunos reconstituíram uma mostra bibliográfica viva das obras do escritor celebrado. Pelo caminho, puderam usufruir da exposição “José Saramago na Caricatura Internacional”, uma mostra com os trabalhos premiados, os finalistas e algumas das melhores caricaturas selecionadas pelo Júri internacional do PortoCartoon-World Festival.

Já no bloco 2, piso 2, nas salas 13, 15 e 17, os participantes puderam assistir à apresentação dos Quadros vivos, uma recriação de alguns quadros da exposição “Vontades”, do artista plástico José Santa-Bárbara, que, sem palavras, muito agradeceu a releitura dos seus quadros. Os quadros vivos animaram os quadros intitulados “A ara de Cheleiros”, “O Espírito Santo” e “A leva da Infanta”, em diálogo direto com passos do romance que os inspirou, e constituíram o ponto mais alto das comemorações, resultando do trabalho conjunto das professoras bibliotecárias do agrupamento, dos professores do grupo de Português, da Coordenadora do Plano Nacional das Artes e da artista residente Amábile Bezinelli.

As iniciativas das comemorações da parte da manhã terminaram no anfiteatro, onde o artista plástico foi agraciado pela sua presença e obra com uma risografia da autoria do ilustrador Bruno Santos. Num discurso assaz emocionado e emocionante, José Santa-Bárbara agradeceu o convite, pretexto para revisitar uma cidade que já foi sua, e a revisitação da sua obra por meio de um trabalho coletivo e criativo que muito o honrou. Sublinhou que estas iniciativas provam a sobrevida de José Saramago, escritor universal empenhado na (re)construção de um mundo menos iníquo e mais humano. Seguiu-se um beberete preparado pelos alunos da Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste e servido pelos alunos do Curso Profissional de Técnico de Turismo da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro.

A parte da tarde foi preenchida com a palestra de João Maria André, professor e investigador na Universidade de Coimbra, que tem desenvolvido uma intensa atividade cultural ao nível da dramaturgia e encenação na Cooperativa Bonifrates e no Teatro Académico de Gil Vicente, a propósito da adaptação teatral de As intermitências da morte, de José Saramago. A palestra, que aliciou os presentes para a leitura do romance que inspirou a peça prestes a subir à cena, terminou com a leitura encenada, pelo palestrante e pela artista residente em funções no agrupamento, porque a melhor forma de celebrar um escritor é lê-lo.

Em suma, a comemoração do centenário do nascimento de José Saramago desassossegou toda a escola e criou um movimento coletivo, desencadeado pelas bibliotecas escolares do agrupamento, que envolveu vários parceiros, nomeadamente, o órgão de gestão, a Coordenadora do Plano Nacional das Artes e a artista residente na escola, o grupo de Português, a Coordenadora Interconcelhia das Bibliotecas Escolares, os alunos participantes em todas as atividades, os alunos e professores dos cursos profissionais de Técnico de Audiovisuais e de Técnico de Turismo, assistentes técnicos e operacionais, o CFAE Centro-Oeste, a Escola Superior de Arte e Design, o Conservatório das Caldas da Rainha, a Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste, a Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha e as bibliotecas da Escola Secundária Raul Proença e da Escola Básica D. João II.

Todos irmanados para proporcionar um dia preenchido e protagonizado pelos vários públicos da comunidade educativa com vista a celebrar o legado de um dos maiores escritores da literatura universal.

Caricaturas de José Saramago

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Este pequeno relato mostra o processo de trabalho que conduziu a uma exposição de caricaturas de José Saramago, elaboradas pelos alunos do 5.º e 6.º ano da Escola Básica e Secundária de Paredes, Agrupamento de Escolas de Paredes.

Pretendendo dar continuidade às comemorações do Centenário do Nascimento do nosso Prémio Nobel da Literatura, em julho, na preparação do ano letivo 2022, as professoras bibliotecárias, propuseram aos colegas do Departamento de Expressões a elaboração de caricaturas, inspiradas em outras já existentes e /ou em fotos do escritor.

No início do ano letivo, com a ajuda dos professores de português e das professoras bibliotecárias, os alunos fizeram pesquisas para ficarem a conhecer melhor José Saramago, a sua vida e obra e os seus registos fotográficos mais divulgados.

Escolhida a foto e orientados pelos seus professores de Educação Visual, no decorrer das aulas, os alunos, deram asas à sua imaginação. Os trabalhos foram expostos nos placards e vitrines do pavilhão A, para serem apreciadas por todos. A exposição tem vindo a ser muito visitada, sendo alvo de grandes elogios da comunidade escolar.

Para perpetuar esta iniciativa a Equipa da Biblioteca Escolar criou o filme o qual permite, de forma inequívoca, demonstrar a qualidade gráfica e o espírito criativo das caricaturas produzidas pelos nossos alunos.

Tal como o menino herói de A Maior Flor do Mundo, os nossos meninos foram todos maiores do que o seu tamanho e prestaram uma excelente homenagem a José Saramago, que ficará na nossa e nas suas memórias.

Helena Costa e Celeste Fontelas
Professoras bibliotecárias

 

 

Ler a pensar, pensar a ler: mediação da leitura e do diálogo na Biblioteca Escolar

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A propósito do Dia Mundial da Filosofia (17 de Novembro de 2022) partilho um breve relato de um projeto de mediação da leitura e do diálogo, em parceria com uma Biblioteca Escolar, o Centro de Recursos Poeta José Fanha (AE da Venda do Pinheiro).joana-rita-sousa.png

 

O livro, as oficinas de diálogo e o jazz

O trabalho de mediação do diálogo que desenvolvo com crianças (e também com jovens e adultos) parte muitas vezes do encontro com um livro. Isso não significa que o livro seja sempre a provocação com a qual damos início ao diálogo; por vezes, os livros inspiram-me na fase de preparação das oficinas, no desenhar de perguntários (inventários de perguntas), no imaginar de cenários e temáticas que podem acontecer no diálogo.

Concordo com Marina Santi e defendo que as oficinas de filosofia têm muito de jazz: treinamos muito, preparamos as peças musicais (neste caso, as oficinas) e no momento temos de dar lugar ao improviso e aos contributos das outras pessoas que se juntam a nós para parar, pensar, escutar e dialogar.

Também a leitura de um livro pode ter esse efeito jazzístico, de ser novo de cada vez que o abrimos, lemos ou damos a ler. Podemos ler coisas novas, observar elementos com mais detalhe, rever a nossa interpretação, numa atitude de improviso ou de “logo se vê”. Este “logo se vê” não é uma atitude desinteressada e sem preparação; pelo contrário, é a dedicação à preparação que permite depois abrir para o improviso, escutando quem está ao nosso lado para dialogar.

Um projeto de continuidade na comunidade escolar: Ler a Pensar, Pensar a Ler

Durante o ano letivo 2021/2022 tive a oportunidade de desenvolver o projeto Ler a Pensar, Pensar a Ler, ao abrigo da candidatura (Re)ler com a biblioteca - na companhia da Professora Bibliotecária Jacqueline Duarte, do Centro de Recursos Poeta José Fanha (Biblioteca Escolar), na Escola Básica Venda do Pinheiro.

A Professora Jacqueline entrou em contacto comigo para desenharmos um projeto onde o livro fosse o trampolim do diálogo e onde o diálogo constituísse um momento para voltar ao livro. Depois de desenhar o projeto, fazer a candidatura e ver a candidatura aprovada, partimos para o processo de curadoria de livros e planeamento dos encontros entre as mediadoras e as cinco turmas do 2.º e 3.º ciclos.

Procurámos criar um tempo e um espaço que acolhesse um movimento perpétuo entre a leitura e o pensamento. Para tal, foram pensados momentos de mediação de leitura dinamizados pela Professora Jacqueline e momentos de mediação de diálogo dinamizados por mim.

O primeiro momento de trabalho acontecia entre as turmas e a Professora Jacqueline, pelo que cabia-me seguir o fio do trabalho; fio esse que depois a Professora Jacqueline agarrava e voltava a passar-me. Trabalhámos em parceria, recorrendo a pastas partilhadas da google drive para fazer os nossos registos e documentarmos o processo.

Entre planos de trabalho e muito jazz, lemos, pensámos, voltamos a ler e voltamos a pensar a partir de livros, no espaço da biblioteca escolar.

Os encontros aconteceram em formato presencial, com exceção para o último que teve um formato online. Cada turma era acompanhada pela Professora ou Professor e os encontros aconteceram durante os tempos letivos. Criámos momentos e estratégias para que as Professoras e Professores pudessem continuar o diálogo ou a leitura a partir daquilo que era desenvolvido nos encontros na Biblioteca.

Na rede social instagram é possível encontrar alguns apontamentos consultando o hashtag #lerapensarpensaraler

Perguntas, critérios, juízos e um manual do consenso

O trabalho desenvolvido entre as mediadoras e as turmas, a partir dos livros selecionados, permitiu criar momentos de investigação individual e colaborativa, identificar critérios, relacionar momentos da narrativa com a nossa vida, praticar competências como a síntese (fazendo pontos de situação) ou a analogia (avaliação figuro-analógica), aprender e aplicar ferramentas como o quadrante de perguntas, entre outros.

A turma que trabalhou a partir do livro Discórdia, de Nani Brunini (Pato Lógico) criou ainda um Manual do Consenso para nos ajudar a discordar de forma saudável e respeitosa – sem correr o risco de sermos engolidos pelo “monstro da Discórdia”.

Escutar o que dizem as crianças e os jovens

Em vários momentos convidámos as pessoas participantes a avaliar os encontros e o que neles acontecia:

(...) é uma forma de comunicar e perceber o ponto de vista de outra pessoa.

 acho que fazem muito bem, pois conseguimos expressar a nossa opinião sem sermos “atacados”

 Eu senti que poderia me expressar e dizer a minha opinião.

 Aprendi que o escutar é muito importante; se não escutarmos não conseguimos responder, que sem pensar na resposta não dizemos a coisa certa e que se não dialogarmos não conseguimos entender os outros.

 O que sinto é que são muito divertidos.

 Aprendi, nesta sessão, que existem diversas maneiras de fazer perguntas, como estruturar e construir perguntas, o que foi interessante.

 O que gostei mais foi quando tivemos que fazer as perguntas.

Também houve quem considerasse que os encontros eram “um bocado seca”. Quando desenvolvemos este tipo de trabalho é difícil agradar a cada uma das pessoas e até encontrar estratégias que permitam envolver cada uma das pessoas. É importante estar consciente desse desafio e, simultaneamente, esperançar que sejam momentos para semear algo que talvez dê frutos mais tarde.

O projeto aproximou a filosofia da biblioteca escolar e também aproximou as duas mediadoras envolvidas. Eu e a Professora Jacqueline mantemos o contacto e vou tendo notícias dos alunos com os quais tive a oportunidade de filosofar. Soube recentemente que duas turmas que participaram no Ler a Pensar, Pensar a Ler foram as escolhidas para participarem na iniciativa Transformar a Educação, proposta pela RBE, dinamizada num registo de Assembleia de alunos.

***

Projetos como este permitem-me celebrar a Filosofia em vários momentos do ano, para lá do dia que lhe foi consagrado pela UNESCO. Por esse motivo, tenho de agradecer às Professoras e Professores, às Educadoras e Educadores que me convidam para a sua sala ou biblioteca escolar para praticar o #PararPensarEscutarDialogar.

 

[1] Joana Rita Sousa é filósofa, perguntóloga e mestre em filosofia para crianças. É mediadora da leitura e do diálogo. Dedica-se, desde 2008, ao desenvolvimento de oficinas de filosofia destinadas a crianças (a partir dos 3 anos), jovens e adultos.

Dinamiza clubes de leitura e oficinas de diálogo, tendo criado em 2021 criado o Clube de Leitura em Voz Alta #filocri.

 

 

 

 

Biblioteca Escolar: O desafio da anticensura

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Fonte da imagem: [4].

Pensar, ler e escrever, com espírito crítico e emoção, pode ser transgressor e mudar, para sempre, a comunidade, o país e o mundo. 

Tendo consciência do perigo que podem representar as ideias e as palavras, a Ditadura Militar de 1926 instituiu a censura, mas é “a partir de 1934, que os Serviços de Censura, com a colaboração da polícia política, que apreendia exemplares nas livrarias, editoras e em rusgas domiciliárias, iniciaram uma terrível campanha de silenciamento da palavra impressa, mas também das artes, cinema, teatro e de todas as áreas da informação, incluindo os jornais, a rádio e, mais tarde, a televisão”, ampliando o “controlo, vigilância e repressão dos escritores, editores, distribuidores e livreiros” [1].

Foram censuradas obras consideradas “imorais, pornográficas, comunistas, irreligiosas, subversivas, más, antissociais, deseducativas, dissolventes, anarquistas e revolucionárias” [2], que desafiavam a ordem estabelecida nacionalista, imperialista e colonialista, católica, patriarcal e heteronormativa, que defendiam direitos fundamentais e a possibilidade de cada um ser quem quiser, que denunciavam problemas sociais estruturais - como a pobreza, o analfabetismo e a exploração dos trabalhadores - de um país adiado, que vivia da aparência e status quo. “Não vivíamos num país real, mas numa Disneyland qualquer, sem escândalos, sem suicídios, nem verdadeiros problemas” [3], diz Eduardo Lourenço, visando este período. 

Porque a Rede de Bibliotecas Escolares advoga a inteira liberdade/ independência de criação e circulação de ideias e o direito universal à educação e à cultura, tendo em vista uma vida boa para todos, apoia o lançamento da Biblioteca da Censura, da iniciativa do jornal Público e da editora A Bela e o Monstro [4]. 

Através desta Coleção as pessoas têm acesso, pela primeira vez à reimpressão fidedigna/ fac-símile das obras originais conforme foram modificadas pela censura, através de carimbos, cortes, rasuras, relatórios. Para assinalar meio século de liberdade cada livro proibido pelo Estado Novo (1933 -1974) é libertado no dia 25 de cada mês.

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Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril. (2022). 50 anos 25 de Abril. Portugal: Comissão comemorativa. https://www.50anos25abril.pt/comissao

Esta é uma iniciativa realizada no contexto das comemorações dos 50 anos do 25 de abril de 1974, que se celebram de 23 de março de 2022 a dezembro de 2026 [5] e que conta com o apoio, para além da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, do Arquivo da RTP, da rádio Antena 1 - realiza uma entrevista sobre o livro publicado em cada mês - e da Ephemera (Arquivo da Censura) e Torre do Tombo.

A ideia da Coleção decorre da exposição “Obras proibidas e censuradas no Estado Novo” [6], comissariada por Álvaro Seiça, Luís Sá e Manuela Rêgo e em exibição na Biblioteca Nacional de Portugal, entre 3 de maio e 16 de setembro 2022. 

Esta coleção de livros, destinados a não serem lidos, encerrados na Biblioteca dos Serviços de Censura em Lisboa, secreta e privada, constituía uma “antibiblioteca”, nas palavras de Seiça [1].

Guardiã da memória - neste caso, traumática e intencionalmente marcada e amputada - e responsável por criar as condições para que, no futuro, a História não se repita, a Rede de Bibliotecas Escolares incentiva as bibliotecas escolares a associarem-se à iniciativa, desafiando crianças e jovens e suas comunidades a conhecer o contexto em que estes livros foram escritos e publicados, a ler excertos e a dar-lhes visibilidade, recriando-os com inteira liberdade.

Esta experiência, pessoal e subjetiva, de cada leitor pode gerar um movimento global anticensura, de libertação e aprofundamento da imaginação e do pensamento destinado a celebrar a liberdade de opinião/ expressão e o fim de todas as censuras. 

À data da Revolução do 25 de Abril, os jovens tiveram um papel muito ativo na contestação da ditadura e da repressão, como é o caso do estudante universitário Ribeiro Santos assassinado pela PIDE [7].

Ao longo da História, foram diversos os objetos de censura. Por exemplo, na Idade Média o riso chegou a ser proibido, conforme experiencia frei William Baskerville, no romance de Umberto Eco, O nome da rosa. Em tom humorístico, concluímos o desafio anticensura lembrando Guerra Junqueiro que no poema proibido “Pedro Soriano” declara, ‘Tamanho membro merece um poema” [8].

Para mais informações e sugestões de atividades, aceda ao Portal RBE: Biblioteca da censura.

Referências

1. Seiça, Álvaro. (2022, 25 abr.). Biblioteca da Censura: a devolução ao público. Lisboa: Público. https://www.publico.pt/2022/04/25/edicoes-publico/noticia/biblioteca-censura-devolucao-publico-2003734

2. Biblioteca Nacional de Portugal. (2022). Obras proibidas e censuradas no Estado Novo: Guia da exposição. Lisboa: BNP. https://www.bnportugal.gov.pt/images/stories/agenda/2022/obras_proibidas_guia.pdf

3. Lourenço, Eduardo. (1978). O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português [p.31]. Lisboa: D. Quixote. https://www.livrariaferreira.pt/livro/labirinto-da-saudade/

4. Sousa, João. A Bela e o Monstro. https://www.facebook.com/ABelaeoMonstroEdicoes

5. Nacional de Portugal. Coleção Biblioteca da Censura. Lisboa: BNP. https://www.bnportugal.gov.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1688%3Aapresentacao-colecao-biblioteca-da-censura-4-de-maio-18h00&catid=173%3A2022&Itemid=1686&lang=pt

6. Biblioteca Nacional de Portugal. (2022). Obras proibidas e censuradas no Estado Novo. Lisboa: BNP. https://www.bnportugal.gov.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1682%3Aexposicao--biblioteca-da-censura-obras-apreendidas-e-proibidas-no-estado-novo--3-maio-3-set&catid=173%3A2022&Itemid=1680&lang=pt

7. Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril. (2022). Ribeiro Santos. Portugal: CC. https://www.50anos25abril.pt/iniciativas/primaveras-estudantis/ribeiro-santos

8. Segundo o Guia da Exposição Biblioteca da Censura, a Biblioteca Nacional de Portugal antes do Estado Novo tinha obras classificadas como Obras Proibidas, com a cota O.P., que incluíam livros que não faziam parte do catálogo geral de acesso ao público, nem podiam ser levadas para a Sala de Leitura. Algumas dessas obras não faziam parte do inventário dos Serviços da Censura, como é caso do poema “Pedro Soriano”:

“Pedro Soriano foi o herói de um casamento simulado que houve em Lisboa. Tinha o membro viril desenvolvidíssimo. Uns amigos de Junqueiro encarregaram-se de lhe apresentar o Soriano porque, tendo contado a Junqueiro a do membro, ele dissera que exageravam. Junqueiro viu e exclamou: ‘Tamanho membro merece um poema’”.

Junqueiro, Guerra. (1882). Pedro Soriano. Lisboa: Tipografia José F. Ferreira, in: Livraria Alfarrabista Manuel Ferreira. https://www.livrariaferreira.pt/livro/pedro-soriano/

Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil: a força da cooperação

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Em dezembro de 1996 abria ao público a Biblioteca Municipal de Arganil. Por feliz coincidência tinha início nesse mesmo ano a Rede de Bibliotecas Escolares. Neste caso a Biblioteca Pública e a Biblioteca Escolar nasceram e cresceram lado a lado.

Um longo caminho percorrido, não livre de obstáculos, onde o futuro, orientado por objetivos bem definidos, se continua a construir diariamente.

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As onze Bibliotecas que servem os Munícipes do Concelho de Arganil são consequência do trabalho desenvolvido, que começou com a assinatura dos Protocolos de Parceria que conduziram à construção dos Grupos de Trabalho, a criação da Rede Informática, o Catálogo Concelhio, o Portal Concelhio, o Cartão Único para a Rede Concelhia com uma Base única de Leitores; etapas extraordinárias na otimização dos recursos disponíveis e um persistente e constante esforço de organização no sentido de chegar a todos, sem exceção.

Ao longo dos anos a Biblioteca Municipal de Arganil e a Biblioteca Alberto Martins de Carvalho têm-se empenhado em, mais de que apenas facilitar o acesso aos suportes de leitura, assumir um papel ativo e interventor no sentido de criar competências de acesso à informação, promover a inclusão social e contribuir para o desenvolvimento das diversas formas de literacia. Diversos são os programas de leitura continuados que temos desenvolvido e cuja continuidade almejamos. Programas que vão muito além do espaço físico da Biblioteca e que nos levam a percorrer todo a área do concelho de Arganil. São exemplos o Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares (SABE), o projeto “Leitura das Memórias”, a iniciativa “Nascer a Ler” e as sessões de Literacia Digital.

Embora Bibliotecas Municipais e Bibliotecas Escolares sejam de diferentes tipologias, o trabalho que as mesmas desenvolvem, no nosso entender, deve andar de mãos dadas, daí a importância das parcerias e do consequente trabalho conjunto. Por um lado, porque nos permite ir mais longe e por outro, porque queremos utilizadores que façam das bibliotecas algo que os acompanhe ao longo de toda a sua vida.

Consciente do poder das sinergias, as Bibliotecas Públicas de Arganil têm desenvolvido um trabalho de proximidade com as Bibliotecas Escolares desde a sua génese, através do SABE. Este serviço foi formalizado em janeiro de 2006 e tem como objetivo acompanhar e apoiar as Bibliotecas Escolares do Concelho de forma a contribuir para o seu desenvolvimento e rentabilização em várias áreas. Para além do apoio técnico a nível do tratamento documental e organização das bibliotecas, dos concursos de leitura e da formação de utilizadores, estão em funcionamento dois serviços de leitura: “Pais e filhos: livros e ternura” e “Ler e partilhar, viver e aprender” . O primeiro destinado às crianças que frequentam o Pré-escolar e o 1º ano e, o segundo destinado às crianças que frequentam o 2º, 3º e 4º ano de escolaridade.

As crianças recebem as técnicas com entusiasmo e alegria no rosto. Vivendo e explorando com estas todos os tesouros que os livros e demais suportes de leitura contêm, partilhando experiências leitoras e levando consigo livros para casa, para em família explorar.

Um trabalho exigente, mas gratificante! É com satisfação que recebemos as visitas destas “crianças”, agora adolescentes e adultos na Biblioteca Pública quando transitam para outros ciclos de escolaridade. Vêm à Biblioteca “matar” saudades, conversar, partilhar! Uma transição que nos permite continuar a fomentar e a contribuir para o desenvolvimento dos seus hábitos de leitura e demais competências que permitam a estes cidadãos exercer os seus direitos democráticos e ter um papel ativo na sociedade, indo assim ao encontro do que preconiza o Manifesto da IFLA/ UNESCO sobre as Bibliotecas Públicas.

Os laços que se criam através destes programas não se quebram e são alento para continuarmos a desenvolver o nosso trabalho em prol das crianças, desde a mais tenra idade e da população em geral. Porque as Bibliotecas são casas para toda a vida, onde cabe toda a gente!

 

Miriella de Vocht

Coordenadora da Biblioteca Municipal de Arganil

Transformar a educação – dar voz às ideias

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As paredes de uma escola servem para dar conforto, segurança e proteção do frio e do calor, da chuva e do sol, possibilitar a organização de grupos, as condições para o desenvolvimento de atividades, …, garantir o trabalho do dia a dia de milhares de crianças e jovens em constante crescimento.

Mas uma escola é muito mais do que as suas paredes, muito mais do que os seus espaços. É um sem fim de conexões, de partilhas, de interações, um infinito mundo de ideias, de socialização diária, de crescimento em cidadania ativa. Um lugar fantástico de aprendizagens, de criatividade e inovação, um grande projeto de formação!

No centro deste projeto está cada criança, cada aluno. À sua volta, gira uma família que anseia o melhor para cada um. À sua volta, giram programas e projetos dinamizados por professores que dedicam parte da sua vida a uma missão, esta de formar pessoas, de as fazer crescer harmoniosamente, de as incentivar, de as ensinar, de promover efetivas aprendizagens, de as integrar, incluir, capacitar. À sua volta, gira um sem fim de relações sociais, grupos de amigos, grupos desportivos, colegas de turma, … À sua volta, gira o mundo, a um clique, de acesso livre e fácil.

É este o centro do debate, no qual queremos envolver os pais/ encarregados de educação:

Estaremos todos a projetar um caminho, garantindo a cada aluno, a cada criança, um percurso sólido, que desenvolva, em cada um, as capacidades e as competências necessárias para fazer escolhas na vida? Que tenham iniciativa, que saibam dizer «não» quando assim tem de ser? Que tornem a sua vida num processo de constante aprendizagem?

No âmbito da Autonomia e Flexibilidade Curricular, desenvolvemos diversas sessões dando Voz aos Alunos.  

Aproveitando ainda o facto de, no 75.º aniversário das Nações Unidas, o Secretário-Geral António Guterres ter convocado uma Cimeira da Educação Transformadora (Transforming Education Summit – TES), de imediato aderimos à iniciativa, da Rede de Bibliotecas Escolares, Transformar a Educação: Dá a voz às tuas ideias, com a atividade Reimaginar a Escola.

Desde os mais pequeninos aos finalistas, ajustada a cada faixa etária, a participação de todos tem surtido efeitos. Efeitos individuais, levando ao desenvolvimento de competências de cidadania e participação, percebendo que há espaços próprios para defender cada causa; efeitos coletivos, de abertura ao debate, percebendo diferentes olhares, pontos de vista, defendendo-os com convincente argumentação. Foi já ensaiada a Voz aos Professores, aos Assistentes Operacionais, atividade a repetir, a consolidar.

Precisamos agora da Voz dos Pais/Encarregados de Educação, com esta intencionalidade, esta vontade de cruzar diferentes olhares, diferentes formas de encarar a escola e contribuir para bem construir (desconstruindo por vezes) este lugar cada vez mais heterogéneo, cada vez mais rico na diferença.

Assim, estão convidados todos os Representantes dos Pais/ Encarregados de Educação das Turmas/ Grupos do Agrupamento de escolas André Soares para as sessões a realizar no auditório Braga Simões, esta semana. No dia sete para os representantes dos alunos dos segundo e terceiro ciclos e no dia nove para os do primeiro ciclo e pré-escolar.

Se todos queremos o melhor para os nossos filhos, para os nossos alunos, não há razão nenhuma, absolutamente nenhuma, para adiarmos este debate de boas ideias.

Ideias para bem construir uma escola! Para construir uma boa escola!

Maria da Graça Moura
Diretora do AE André Soares, Braga

 

Nota: Este artigo foi publicado originalmente no Correio do Minho, 07.11.2022 e republicado com a devida autorização da autora.

Liberdade na Internet 2022

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A Freedom House é uma organização norte-americana, sem fins lucrativos e não partidária, que pretende informar sobre ameaças à liberdade, mobilizar para a ação global e apoiar os defensores da democracia.

Esta organização produz pesquisas e relatórios sobre uma série de questões temáticas centrais relacionadas com a democracia, os direitos políticos e as liberdades civis, sendo a principal publicação desta organização Freedom in the World, que faz a avaliação comparativa de definição de padrões de direitos políticos globais e liberdades civis.

No entanto, também produz vários relatórios anuais, incluindo Freedom on the Net, um estudo anual que analisa a liberdade na Internet em todo o mundo. Este relatório apresenta uma avaliação classificada, país por país, da liberdade em linha, uma visão global dos últimos desenvolvimentos, bem como relatórios aprofundados por país.

No dia 18 de outubro de 2022, foi publicado o relatório Freedom on the Net 2022 [1], que constata que as condições se deterioraram em 28 países, enquanto 26 países experimentaram progressos.

As conclusões gerais do relatório mostram que a liberdade global na Internet diminuiu pelo 12º ano consecutivo, à medida que mais governos levantaram barreiras digitais concebidas para censurar a dissidência e monitorizar os utilizadores. O estudo conclui que mais de três quartos dos utilizadores mundiais da Internet vivem agora em países onde as autoridades punem as pessoas por exercerem o seu direito à liberdade de expressão em linha.

As principais conclusões deste relatório são as seguintes:

- A liberdade global na internet caiu pelo 12º ano consecutivo.
As quedas mais acentuadas foram documentadas na Rússia, Mianmar, Sudão e Líbia. Após a invasão da Ucrânia pelos militares russos, o Kremlin intensificou os seus esforços contínuos para suprimir a dissidência doméstica e acelerou o encerramento ou o exílio dos meios de comunicação independentes do país. Em pelo menos 53 países, os utilizadores enfrentaram repercussões legais por se expressarem online, muitas vezes levando a penas de prisão dramáticas.

- Os governos estão a dividir a internet global para criar espaços online mais controláveis.
Um número recorde de governos nacionais bloqueou sítios com conteúdo político, social ou religioso não violento, minando os direitos de liberdade de expressão e acesso à informação.
A maioria desses bloqueios visava fontes localizadas fora do país. Novas leis nacionais representaram uma ameaça adicional à livre circulação de informações, centralizando a infraestrutura técnica e aplicando uma regulamentação deficiente às plataformas de redes sociais e à gestão dos dados dos utilizadores.

- A China foi o pior ambiente do mundo para a liberdade na internet pelo oitavo ano consecutivo.
A censura intensificou-se durante as Olimpíadas de Pequim 2022 e desde que o tenista Peng Shuai acusou um alto funcionário do Partido Comunista Chinês (PCC) de agressão sexual. O governo continuou a reforçar seu controle sobre o crescente setor de tecnologia do país, inclusivamente através de novas regras que exigem que as plataformas usem seus sistemas algorítmicos para promover a ideologia do PCC.

- Um recorde de 26 países experimentou melhorias na liberdade na Internet.
Apesar do declínio global geral, as organizações da sociedade civil em muitos países têm conduzido esforços colaborativos para melhorar a legislação, desenvolver a resiliência dos media e garantir a responsabilidade entre as empresas de tecnologia. Ações coletivas bem-sucedidas contra o desligamento da Internet ofereceram um modelo para mais progresso em outros problemas, como spyware comercial.

- A liberdade na Internet nos Estados Unidos melhorou ligeiramente pela primeira vez em seis anos.
Houve menos casos relatados de vigilância direcionada e assédio em linha durante protestos, em comparação com o ano anterior, e o país agora ocupa o nono lugar globalmente, empatado com Austrália e França.
Os Estados Unidos ainda carecem de uma lei federal de privacidade abrangente, e os formuladores de políticas fizeram pouco progresso na aprovação de legislação relacionada com a liberdade na internet. Antes das eleições de meio de mandato de novembro de 2022, o ambiente online estava repleto de desinformação política, teorias da conspiração e assédio online direcionado a a trabalhadores e responsáveis eleitorais.

- Os direitos humanos estão em risco, face à competição pelo controlo da web.
Estados autoritários estão a lutar para propagarem o seu modelo de controlo digital pelo mundo. Em resposta, uma coligação de governos democráticos aumentou a promoção dos direitos humanos em linha em fóruns multilaterais, delineando uma visão positiva para a Internet. No entanto, o seu progresso continua a ser dificultado por práticas problemáticas de liberdade na Internet nos seus próprios países.

 

Referências

[1] Freedom House (2022) Freedom on the Net 2022. https://freedomhouse.org/report/freedom-net/2022/countering-authoritarian-overhaul-internet

Fonte da imagem: https://freedomhouse.org/report/freedom-net/2022/countering-authoritarian-overhaul-internet

Uma boa solução!

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A biblioteca da Escola Básica de Grândola nunca teve apoio de nenhuma assistente que pudesse assegurar o período de almoço, o que obrigava ao seu encerramento não só nesta altura, mas também quando a professora bibliotecária precisava de se deslocar aos jardins de infância.

Em conversa com a Biblioteca Municipal de Grândola e porque a sua responsável conhecia o dilema com que nos debatíamos, foi proposto à Câmara Municipal, a mobilidade de uma assistente técnica do quadro da Câmara Municipal, com perfil adequado, que pudesse não só assegurar os intervalos e as horas de almoço, mas também fazer a catalogação dos documentos que davam entrada na biblioteca, permitindo assim que esta se mantivesse sempre em funcionamento, mesmo quando a professora bibliotecária estivesse em serviço externo.

A assistente, por seu lado, já tinha informado os serviços que estaria disponível para trabalhar com a biblioteca escolar do AE de Grândola, em mobilidade interna.

Deste modo, desde Abril de 2020, contamos com este valioso apoio.

Assim, para procurar resolver a falta de assistente de biblioteca, nada melhor do que contactar com as autarquias e tentar saber se existem pessoas que gostassem de trabalhar nas bibliotecas escolares.

Maria José Lousa
Professora Bibliotecária
AE de Grândola

COP27 – Compromisso com as pessoas e o planeta

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De 6 a 18 de novembro, Chefes de Estado, ministros e negociadores, juntamente com ativistas do clima, presidentes de câmara, representantes da sociedade civil e CEO, reúnem-se na cidade costeira egípcia de Sharm el-Sheikh para o maior encontro anual sobre ação climática, a conferência COP27.

Desde 1994, quando entrou em vigor a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas [1], todos os anos a ONU tem reunido quase todos os países do planeta para conferências climáticas globais ou “COP”, que significa “Conference of Parts” (Conferência das partes).

A conferência de 2021

A COP26, em 2021, marcou cinco anos desde a assinatura do Acordo de Paris [2] e culminou no Pacto do Clima de Glasgow, que manteve a meta de conter o aquecimento global a 1,5 º C. Nesta conferência, foram feitos avanços para tornar o Acordo de Paris totalmente operacional, apresentando-se os detalhes para sua implementação prática, num documento também conhecido como Livro de Regras de Paris.

Também durante a COP26, os países concordaram em entregar compromissos mais fortes em 2022, incluindo planos nacionais atualizados com metas mais ambiciosas. No entanto, apenas 23 dos 193 países apresentaram, até agora, os seus planos à ONU.

Em Glasgow também houve muitas promessas, feitas dentro e fora das salas de negociação, em relação a compromissos para reduzir emissões, proteger florestas e financiar as questões climáticas, entre muitas outras questões.

A COP27

Esta 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas - COP27 - basear-se-á nos resultados da COP26 para levar a cabo ações sobre uma série de questões críticas para enfrentar a emergência climática - desde a redução urgente das emissões de gases com efeito de estufa, à construção de resiliência e à adaptação aos impactos inevitáveis das alterações climáticas, até ao cumprimento dos compromissos de financiamento da ação climática nos países em desenvolvimento.

Confrontando-nos com uma crise energética crescente, concentrações recorde de gases com efeito de estufa e o aumento de fenómenos climáticos extremos, a COP27 procura renovar a solidariedade entre países, para cumprir o Acordo de Paris.

O mundo deve empenhar-se e proteger as pessoas e as comunidades dos riscos imediatos e sempre crescentes da emergência climática. Não temos tempo a perder.
ANTÓNIO GUTERRES, Secretário-Geral das Nações Unidas, 3 de novembro de 2022.

O que esperar da COP27?

Na sua mensagem de boas-vindas, o Presidente da República Árabe do Egito, Abdel Fattah El Sisi, diz acreditar profundamente que a COP27 é uma oportunidade de mostrar a unidade contra uma ameaça existencial que só podemos superar por meio de ação concertada e implementação efetiva. Acrescenta, que, enquanto presidente da COP27, o Egito não poupará esforços para garantir que esta se torne o momento em que o mundo passou da negociação à implementação e em que as palavras foram traduzidas em ações, e em que nós, coletivamente, enveredámos por um caminho rumo à sustentabilidade, uma transição justa e, eventualmente, um futuro mais verde para as gerações vindouras.

O vice-presidente da Fundação das Nações Unidas para Clima e Meio Ambiente, Pete Ogden, partilha sua opinião sobre as principais questões a serem trabalhadas durante esta a conferência:

  • Estamos à procura de sinais de vontade política credível mesmo numa conjuntura de tanta turbulência geopolítica. Os países têm de permanecer focados no objetivo e compreender que a transição para a energia limpa é o seu caminho para o outro lado.

  • Há um enorme ponto de interrogação em relação ao que a China está preparada para fazer e à forma como demonstrará o seu empenho em tomar as medidas necessárias para alcançar o objetivo de 1,5°C.

  • Prestar-se-á grande atenção à cimeira do G20 (a decorrer em simultâneo na Indonésia) para ver se os seus líderes conseguem demonstrar que compreendem, e estão preparados para enfrentar, a emergência climática que está a alimentar tantas das crises globais imediatas com que se irão debater no G20.

  • Queremos saber como é que as economias desenvolvidas vão cumprir os seus compromissos financeiros já assumidos, assim como o que ainda têm de fazer.

  • Debater-se-á se e como é que as economias desenvolvidas irão abordar os custos que estão a ser enfrentados pelas economias em desenvolvimento, relacionados, por exemplo, com a necessidade de reconstruir a partir de catástrofes naturais alimentadas pelo clima ou de se deslocalizar devido à subida do nível do mar.

  • Terá grande atenção a necessidade de financiar e aumentar o investimento em medidas de adaptação em países de todo o mundo.

Cada ano é uma corrida entre os esforços globais sem precedentes para descarbonizar e reduzir as nossas emissões de gases com efeito de estufa, e a acumulação incessante de emissões que estão a causar cada vez mais sofrimento às pessoas em todo o mundo.
Pete Ogden
Vice-presidente para o clima e o ambiente, Fundação das Nações Unidas

Veja também

Referências

[1] United Nations Organisation. (s. d.) What is the United Nations Framework Convention on Climate Change? https://unfccc.int/process-and-meetings/what-is-the-united-nations-framework-convention-on-climate-change

[2] United Nations Organisation. (s.d.) The Paris Agreement. https://www.un.org/en/climatechange/paris-agreement

Bibliografia

  1. United Nations Organisation. (s.d.) Delivering for people and the planet. https://www.un.org/en/climatechange/cop27

  2. Hodgkins, M. (2022, 31 de outubro). COP27 Q&A: Global impacts & expected climate outcomes. Blog series. https://unfoundation.org/blog/post/cop-27-qa-global-impacts-expected-climate-outcomes/

  3. Nações Unidas Brasil. (2022, 2 de novembro). COP27: o que você precisa saber sobre a Conferência do Clima da ONU. https://brasil.un.org/pt-br/205789-cop27-o-que-voce-precisa-saber-sobre-conferencia-do-clima-da-onu

  4. El-Sisi, A. Welcome Message: From President Abdel Fattah El-Sisi. https://cop27.eg/#/speeches/president-speech

Fonte da imagem : United Nations Organisation. (s.d.) Delivering for people and the planet. https://www.un.org/en/climatechange/cop27

Uma professora bibliotecária pelo olhar crítico da Guidinha [1]

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Para quem não me conhece eu sou a Guidinha uma “filha” do escritor Luís de Sttau Monteiro e gosto de escrever redações embora muitos me critiquem e digam que eu devia parar de escrever porque não sei usar a pontuação e escrevo tudo de rajada e isso é um mau exemplo mas isso não importa nada o que importa são as ideias que me atacam a cabeça e eu tenho de despachá-las de lá para fora e mais a mais o senhor José Saramago também não sabia pontuar e ganhou um Prémio Nobel olarila! e isso é o que importa e o que também importa é o que me fez escrever esta crónica pois o livro onde vivo está em casa de uma professora bibliotecária com a mania dos livros e tem o meu sempre em cima da secretária onde trabalha e eu não quero ser má-língua mas essa secretária está cheia de tralha que segundo ela é o seu material de trabalho pois tem de trabalhar muito em casa uma vez que nas escolas por onde passa é lidar lidar lidar de BE em BE e tem de planear tudo em casa para depois pôr em prática nas escolas então ele é papéis, ele é PC com email Teams redes sociais e não sei quantas plataformas e ferramentas digitais que ela domina, ele é telemóvel, ele é agenda, ele é livros, ele é bonecos e materiais que ela constrói para aquilo que ela chama a hora do conto e é uma canseira para mim ver aquilo tudo e eu lá no meio a observar tanta azáfama parece que a mulher não sabe fazer mais nada na vida, sempre a inventar, sempre a mandar emails e a conversar ao telemóvel ou no Teams ora com colegas ora com alunos que ela não dá descanso a ninguém é vê-la com a desculpa que precisa de conquistar leitores e de envolver os parceiros e de construir o PAA incluindo atividades do PEM e de dar resposta aos desafios da RBE do PNL da DGE e ainda tem de ir às reuniões dos departamentos e do CP e do PADDE e depois passa a vida a fazer projetos e a incentivar toda a gente para participar nos concursos ela diz que é um orgulho ganhar e isso dá pilim ah pois o pilim é muito importante para que as bibliotecas se mantenham ativas sem pilim não se faz nada mas sem empenho também não e ela tem tanto empenho que já teve um incêndio na cozinha quando decidiu fritar batatas e fazer um relatório ao mesmo tempo e foi por isso que comprou um robô daqueles que fazem tudo para ela ir à vida dela e nunca mais fritou batatas que é uma coisa muito perigosa para a educação e apesar disto tudo é um gosto vê-la trabalhar com tanto gosto e só não gosto quando ela bufa que nem um gato assanhado quando tem o MABE à frente dela e quando tem de preencher BD e de fazer PM seja lá o que isso for mas mesmo assim ela já vai nos 60+ e vê a aposentação a chegar e já está a antever um voluntariado numa biblioteca perto de si

PS da PB vítima da má-língua da Guidinha: não assumo qualquer responsabilidade pelas palavras da Guidinha, uma desbocada incontrolável!

Ana Paula Dias de Pinho Oliveira (professora bibliotecária)
Agrupamento de Escolas João da Silva Correia
Escola Secundária João da Silva Correia

 

NOTAS:

[1] Se não conhecer a Guidinha, esta poderá ser-lhe apresentada no artigo: Ribeiro. F (2006, 18 de dezembro). As redacções da Guidinha. https://amateriadotempo.blogspot.com/2006/12/as-redaces-da-guidinha.html

[2] Para quem ficou baralhado com as siglas:

BE – Biblioteca Escolar
PAA – Plano Anual de Atividades
PEM – Plano Educativo Municipal
RBE – Rede de Bibliotecas Escolares
PNL – Plano Nacional de Leitura
DGE – Direção-Geral de Educação
CP – Conselho Pedagógico
PADDE – Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital da Escola
MABE – Modelo de Avaliação da Biblioteca Escolar
BD – Base de Dados
PM – Plano de Melhoria

 

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1. *Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.

2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.

3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

Dia Mundial da preservação digital

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O Dia Mundial da Preservação Digital (DMPD) celebra-se na primeira quinta-feira de cada novembro, pelo que este ano a celebração ocorre hoje, 3 de novembro de 2022.

Organizado pela Digital Preservation Coalition (DPC) (https://www.dpconline.org/events/world-digital-preservation-day) e apoiado por redes de preservação digital em todo o mundo, o Dia Mundial da Preservação Digital pretende criar uma maior consciência da importância da preservação digital, que se traduzirá numa compreensão mais ampla que beneficiará todas as vertentes da sociedade – formulação de políticas, boas práticas pessoais, negócios, etc.

Podemos definir preservação digital como a gestão ativa do conteúdo digital tendo em vista garantir o acesso e a autenticidade dos documentos digitais ao longo do tempo, independentemente da evolução dos suportes documentais e das mudanças tecnológicas.

A fragilidade estrutural da informação digital constitui hoje um dos maiores desafios a para os profissionais da informação e de tantas outras áreas. A preservação digital está profundamente ancorada nas tecnologias atuais que permitem o acesso e o consumo digital de conteúdos a longo prazo, mas também no trabalho de conservação tradicionalmente realizado em bibliotecas, arquivos, museus e noutras instituições culturais.

A preservação é desde há muito um valor central da biblioteconomia, sendo que as bibliotecas têm uma vasta experiência em gestão de preservação no mundo analógico. Por exemplo, em 1991, a Associação Americana de Bibliotecas (ALA) adotou uma política de preservação, abrangendo tanto a preservação física como a digital, que afirma que "a preservação dos recursos de informação é crucial para as bibliotecas e para a biblioteconomia"[1]. Contudo, à medida que os conteúdos se deslocaram para o domínio digital, esta preocupação nem sempre esteve presente, dando-se maior atenção às questões de acesso do que à preservação propriamente dita. Isto mesmo é confirmado por um relatório conjunto de 2002 do Online Computer Library Center (OCLC) e do Research Libraries Group (RLG) sobre preservação digital que afirma que "muitas vezes, aqueles que criam materiais digitais ou concebem os sistemas de gestão de conteúdos digitais não se interessam muito pela sua preservação longo prazo "[2].

Vinte anos depois, embora a maioria dos profissionais da informação reconheça hoje a importância da preservação digital, muitas bibliotecas e outras organizações culturais estão ainda longe fazer disso uma prioridade.

Em Portugal, o panorama não é melhor, e apesar de algumas recomendações já publicadas (Recomendações para a produção de planos de preservação digital, DGLAB, 2019; Regulamento Nacional de Interoperabilidade Digital, Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2018), são raras as instituições que possuem um plano de preservação digital ou que estejam sequer conscientes da sua importância.

A Rede de Bibliotecas Escolares promove este ano um curso de formação sobre preservação digital, que se inicia precisamente hoje, Dia Mundial da Preservação Digital, que será primeiramente frequentado por coordenadores interconcelhios e posteriormente replicado por estes junto dos professores bibliotecários.

Esta ação de formação tem como objetivos promover a reflexão sobre a importância da preservação digital e dotar os profissionais da informação que trabalham nas bibliotecas escolares de instrumentos e estratégias que garantam o acesso e a autenticidade dos documentos digitais da sua coleção ao longo do tempo, independentemente da evolução dos suportes documentais e das mudanças tecnológicas.

 

[1] American Library Association (1991), “American Library Association Preservation Policy. http://www.ala.org/alcts/resources/preserv/91alaprespolicy . Consultado em 22 de outubro de 2022

[2] Research Libraries Group (2002), “Trusted Digital Repositories: Attributes and Responsibilities; An RLG-OCLC Report” (Mountain View, CA: Research Libraries Group, 2002). http://www.oclc.org/resources/research/activities/trustedrep/repositories.pdf. Consultado em 22 de outubro de 2022

 

 

Recursos bibliográficos sobre esta temática

ALMEIDA, A. C. L., & NASCIMENTO, G. B. (2011). Considerações sobre a preservação de documentos em formato digital. Biblionline, 7(2), pp. 22-27- Disponível em: http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/biblio/article/view/10422/6935

BORBINHA, J., Henriques, C., Serqueira, J., Lopes, B., (2002).“Manifesto para a Preservação Digital”, Cadernos BAD, Disponível em: http://www.bn.pt/agenda/ecpa/manifesto.html

FERREIRA, M. (2006). Introdução à preservação digital: conceitos, estratégias e actuais consensos. Escola de Engenharia da Universidade do Minho. Disponível em: https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5820/1/livro.pdf

LOPES, V. (2008). Preservação digital. Universidade do Minho. Disponível em: http://www.vitorlopes.com/Trabalhos/Preservacao_Digital-Vitor_Lopes.pdf

ROCHA, C. L., & SILVA, M. (2007). Padrões para Garantir a Preservação e o Acesso aos Documentos Digitais. Acervo, 20(1), pp. 113-124,. Disponível em: http://www.revistaacervo.an.gov.br/seer/index.php/info/article/view/142

SANTOS, H. M., & FLORES, D. (2018). A Obsolescência do Conhecimento em Preservação Digital. Ciência da Informação em Revista, 5(1), pp. 41-58. Disponível em: http://www.seer.ufal.br/index.php/cir/article/view/3337 

SANTOS, H. M., & FLORES, D. (2017a). Da preservação digital ao acesso à informação: uma breve revisão. Páginas a&b: arquivos e bibliotecas, pp. 16-30. Disponível em: http://ojs.letras.up.pt/index.php/paginasaeb/article/view/2836/2593

SANTOS, H. M., & FLORES, D. (2017b). Os impactos da obsolescência tecnológica frente à preservação de documentos digitais. Brazilian Journal of Information Science: Research Trends, 11(2), pp. 28-37. Disponível em: http://200.145.171.5/revistas/index.php/bjis/article/view/5550 

SANTOS, V. B. (2012). Preservação de documentos arquivísticos digitais. Ciência da Informação, 41(1), pp. 114-126. Disponível em: http://revista.ibict.br/ciinf/article/view/1357 

SARAMAGO, M. L. (2004). Metadados para preservação digital e aplicação do modelo OAIS. In Nas encruzilhadas da Informação e da Cultura: Actas do 8.º Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, Estoril, 12-14 mai. Disponível em: http://www.bad.pt/publicacoes/index.php/congressosbad/article/view/640

 

Fonte da imagem: https://www.dpconline.org/docs/miscellaneous/events/2022-events/wdpd2022/2653-wdpd-2022-portuguese-portrait-rgb-1

Porque é que devemos ler jornais nas escolas?

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A leitura da imprensa ajuda-nos a ampliar conhecimento, a acompanhar o que está a acontecer no mundo, a formar a nossa própria opinião sobre os assuntos e, consequentemente, a contribuir para a construção de um espaço público.

Ler jornais nas escolas permite que se traga o mundo para dentro destas instituições, onde milhares de crianças e jovens crescem, aprendem e se educam. Facultar-lhes o contacto regular com a leitura do texto jornalístico, na biblioteca ou na sala de aula, tem, portanto, várias vantagens.

Em primeiro lugar, na miríade de informações que circulam nas redes sociais, mais ou menos de forma caótica, as notícias dos jornais representam uma busca pela informação, interpretação e transmissão verdadeira dos acontecimentos, sempre contextualizados. Os jornalistas, profissionais da informação, regem-se por princípios universais de rigor e de independência e os seus textos são, por isso, credíveis e uma fonte fiável de informação, que vale a pena explorar.

Em segundo lugar, porque são diversos, os jornais representam pontos de vista e abordagens sobre o mundo diferentes, permitindo o debate e o confronto de ideias, o que contribui para a análise, avaliação e tomada de posição perante os assuntos. Através dos diferentes tipos de texto, os jornais ajudam a mediar a informação que chega aos cidadãos, contribuindo para a manutenção da democracia na sociedade e para uma cidadania ativa. Nas escolas, podem ser potenciados para dar voz aos alunos.

Por fim, os jornais podem ser rentabilizados em praticamente todas as disciplinas, uma vez que os assuntos se cruzam com diferentes conteúdos programáticos. O envolvimento dos alunos em atividades de leitura e de escrita relacionadas com os jornais permite, além do contacto com assuntos diversificados, o desenvolvimento de competências de compreensão escrita e de expressão escrita e oral.

Eis cinco formas de envolver os alunos na leitura de jornais:

 

1. Isto também é comigo! – Dê voz aos alunos

Isto também é comigo! é uma iniciativa da Rede de Bibliotecas Escolares e do jornal PÚBLICO, dirigida aos alunos do ensino secundário, que tem como objetivo promover a leitura de textos jornalísticos do agrado dos alunos e a escrita de um texto de opinião, com 350 palavras, sobre o texto selecionado.

- Os alunos podem concorrer todos os meses, submetendo os textos até à última sexta-feira de cada mês.

- O texto de opinião vencedor é publicado na última sexta-feira do mês seguinte no portal da Rede de Bibliotecas Escolares e no site do Público na escola.

 

2. O que é que aconteceu hoje no mundo?

Esta atividade pode ser desenvolvida de várias formas e com alunos de diferentes níveis de ensino. Experimente esta:

- Distribua um jornal por cada grupo de 2/3 alunos.

- Estabeleça um limite de tempo e peça aos alunos para fazerem uma leitura rápida de um determinado número de notícias do jornal.

- Quando o tempo tiver terminado, peça a cada grupo de alunos para se juntar a outro. Os alunos de cada grupo reportam aos outros todas as notícias de que se lembram, sem olharem para o jornal.

 

3. Promova um debate

Os debates são uma ótima estratégia para aprofundar o pensamento crítico e desenvolver as competências de comunicação. Ao selecionar um texto de um jornal como ponto de partida para um debate, tenha em conta o nível dos alunos e verifique se o assunto lhes diz respeito. Prepare o debate:

- Faça perguntas abertas como «O que é que acham de…?» ou «Como é que acham que as pessoas se sentem …?»

- Confronte os alunos com textos que veiculam pontos de vista diferentes, levando-os a encontrar evidências diversas que sustentem e alarguem os seus pontos de vista e os «façam sair da sua bolha». Uma estratégia pode ser a de lhes pedir para indicarem aspetos positivos e negativos sobre o tópico em discussão.

- Encontre uma forma colaborativa de chegarem a uma solução depois da discussão, incorporando o maior número possível de ideias.

 

4. Organize um concurso

Para organizar este concurso na biblioteca ou na sala de aula, precisa de vários exemplares do mesmo jornal.

- Distribua um exemplar do jornal e várias folhas de papel por cada grupo de 4/5 alunos.

- Cada grupo fica responsável pela leitura de uma determinada secção/ texto e pela elaboração de um questionário com seis perguntas sobre o texto lido. Sugira algumas perguntas: Há quanto tempo…? Onde fica…? Quantas pessoas…? Quem…? Quem ganhou…? Quanto pagou/custou…?

- Depois de terminada esta tarefa, cada grupo passa as perguntas a outro grupo. Para lhes responder, o grupo que recebe as perguntas precisa de ler a secção/ o texto indicado pelo grupo que fez as perguntas.

- Cada grupo deve responder às perguntas feitas, pelo menos, por dois grupos. As respostas são dadas em folhas de papel diferentes. Estabeleça um tempo limite para os grupos responderem ao questionário.

- O grupo que elaborou o questionário corrige as respostas dos outros.

- Ganha o grupo que acertar mais perguntas.

 

5. Jornais nas aulas de Matemática? Porque não?

Os jornais também podem ser utilizados nas aulas de Matemática. Com certeza, já pensou em várias atividades que pode fazer. Experimente mais esta sugestão. Utilize as páginas dos anúncios de um jornal para:

- Calcular o preço médio de um determinado produto;

- Descobrir que fração do jornal é composta por anúncios;

- Calcular o custo de um anúncio de 30 palavras durante uma semana;

- Estimar o número total de anúncios classificados (com base em anúncios por coluna e colunas por página);

- Descobrir que percentagem de vagas de emprego começam com a letra X. No seguimento desta atividade, pode pedir a cada aluno que crie um anúncio classificado e o troque com um colega de turma. Os alunos devem verificar se incluíram todas as informações necessárias.

 

Referências

1. Clandfield, L. & Foord, D. (2011). Teaching materials: using newspapers in the classroom. Macmillan Publishers. http://www.onestopenglish.com/methodology/methodology/teaching-materials/teaching-materials-using-newspapers-in-the-classroom-1/146510.article

2. Education World. (n.d.) Ten great activities: Teaching with the newspaper. https://www.educationworld.com/a_lesson/ten-great-activities-teaching-with-the-newspaper.shtml

3. First News Education. (2019). A teachers guide on hw to run debates in the classroom. Acedido em 27 de outubro de 2022 em https://schools.firstnews.co.uk/blog/debating/a-teachers-guide-on-how-to-run-debates-in-the-classroom/

4. Rede de Bibliotecas Escolares e Público na escola. (2022). Isto também é comigo!: regras de participação. https://www.rbe.mec.pt/np4/PnE-itec.html

Vozes que decidem!

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Ao longo de 19 anos, a Biblioteca Escolar (BE) do Agrupamento de Escolas de Vidigueira tem desenvolvido um processo em contínuo crescendo tornando-se, hoje em dia, um núcleo ativo no cumprimento das metas e na difusão dos valores do Projeto Educativo.

De entre os múltiplos serviços que presta, tendo em vista o desenvolvimento integral dos nossos alunos, a BE incrementa programas em sala de aula que trabalham a formação de leitores, a literacia da escrita e da informação, proporcionando uma aprendizagem que contempla os diferentes ritmos das crianças e jovens.

Todas as valências da BE (disponibilização de recursos e programas pedagógicos, prestação de serviços, online e offline), desenvolvidas pela sua equipa e/ou em cooperação com outros docentes, conferem-lhe centralidade e um papel ativo nos projetos estruturantes do Agrupamento.

Realçamos a colaboração desenvolvida com a Biblioteca Municipal, que tem como objetivo criar uma rede concelhia de leitura. Neste âmbito, pelo impacto na comunidade e número de pessoas envolvidas, destacamos os projetos: Versos Entrelaçados/ Concurso de poesia, Chá poético, Semana da Leitura, com a participação de vários escritores, ilustradores e outros agentes difusores da leitura e escrita, Um conto por mês, Contos viajantes, Leituras de vez em quando.

O trabalho da BE de Vidigueira também tem tido reconhecimento a nível nacional a partir dos projetos Planificar para gerir, gerir, gerir para inovar; Para lá dos exames; e Escritas em dia, todos eles, Ideias de Mérito, e do projeto Juntos.com que recentemente foi destacado pelo PNL e pela RBE.

A missão da Biblioteca Escolar, encarada como verdadeiro centro de aprendizagem, tem contribuído para veicular os valores defendidos pelo Agrupamento, melhorando a relação que os alunos estabelecem com a informação, dotando-os com competências que lhes permitam ser cidadãos autónomos e críticos.

Isabel Contente
Diretora do Agrupamento de Escolas da Vidigueira

 

UNESCO: Semana Global MIL 2022

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Propósito

A Semana Mundial da Literacia Mediática e da Informação (Global Media and Information Literacy [MIL] Week) [1], promovida anualmente pela UNESCO, é uma ocasião importante para reafirmar e aumentar o compromisso MIL para todos e aprofundar a compreensão e dar visibilidade ao seu papel no restabelecimento da confiança, da proteção social e da solidariedade, designadamente na governação e media.

Permite ainda destacar progressos alcançados, obter resultados mensuráveis e expandir este setor da educação a partir de novas iniciativas.

 

Tema(s)

Em 2022 as comemorações têm por tema "Alimentando a Confiança: Um Imperativo da Literacia Mediática e da Informação" e são organizadas por Abuja, capital da Nigéria.

De acordo com a sua Nota Concetual [2], a Semana Global MIL reúne atividades no âmbito de 7 subtemas:

1. MIL alimenta a confiança, a proteção social e a solidariedade coletiva;

2. Acelerar o acesso à MIL em paralelo com o acelerar da conectividade digital universal;

3. MIL é componente-chave para exercício dos direitos humanos fundamentais;

4. Popularizar os padrões globais MIL popularizados pela UNESCO, designadamente a partir dos seguintes recursos:

Media and Information Literate Citizens: Think Critically, Click Wisely/ Cidadãos Literatos de Media e Informação: Pense Criticamente, Clique com Sabedoria [3];

Addressing conspiracy theories: what should educators know/ Abordando teorias da conspiração: o que devem saber os educadores [4];

5. Desenvolver formas inovadoras de diminuir desigualdades no acesso aos meios de comunicação e informação;

6. Parcerias e financiamento para promover a literacia em todos os níveis da sociedade;

7. Desenvolver a política MIL, a nível nacional e regional, “para assegurar a equidade e o acesso ético a informação de qualidade”.

 

Contexto

A Nota Concetual do evento parte da ideia de que "Há uma crescente desconexão entre as pessoas e as instituições que as servem... uma cada vez mais profunda crise de confiança fomentada por uma perda de verdade e compreensão partilhada".

Sublinha a importância da literacia da informação e media para alimentar a confiança ao nível dos governos, plataformas de comunicação digitais, meios de comunicação social, empresas e instituições, ONG e pessoas de diversas geografias, culturas e condições.

É no relatório Our Common Agenda/ Nossa Agenda Comum que o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, destaca os valores da confiança e da solidariedade como a cola para a coesão social, num contexto dominado pela “crescente desinformação, discurso do ódio, desigualdades, falta de equidade e transparência, inclusive nos espaços digitais”.

 

Evidências

De acordo com o 2022 Edelman Trust Barometer que estuda a variável da confiança há 22 anos e cujo relatório anual se baseia num universo de mais de 36.000 entrevistados em 28 países e, mais precisamente, nas suas “10 principais descobertas” [5] verificamos que:

- A desconfiança é o padrão, impedindo as pessoas de discutir e colaborar;

- As pessoas confiam mais nos negócios (61%) do que nas ONG (59%), governos (52%) ou meios de comunicação social (50%);

- Governo e media vivem um ciclo de desconfiança – respetivamente, 48% e 46% dos inquiridos encaram governo e meios de comunicação social como “forças que dividem a sociedade”, i.e., governantes e jornalistas são os líderes sociais menos confiáveis;

- As preocupações com as notícias falsas, usadas como arma para manipulação, atingem o ponto mais alto de todos os tempos (76%);

- Há um colapso da confiança nas democracias que beneficia o crescimento da extrema-direita e do populismo – na Alemanha, Espanha, Reino Unido e EUA e maioria dos países menos de metade das pessoas confia nas instituições;

- O medo social, por exemplo, em relação ao desemprego ou crise climática, cresce;

- Há necessidade de as empresas privadas, cujas competências e ética são preferidas face aos governos, responderem a problemas sociais. Os inquiridos têm a perceção de que elas não estão a fazer o suficiente nesta área, incluindo crise climática (52%), desigualdade económica (49%), requalificação da mão-de-obra (46%) e informação fidedigna (42%);

- “A liderança social é agora um papel das empresas”;

- “As empresas devem liderar a quebra do ciclo de confiança”.

Quando empresas privadas não eleitas democraticamente para exercer o seu poder no domínio público colhem mais respeito por parte dos cidadãos do que instituições democráticas, será que vivemos numa democracia?

Esta é uma oportunidade para a biblioteca escolar servir de contraponto e, através das literacias, gerar a consciencialização e a mudança.

 

Atividades e livros

A UNESCO apresenta sugestões de atividades para realizar nas escolas, em organizações de jovens, bibliotecas, redes ou meios de comunicação social [6].

      

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Dois exemplos de atividades para dinamizar com as bibliotecas escolares:

- Selecionar álbuns gráficos, livros ou revistas sobre o tema e dinamizar um encontro para discutir o fator da confiança a partir de um dos títulos, por exemplo: Gosto, logo existo: Redes sociais, jornalismo e um estranho vírus chamado fake news de Bernardo P. Carvalho e Isabel Meira, Login de Cláudia Pascoal e Betweien e Aprender a rezar na era da técnica de Gonçalo M. Tavares [7].

- Promover a iniciativa nas redes sociais convidando a comunidade a partilhar conteúdos multimédia que ajudem a restabelecer a confiança.

Através do hashtag #GlobalMILWeek faça parte desta conversa global.

 

Referências

1. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, Oct.). Global Media and Information Literacy Week (24-31 October). UNESCO: Paris. https://www.unesco.org/en/weeks/media-information-literacy

2. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, Oct.). Concept Note. UNESCO: Paris. https://euimg.vfairs.com/uploads/vjfnew/10000103/uploads/vjf/content/misc/1665491149Global%20Media%20and%20Information%20Literacy%202022%20Concept%20Note%20(2).pdf

3. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2021). Media and information literate citizens: think critically, click wisely! UNESCO: Paris. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000377068

4. Rede de Bibliotecas Escolares. (2022, 11 out.). Teorias de conspiração: o que os professores precisam de saber. Lisboa: RBE. https://blogue.rbe.mec.pt/teorias-de-conspiracao-o-que-os-2649043

5. (2022, January). 2022 Edelman Trust Barometer: The Cycle of Distrust. EUA: Edelman. https://www.edelman.com/trust/2022-trust-barometer

6. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, Oct.). How libraries can celebrate. UNESCO: Paris. https://euimg.vfairs.com/uploads/vjfnew/10000103/content/files/1665501067gmw-flyer-literacy-v4-pdf1665501067.pdf

United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, Oct.).  How youth organisations can celebrate. UNESCO: Paris. https://euimg.vfairs.com/uploads/vjfnew/10000103/content/files/1665501106gmw-flyer-youth-v2-pdf1665501106.pdf

United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, Oct.).  How schools can celebrate. UNESCO: Paris. https://euimg.vfairs.com/uploads/vjfnew/10000103/content/files/1665501098gmw-flyer-schools-v3-pdf1665501098.pdf

7. Carvalho, Bernardo & Meira, Isabel. (2022, 6 mai.). Gosto, logo existo: Redes sociais, jornalismo e um estranho vírus chamado fake news. Lisboa: Planeta Tangerina. https://www.planetatangerina.com/pt-pt/loja/gosto-logo-existo/

Pascoal, Cláudia & Betweien Login. Lisboa: Universal Music Group. https://universalmusic.pt/claudia-pascoal-lanca-login-livro-pedagogico-sobre-a-utilizacao-das-redes-sociais/

Tavares, Gonçalo. (2022). Aprender a rezar na era da técnica. Lisboa: Relógio d’Água. https://relogiodagua.pt/produto/aprender-a-rezar-na-era-da-tecnica-pre-venda/

Fonte da imagem: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, Oct.). Global Media and Information Literacy Week (24-31 October). UNESCO: Paris. https://www.unesco.org/en/weeks/media-information-literacy

Dia Mundial do Património Audiovisual

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Em 2005, a UNESCO proclamou o dia 27 de outubro como o Dia Mundial do Património Audiovisual. A data foi selecionada com a intenção de comemorar a aprovação na 21ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, em 27 de outubro de 1980, da Recomendação sobre a Salvaguarda e Conservação das Imagens em Movimento. [1]

Nesta recomendação, os Estados-Membros são convidados a tomar todas as medidas necessárias para assegurar a preservação sistemática das imagens em movimento que fazem parte do seu património audiovisual, uma vez que as imagens em movimento:

  • constituem novas formas de expressão, particularmente características da sociedade atual, onde se manifesta uma parte importante e cada vez maior da cultura contemporânea;
  • têm um papel cada vez mais importante a desempenhar como meio de comunicação e compreensão mútua entre todos os povos do mundo;
  • constituem um meio fundamental de registo do desenrolar dos acontecimentos e, como tal, constituem testemunhos importantes e muitas vezes únicos, para a história, do modo de vida e cultura dos povos e para a evolução do universo;
  • têm um papel cada vez mais importante a desempenhar como meio de comunicação e compreensão mútua entre todos os povos do mundo;
  • contribuem amplamente para a educação e o enriquecimento de cada ser humano, ao difundirem conhecimento e cultura pelo mundo;
  • são extremamente vulneráveis e devem ser mantidas em condições técnicas específicas, constituindo o seu desaparecimento, por deterioração, acidente ou eliminação injustificada, um empobrecimento irreversível desse património.

Assim, “os arquivos audiovisuais contam-nos histórias sobre a vida e as culturas de pessoas de todo o mundo. Eles representam um património inestimável que é uma afirmação da nossa memória coletiva e uma valiosa fonte de conhecimento, pois refletem a diversidade cultural, social e linguística das nossas comunidades. Eles ajudam-nos a crescer e compreender o mundo que todos partilhamos. Conservar esse património e garantir que ele permaneça acessível ao público e às gerações futuras é um objetivo vital para todas as instituições de memória, bem como para o público em geral.”

Este Dia Mundial é também uma oportunidade para os Estados-membros da UNESCO avaliarem seu desempenho no que diz respeito à implementação da Recomendação de 2015 relativa à preservação e acesso ao património documental, inclusivamente em formato digital. [2]

As comemorações

O Dia Mundial do Património Audiovisual 2022 é comemorado em conjunto com o 30º aniversário do Programa Memória do Mundo. A celebração decorre de 27 de outubro a 5 de novembro de 2022, sob o tema Valorização do património documental para a promoção de sociedades inclusivas, justas e pacíficas.

O papel das bibliotecas escolares

Assumido o valor inalienável do património audiovisual e o papel inestimável das instituições de memória na conservação e disponibilização desse património, chegamos, naturalmente, às bibliotecas, designadamente, às bibliotecas escolares. 

Estando estas integradas em comunidades locais restritas (as comunidades relativas às escolas onde se inserem), de que modo se transpõe a vocação das bibliotecas para a preservação do património audiovisual para este nível micro?

Para respondermos a esta questão, colocamo-nos algumas outras:

  • Também nos compete colaborar nesta missão de preservação do património audiovisual?
  • Que tipo de documentos devemos preservar?
  • Como operacionalizar?
  • A que metodologias podemos recorrer?
  • Com quem poderemos contar?
  • Como disponibilizar?

Talvez fosse interessante inspirarmo-nos na Recomendação de 2015 relativa à preservação e acesso ao património documental, inclusive em formato digital, da responsabilidade da UNESCO[3] e na Lista de verificação de recomendações da UNESCO 2015[4] preparada pela IFLA – International Federation of Library Associations and Institutions para refletirmos em conjunto sobre esta matéria. Brevemente voltaremos ao assunto!

Referências

[1] UNESCO (1980, 27 de outubro). Recommendation for the Safeguarding and Preservation of Moving Images. https://www.unesco.org/en/legal-affairs/recommendation-safeguarding-and-preservation-moving-images 

[2] UNESCO (s.d.). World Day for Audiovisual Heritage. UNESCO International Days. https://www.unesco.org/en/days/audiovisual-heritage 

[3] UNESCO (2015). Recommendation concerning the preservation of, and access to, documentary heritage, including in digital form. http://www.mowcapunesco.org/wp-content/uploads/FA_UNSC_Recommendation_150318.pdf 

[4] IFLA (s.d.). Lista de verificação de recomendações da UNESCO 2015. https://www.surveygizmo.com/s3/5505764/UNESCO-2015-Recommendation-Checklist 

Fonte da imagem: Imagem de flockine por Pixabay 

Biblioteca Móvel

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O município de Cascais inaugurou ontem, Dia Internacional da Biblioteca Escolar, a Biblioteca Móvel, que irá servir as escolas do concelho que não dispõem de espaço para a instalação de uma biblioteca.

Este projeto nasceu da colaboração entre a Fundação D. Luís I e Câmara Municipal de Cascais,e a cerimónia de inauguração decorreu na Escola Básica Bruno Nascimento, em Alcoitão, com a presença de Carlos Carreiras, presidente da CM de Cascais, aproveitou a ocasião para distribuir Cartões de Leitor aos alunos, os quais também dão acesso às bibliotecas municipais de Cascais.

A Biblioteca Escolar Móvel, uma carrinha que faz lembrar as   Bibliotecas Itinerantes de antigamente, que levavam livros aos locais mais isolados do país ( projeto de que Branquinho da Fonseca, figura de referência de Cascais, foi principal mentor) irá percorrer, entre segunda e sexta-feira , 12 escolas do concelho, abrangendo um total de 800 alunos. A todos os alunos será ainda distribuído um saco de tecido, para facilitar o transporte dos livros requisitados.

Além da comunidade escolar, a Biblioteca Móvel de Cascais serve também a comunidade em geral, com a presença no Parque Urbano da Quinta da Alagoa (sábado de manhã) e no Parque Urbano da Quinta da Carreira (sábado à tarde).

  • 25 de Outubro de 2022, 09:23

Tem a palavra... Teresa Calçada

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É com gosto que festejo e saúdo o Dia das Bibliotecas Escolares!

Conhecem a minha dedicação à causa das bibliotecas - pequenas , grandes, imponentes ou modestas, universitárias, municipais e escolares. O importante é que sejam bons e bonitos lugares de acolhimento de todos, pelo que oferecem: livros, recursos e meios, mediação e orientação, acesso livre, gestão profissional e liderança, com o propósito de um uso sem barreiras de qualquer espécie, com vista à oferta de bens de cultura, entretenimento, informação e conhecimento.

Como tão bem disse Zadie Smith, “As bibliotecas bem geridas estão cheias de gente porque o que uma biblioteca oferece não pode ser encontrado noutro lugar: um espaço público coberto onde não é preciso comprar nada para aí ficar.”

Que a ambição não nos falte e a exigência profissional e moral seja permanente. Toda a sociedade civil tem responsabilidades para com as bibliotecas enquanto espaços de liberdade, igualdade e saber.

As bibliotecas escolares estão no meu coração e têm de mim um carinho, um respeito e uma confiança muito especiais. Porque vejo nelas uma oportunidade infinita para os que frequentam a escola, desde muito cedo nas suas vidas, de os levar a ter interesse pelas coisas, a desenvolver capacidades e competências, apetências também, a procurar largueza de ideias, gostos e interesses, a cultivar a palavra, a literatura, as artes e as ciências, a respeitar a história e a reconhecer os preconceitos que formatam e limitam as pessoas, a conhecer o eu e os outros, a preservar a memória para melhor escolher o futuro, a valorizar o conhecimento.

Não menos importante, a biblioteca escolar ensina a adquirir hábitos de leitura e escrita, de estudo, e métodos de trabalho manuais e intelectuais. A trabalhar em equipa, em rede, a gerir projectos e a compreender o valor das atitudes e das ações. Proporciona aprendizagens fundacionais e fundamentais, indispensáveis ao crescimento, autonomia pessoal e responsabilidade social.

É verdade que das bibliotecas escolares se espera tudo e nelas se ensina(quase) tudo!

As bibliotecas escolares são um espaço de iniciação e espanto, promotor de equidade entre pares, um ambiente de igualdade e inclusão, onde os profissionais fazem curadoria de conhecimentos e cuidam dos que estão em formação e crescimento.

Mas, se por economia ou falta de opção estratégica, não lhes forem criadas e dadas condições, aumentam exponencialmente as dificuldades para desempenharem e cumprirem tão relevante missão social, incontornável no desempenho e desenvolvimento pessoal e coletivo de todos.  

As políticas públicas de leitura não podem, não devem, afrouxar o investimento, conscientes do pilar que estas constituem para a educação e qualificação. Todos sabemos que as bibliotecas são caras, mas também muitos sabemos quanto mais caro é não as ter!

Nunca podem ser vistas como despesa, mas sim como o melhor dos investimentos.

O que vale para os alunos, vale para educadores, para os professores e para as equipas que trabalham nas escolas, de quem se espera que reconheçam nas bibliotecas escolares o melhor, o mais útil, necessário e indispensável para que as escolas sejam o verdadeiro portal cultural, onde todas as literacias contam. 

Entre nós o motor de tamanha empreitada são os professores bibliotecários, responsáveis pela sua gestão e organização, de quem se espera formação, qualificação e permanente actualização e, claro, muita dedicação. Natural é, assim, que lhes sejam proporcionadas, quer pelas direções das escolas, quer pela tutela política, as melhores e mais adequadas condições de trabalho. Sem tais condições fica decididamente comprometido o sucesso deste valioso equipamento democrático por excelência, que tanto pode ajudar a incrementar os resultados escolares, desde a pré-escola ao fim da escolaridade obrigatória, passando pelo ensino profissional e de adultos.

Comprometido está, o seu desempenho, se igualmente falharem livros físicos e digitais, diversificados e actualizados, recursos técnicos e tecnológicos em quantidade e qualidade, redes digitais de informação e comunicação e meios humanos com reconhecida aptidão e formação para as variadas actividades assacáveis às bibliotecas escolares.

Dentre este grupo de profissionais com formação especializada, uma muito especial referência aos designados coordenadores interconcelhios das bibliotecas escolares que, enquanto parte de uma estrutura intermédia e territorial da maior importância, constituem a guarda avançada do que é a Rede de Bibliotecas Escolares, cabendo-lhes coordenação logística e operacional, organização  técnica e biblioteconómica, responsabilidade pedagógica e cultural em certas áreas geográficas à sua guarda.

Acrescem as relações inter-bibliotecas , bem como a colaboração e partilha com estruturas autárquicas e instituições de diferentes natureza, cultura, desporto, trabalho, empresas, saúde, solidariedade social, formação…. e tantas outras.

As bibliotecas têm, no mundo, um público manifesto reconhecimento histórico, a que nem sempre correspondem investimentos, e muitas vezes ocorrem mesmo recuos e retrocessos dramáticos, como é por todos sabido.

Num tempo em que as crises mundiais se agravam, as guerras nos ameaçam globalmente, em que a raparigas e mulheres é vedada a alfabetização, em que pandemias comprometem o papel das escolarização e, entre nós, também as desigualdades sociais se agravam e são já fortes condicionantes das aprendizagens, particularmente dos mais débeis, só podemos, neste Dia das Bibliotecas Escolares, requerer o seu reforço e valorização!

Acresce que estes tempos cruéis, agitados e vorazes, em que se vive, como se vive, de forma apressada e alienada, não conduzem à reflexão, ao pensamento lento, tempos em que o poder de novos modos de comunicação, ubíquos e aditivos, nos tornam mais permissivos à desinformação e ao ruído, e igualmente mais vulneráveis ao mercado das redes sociais e afins, há que saber distinguir razão de emoção, opinião de conhecimento.

As bibliotecas sempre serviram para tal, para fortalecer o humano e as humanidades. 

As bibliotecas escolares são as primeiras a cumprir essa missão, preparando “leitores” para serem, ao longo da vida, activos e gratos, utilizadores de Bibliotecas.

                                                                                    Contem comigo!

Saudações e estima.
Teresa Calçada

OCDE : Education at a Glance 2022 – um retrato português

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Education at a Glance é um relatório anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) constituída por 38 países, entre os quais Portugal, e que inclui dados sobre os países parceiros.

Com base na Country Note de Portugal [1], destacamos elementos do retrato da educação nacional face ao panorama internacional.

 

Aumento das qualificações e melhores perspetivas de emprego e salários

O relatório regista aumento significativo do pré-escolar em Portugal, frequentado por 93% das crianças entre os 3 e os 6 anos de idade.

Portugal é um dos países com maior aumento de jovens licenciados (25 a 34 anos de idade): 47% em 2021 – em 2000 eram apenas 13% - não obstante só 38% terminar a licenciatura no tempo esperado. A maioria dos estudantes portugueses do ensino superior está em licenciaturas - 57%, seguindo-se mestrados - 33%.

Tal como nos restantes países da OCDE, em Portugal elevadas qualificações estão associadas a elevadas expetativas de emprego e salário. Em 2021 jovens portugueses licenciados com 25 a 34 anos de idade apresentam uma percentagem de emprego 26 pontos percentuais mais elevada do que os que têm um nível básico e 8 pontos percentuais mais elevada do que os que têm o ensino secundário. Esta ligação entre nível académico e empregabilidade é ainda mais significativa para as mulheres.

O curso que frequentam também influencia as perspetivas de emprego e condições de vida. Neste segmento populacional, em 2021, estavam empregados 96% dos que estudaram TIC e 83% dos que estudaram ciências naturais, matemática e estatística. "Apesar da necessidade crescente de competências digitais e das boas perspetivas de emprego dos estudantes com cursos em tecnologias da informação e comunicação, apenas uma pequena percentagem dos novos alunos escolhe esta área" – em Portugal só 3% escolhem cursos TIC, sendo a média da OCDE 6%.

Em Portugal a vantagem salarial destes licenciados é maior do que a média da OCDE: em 2020 os trabalhadores com ensino secundário ganharam 25% mais do que os com ensino básico e os licenciados ganharam mais do dobro. A área de estudos também é importante para obter vantagem salarial: licenciados em TIC entre 25 a 64 anos de idade recebem mais do dobro do que os com ensino secundário, mas os licenciados em artes só ganham mais 26%.

Na maioria dos países da OCDE, incluindo em Portugal, adultos mais qualificados têm taxas mais elevadas de participação na educação e formação não formal e ao longo da vida.

Ao nível do ensino secundário, 57% dos alunos estão inscritos em cursos gerais e 35% em cursos profissionais, o que é uma média superior à da OCDE, que é de 55% e 31%, respetivamente. A idade média de conclusão do secundário profissional é 20 anos de idade. abaixo da média da OCDE, 22. No ensino secundário profissional, Portugal é um dos 12 países da OCDE onde todos os diplomados têm acesso directo ao ensino superior.

Análises particulares evidenciam:

- Por género

55% dos licenciados e dos que têm diploma dos cursos gerais do ensino secundário são mulheres, 54% dos que concluem o secundário profissional são rapazes e taxas de conclusão das licenciaturas são mais elevadas para as mulheres em todos os países da OCDE - 79% das mulheres em Portugal licencia-se em 3 anos, em comparação com 63% dos homens.

- Por geografia

Há desigualdades nas qualificações dentro de cada país, sobretudo por diferente oferta de oportunidades e razões económicas. Em Portugal, em 2021, a maioria dos licenciados - 41% - é da Área Metropolitana de Lisboa e a percentagem mais baixa - 17% - é da Região Autónoma dos Açores.

 

Necessidade de flexibilização e diversificação do ensino superior

Não obstante a procura das universidades, elas "oferecem oportunidades de estudo moderadamente diversificadas e relativamente inflexíveis, o que representa uma barreira que limita o seu papel em 'upskilling [melhorar competências] e reskilling [reajustar competências para nova área de trabalho]'" fundamentais no contexto da revolução digital. O “ensino superior em Portugal está largamente orientado para as necessidades dos estudantes dos grupos etários tradicionais”, não estando adaptado a formação de adultos e ao longo da vida. Esta necessidade de adaptação das universidades é importante porque a população em Portugal “está a envelhecer a um ritmo mais rápido do que as populações da maioria dos países da OCDE” e estas instituições devem encorajar os adultos a requalificarem-se.

O relatório também sugere que se facilite o acesso ao ensino superior, incluindo a possibilidade de estudar a meio tempo, importante para quem tem filhos ou precise de trabalhar para pagar os estudos.

 

Baixo investimento por aluno

Tendo em conta a Paridade do Poder de Compra (PPC) e o Produto Interno Bruto (PIB) de cada país, bem como o que é dito no relatório, de que não há grandes diferenças de custo entre níveis de ensino até ao secundário, Portugal em 2019 gastou anualmente 10.854 euros por aluno, valor abaixo da média da OCDE que é 12.353 euros.

Relativamente ao ensino superior, apesar da tendência para massificação, Portugal está “entre os que menos gastam”, investindo menos de um terço neste setor da educação: 12 mil euros - 11.858 dólares, 1,1% do PIB - por ano por cada estudante universitário, despesa muito abaixo da média da OCDE que é de 17.559 dólares anuais, 1,5% do PIB.

Durante a pandemia as escolas estiveram encerradas a tempo inteiro - em Portugal, 47 a 62 dias no ano lectivo de 2019/20, 25 a 45 dias no ano letivo 2020/21 – e gerou-se, em muitos países da OCDE e em Portugal, uma crescente digitalização da educação com maior oferta de equipamentos e ferramentas digitais, avaliações digitalizadas, aprendizagem e formação à distância e híbrida – que, para Portugal, representou um aumento da despesa entre 1% a 5% do pré-escolar ao secundário e 5% para o ensino universitário.

 

Salários dos professores, co-docência e autonomia das escolas

Entre 2015 e 2021 os salários dos professores do ensino básico aumentaram metade (3%) em relação à média da OCDE (6%), mas “Portugal é um dos poucos países onde os salários médios reais dos professores continuam a ser superiores aos dos trabalhadores com formação superior, pois a população docente está a envelhecer e, consequentemente, uma grande proporção de professores está próxima do topo da sua carreira” e os vencimentos do topo de carreira dos professores são superiores à média dos trabalhadores licenciados do país.

A “profissão docente em Portugal é experiente e envelhecida”, diz o relatório: 88% dos professores em funções tem mestrado ou qualificação superior e 45% tem mais de 50 anos de idade, proporção acima da OCDE que é de 40%. Só 4% dos estudantes que estão a fazer uma licenciatura quer seguir uma carreira na educação. Este factor, acrescido ao do envelhecimento docente, “suscita preocupações sobre escassez de professores num futuro próximo em Portugal”.

Na maior parte dos países da OCDE os professores são remunerados em função das suas habilitações académicas, mas em Portugal progridem com base nos anos de serviço e no desempenho profissional.

No país a diferença entre salários reais médios de professores de diferentes níveis de ensino é reduzida – “53.441 euros no pré-escolar e 51.500 no secundário”, mas na OCDE esta diferença é superior a dez mil euros. Os salários dos diretores escolares são muito mais elevados do que os de outras profissionais com a mesma formação superior e esta situação verifica-se em Portugal e na OCDE.

O número de horas de ensino diminui à medida que o nível de educação lecionado aumenta, mas no ensino secundário os professores investem 51% do seu tempo de trabalho com atividades não letivas, como preparar aulas e corrigir testes e a média da OCDE é ainda superior, 56%.

Segundo o relatório, Portugal beneficiaria com mais oportunidades de “envolvimento no trabalho colaborativo [por exemplo, co-ensino e observação de pares] e autonomia das escolas para escolherem os professores cujos perfis melhor se adaptam às suas necessidades [sublinhado nosso]”. Esta última recomendação vai ao encontro da proposta do Ministro da Educação, João Costa, apresentada no início deste ano letivo, de dar autonomia aos diretores para selecionarem um terço dos seus professores, tendo em conta o perfil dos docentes e os projectos educativos da escola.

 

Referências

[1] Organisation for Economic Co-operation and Development. (2022). Education at a Glance 2022: Portugal. OECD Publishing: Paris. https://www.oecd-ilibrary.org/education/education-at-a-glance-2022_75a5b3e9-en;jsessionid=Ed8lz3xLQ0bhgw8wJahFdIExQ9McEMyZM9NuzyYV.ip-10-240-5-95

 

Veja também

OCDE : Education at a Glance 2022

OCDE: Education at a Glance 2022

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Education at a Glance [1] é um relatório anual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que reúne um conjunto de indicadores para informar, comparar e compreender a evolução e o retorno no investimento na educação ao nível dos países membros e de países parceiros. Estes indicadores são complementares aos do Objetivo para o Desenvolvimento Sustentável 4, “Educação de Qualidade”, abrangem todos os níveis de educação e ensino e podem ajudar todos os níveis de governação, da academia e do público a “construir sistemas educativos eficazes e equitativos” (Prefácio). A edição 2022 é dedicada ao ensino superior.

Apresentam-se abaixo dados sobre o panorama mundial da educação com recomendações para o futuro.

 

Educação na pandemia

Devido à pandemia Covid-19, até à primeira metade de 2022 as ausências de professores e alunos, devido ao contágio e à quarentena, continuaram a perturbar o processo de aprendizagem e 8 dos 11 países que apresentaram dados comparáveis sobre ausências dos professores, registaram um aumento de faltas dos professores.

Quase todos os países da OCDE quantificaram as perdas de aprendizagem resultantes do confinamento obrigatório e cerca de 80% dos países implementaram programas de recuperação das aprendizagens - no pré-escolar estes programas foram menos comuns, mas foram implementados em 19 dos 28 países com dados disponíveis.

Apoio psicológico e socio-emocional para estudantes até ao ensino secundário foi disponibilizado em 19 dos 29 países.

 

Pré-escolar

Ao nível da OCDE, 83% das crianças dos 3 aos 5 anos de idade está matriculada no pré-escolar – em média entre 2005 e 2020 registou-se um aumento de 8 pontos neste indicador. Até aos 3 anos só 27% estão matriculadas em creches.

 

Ensino superior e retorno económico e social com recomendações para o futuro

A média de jovens entre 25 e 34 anos de idade com qualificação superior registou um aumento sem precedentes - de 27% em 2000 para 48% em 2021 em toda a OCDE - e sobretudo ao nível das mulheres - 57% das mulheres têm mestrado ou doutoramento.

As qualificações têm forte impacto no mercado de trabalho - em 2021 4% dos licenciados estavam desempregados e 6% das pessoas com ensino secundário estavam desempregadas e 11% dos desempregados tinham e4nsino básico – e nos salários - trabalhadores licenciados ganham em média cerca de 50% mais do que aqueles com o secundário e quase duas vezes mais do que aqueles que não têm o secundário. Durante a pandemia o desemprego aumentou muito mais para aqueles com um nível de instrução inferior ao secundário do que para os licenciados. As qualificações têm também impacto na vida social e bem-estar: por exemplo, adultos com mais qualificações usam mais facilmente novas tecnologias - 71% dos licenciados de 55-74 anos de idade na pandemia usou chamadas através da internet ou videochamadas, ao invés de 34% dos adultos da mesma idade e com menos qualificações.

Segundo Andreas Schleicher, Diretor do Departamento de Educação e Competências da OCDE, “O aumento dos trabalhadores do conhecimento não levou a um declínio em seus salários. […] Em média nos países da OCDE, adultos com mestrado ganham agora 88% mais do que os que têm ensino básico e no Chile quase cinco vezes mais [sublinhados nossos]”. Apesar do número de licenciados ter aumento no mundo para quase metade das pessoas com 25 a 34 anos de idade, “Os dados mostram que a vantagem salarial entre os adultos mais jovens permaneceu estável nos últimos anos” [2].

 

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No artigo Is the sky the limit to the rise in education?, que comenta Education at Glance 2022, Schleicher refere que no âmbito do estudo sobre Pesquisa de Riscos da OCDE, face à pergunta “A vantagem salarial é reflexo justo do investimento das pessoas em educação ou os governos deveriam fazer algo para reduzi-la […], através de pagamento de impostos e de benefícios sociais?”, a maioria dos entrevistados - inclusive com qualificação superior – responde que os governos deveriam fazer mais ou muito mais para diminuir as desigualdades entre ricos e pobres.

O nível de recompensa através dos salários depende do tipo de cursos frequentados ao nível do ensino superior: áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) tendem a gerar maiores rendimentos e “artes e humanidades (exceto línguas), ciências sociais, jornalismo e informação geram rendimentos relativamente baixos”.

Schleicher também refere que há desigualdades de género a nível salarial, pois “as trabalhadoras ganharam apenas 77% do que seus colegas do sexo masculino [sublinhado nosso]. As diferenças na escolha da área de estudo entre homens e mulheres contribuem para as disparidades salariais entre homens e mulheres [estas optam menos pela área das STEM]. No entanto, mesmo comparando trabalhadores com nível superior na mesma área de estudo, o trabalho das mulheres ainda é menos bem remunerado do que o dos homens”.

Outra questão de Education at Glance 2022 e deste artigo é a do custo do ensino superior que tem grandes variações entre os países e universidades. Segundo Scleicher, “a partilha dos custos entre indivíduos e contribuintes parece ser a abordagem mais sustentável para financiar uma maior expansão do ensino superior”, mas era importante que os governos divulgassem melhor informação “sobre a qualidade dos estudos universitários e as oportunidades do mercado de trabalho que lhe estão associadas [sublinhado nosso]” para que os estudantes do ensino superior possam fazer as suas escolhas de forma mais consciente.

Outro desafio levantado por Education at a Glance 2022 é que perante a elevada procura do ensino superior, é preciso torná-lo mais diversificado para que possa satisfazer necessidades de todos os estudantes, de todas as idades e que procuram novas competências em várias fases da sua carreira e sempre que o mercado de trabalho muda.

Segundo este relatório, o aumento generalizado de qualificações pode levar os empregadores a pensar que o diploma do ensino superior é o novo normal, levando alunos que beneficiariam mais do profissional a escolher uma via de ensino superior académica. Contudo, “programas de ensino secundário profissional que possam competir com o ensino superior em termos de qualidade e de resultados do mercado de trabalho são importantes, mas continuam a ser raros”. Para que o Ensino e Formação Profissional (EFP) seja uma primeira escolha é preciso ligá-lo ao ensino superior que deve garantir a oportunidade destes estudantes prosseguirem os seus estudos numa fase posterior.

Education at a Glance 2022 recomenda que na pós-pandemia é preciso “manter a dinâmica da digitalização” e, para isso, é preciso “reforçar a cultura de inovação na educação [sublinhado nosso]” através da contratação de pessoas recetivas às oportunidades digitais e de incentivos (Editorial).

Recomenda ainda a realização de estudos com estatísticas para políticas educativas inovadoras que utilizem soluções digitais para verificar se respondem às necessidades atuais e futuras do mercado de trabalho, que verifiquem o impacto da aprendizagem ao longo da vida e da formação no local de trabalho.

Education at a Glance 2022 resulta da colaboração entre os governos, especialistas e instituições e foi dirigido por Marie Hélène Doumet e Abel Schumann.

Porque a educação tem efeitos na economia e sociedade, a OCDE continuará a “avaliar políticas de recuperação da aprendizagem, a aproveitar as iniciativas e inovações digitais adotadas durante a pandemia e a desenvolver sistemas de educação que podem alimentar melhores empregos e melhores vidas para o futuro” (Editorial).

 

Referências

1. Organisation for Economic Co-operation and Development. (2022). Education at a Glance 2022: Portugal. OECD Publishing: Paris. https://www.oecd-ilibrary.org/education/education-at-a-glance-2022_75a5b3e9-en;jsessionid=Ed8lz3xLQ0bhgw8wJahFdIExQ9McEMyZM9NuzyYV.ip-10-240-5-95

2. Schleicher, Andreas. (2022, Oct. 3). Is the sky the limit to the rise in education? OECD: Paris, France. https://oecdedutoday.com/high-rate-tertiary-education/

 

Artigos sobre edições anteriores do relatório no blogue RBE:

Education at a Glance 2021

Education at a Glance 2021 | O nível socioeconómico pode determinar quem queres ser?

Redesenhar o papel do professor na escola e na comunidade

Education at a Glance 2020 - Valorizar a aprendizagem baseada no trabalho e construir sociedades mais resilientes

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