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Que espécie é esta: larva de pirilampo

Por Helena Geraldes

O leitor Rogério Sá fotografou este insecto a 8 de Maio em Arouca e quis saber qual a espécie a que pertence. José Manuel Grosso-Silva responde.

Trata-se de uma larva de pirilampo (Lampyris sp.).

Espécie identificada por: José Manuel Grosso-Silva, responsável pelas colecções entomológicas do Museu de História Natural e da Ciência (Universidade do Porto).

Trata-se de uma larva de pirilampo do género Lampyris.

São os pirilampos mais frequentemente observados durante a fase larvar em Portugal.

Há duas espécies confirmadas deste género em Portugal, a mais comum das quais foi descrita em 2008: o pirilampo-ibérico (Lampyris iberica). Mas pela foto não consigo identificar a espécie.

Descubra seis coisas a saber sobre os pirilampos em Portugal.


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie-nos para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

O conteúdo Que espécie é esta: larva de pirilampo aparece primeiro em Wilder.

Que espécie é esta: vespas Cotesia glomerata

Por Helena Geraldes

O leitor José Seixas fotografou estes insectos numa parede em Viana do Castelo a 9 de Maio e quis saber qual a espécie. Albano Soares responde.

“No dia 09-05-2021 observei este ‘favo’ de abelha numa parede em Viana do Castelo. Tanto ele como as abelhas eram minúsculos. Nunca tinha visto esta espécie com o tamanho de formigas pequeninas”, escreveu o leitor à Wilder.

Tratar-se-ão de vespas Cotesia glomerata.

Espécie identificada por: Albano Soares, Rede de Estações da BiodiversidadeTagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.

Estas são pequenas vespas parasitóides das lagartas de algumas borboletas, nomeadamente da borboleta-branca-grande-da-couve (Pieris brassicae).

Não ultrapassam os sete milímetros de comprimento e são pretas com dois pares de asas.

Pertencem à família Braconidae e foram descritas para a Ciência em 1759, por Carl Linnaeus.


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Que espécie é esta: borboleta-esfinge-colibri

Por Helena Geraldes

O leitor Artur Cadete encontrou este insecto a 12 de Maio em Fontão/Angeja, Aveiro, e pediu ajuda para identificar a espécie. Hélder Cardoso responde.

Trata-se da borboleta-esfinge-colibri (Macroglossum stellatarum).

Espécie identificada por: Hélder Cardoso, naturalista e coordenador da Estação de Estudo de Borboletas Nocturnas do Planalto das Cesaredas.

Esta borboleta é a esfinge-colibri (Macroglossum stellatarum), assim chamada por ser capaz de se alimentar em pleno voo. 

Pertence à família Sphingidae, uma família de Heteroceros em que muitas espécies têm voo diurno. 

É comum em todo o país e tem mais de uma geração por ano.


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Que espécie é esta: lagarta da borboleta-carnaval

Por Helena Geraldes

A leitora Virginia Vitorino fotografou esta lagarta na Serra de São Mamede a 17 de Maio e quis saber qual a espécie. Albano Soares responde.

Trata-se da lagarta da borboleta-carnaval (Zerynthia rumina).

Espécie identificada por: Albano Soares, Rede de Estações da BiodiversidadeTagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.

Esta é uma borboleta muito vistosa e de grande beleza.

Borboleta-carnaval. Foto: Gilles San Martin/WikiCommons

Ocorre na Península Ibérica e no Sul de França. Em Portugal Continental está presente em quase todo o país, mas é mais comum no Sul.

Esta espécie, que voa de Fevereiro a Maio, depende muito de uma planta, a chamada erva-bicha (Aristolochia paucinervis)É desta planta que se alimentam as suas lagartas. 


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Nove sugestões para o Dia Internacional do Fascínio das Plantas

Por Inês Sequeira

Criado pela Organização Europeia de Ciência das Plantas, este dia celebra o facto de as plantas serem tão fascinantes.

O objectivo deste dia, que se celebra habitualmente de dois em dois anos, a 18 de Maio, é “despertar o maior número possível de pessoas para o mundo verdadeiramente fascinante das plantas, chamando a atenção para a importância do seu estudo”, explica o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, da Universidade Nova (ITQB NOVA), uma das entidades que coordenam os eventos em Portugal.

Fique a conhecer algumas das muitas actividades agendadas para festejar o Dia Internacional do Fascínio das Plantas, incluindo muitas iniciativas realizadas em modo virtual, e por isso acessíveis a partir de qualquer lugar, e também passeios a que vale a pena juntar-se:

1. Webinar “Conhecer e explorar as plantas de Portugal”

Foto: Joana Bourgard

Nesta apresentação online, realizada às 11h00 através do YouTube, dois investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Patrícia Tiago e Sergio Chozas, dão a conhecer o primeiro Bioblitz Flora de Portugal. Esta iniciativa está agendada para o próximo fim-de-semana, 22 e 23 de Maio, e todos os interessados podem participar.

2. Passeio botânico com Fernanda Botelho

Foto: Fernanda Botelho

Neste passeio, a especialista Fernanda Botelho apresenta as ervas silvestres, comestíveis e terapêuticas das Salinas de Rio Maior. O passeio está agendado para esta terça-feira, dia 18, no Dia Internacional do Fascínio das Plantas, custa 15 euros, e o ponto de encontro são as salinas, às 15h00. Os interessados podem inscrever-se através do email contacto@fabricadaalegria.pt.

3. Exposição sobre as Solanáceas numa galeria virtual

A família botânica Solanaceae é composta por quase 3.000 espécies de plantas, incluindo espécies muito conhecidas como o tomateiro, a batateira e a planta do tabaco, e outras belas mas venenosas, como a beladona. Na galeria virtual SolanArt, pode admirar ilustrações de 10 espécies de solanáceas e ficar também a conhecer melhor cada uma destas plantas, presentes nas floras portuguesa e brasileira. Este projecto tem como autoras Ana Clara Cavalcante e Ana Margarida Oliveira, alunas da Licenciatura em Biologia Aplicada e colaboradoras do projeto STOL-Science Through Our Lives, projeto de Comunicação de Ciência do Departamento de Biologia da Escola de Ciências da Universidade do Minho. Fique a conhecer aqui outras acções agendadas pela Universidade do Minho para o Dia Internacional do Fascínio das Plantas.

4. Workshop de ilustração científica “Rabiscos em Casa”

Ilustração: Luísa Crisóstomo

Esta oficina online, realizada por Luísa Crisóstomo, realiza-se esta terça-feira entre as 14h e as 15h e está aberta a todos os interessados em desenharem as plantas que encontram. Numa aula virtual em directo, vão ser partilhadas as ferramentas necessárias para a observação e desenho dos pormenores fascinantes de diferentes espécies. Esta acção é organizada pelo ITQB NOVA e GREEN-IT, com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras. O registo é gratuito mas os lugares são limitados.

5. Passeio na Estação Agronómica Nacional

Foto: Joana Bourgard

Se quiser descobrir a flora da Estação Agronómica Nacional, numa actividade presencial, pode juntar-se a um passeio guiado por Ana Fortunato, investigadora do ITQB NOVA e do GREEN- IT. A actividade tem um número muito limitado de vaga e é um pré-evento da Noite Europeia dos Investigadores – Reggae. Inscreva-se aqui.

6. A importância da investigação nas plantas

planta com flores roxas
Foto: Joana Bourgard

Paula Duque, investigadora principal do Instituto Gulbenkian da Ciência, explica num pequeno vídeo, através do Youtube, a importância da investigação científica em plantas. Esta iniciativa recorre a tecnologia 3D, o que permite a quem assiste explorar uma câmara de crescimento de plantas movendo a imagem em qualquer direcção. Para os mais novos, estão disponíveis outros dois vídeos da série Cientistas em Casa (aqui e aqui), que os desafiam a fazer experiências em casa descobrirem que condições são necessárias para o crescimento das plantas.

7. Visita virtual à Estufa Fria de Lisboa

Foto: Joana Bourgard

Neste passeio virtual pela Estufa Fria de Lisboa, ao longo de meia hora é possível ficar a conhecer a história e a variedade deste jardim escondido que alberga numerosas plantas, divididas em três ambientes distintos: estufa fria, estufa quente e estufa doce, com cerca de 300 espécies de diferentes continentes. Pode ver aqui o vídeo.

8. Kits científicos, livros e um passeio virtual no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra

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Foto: D.R.

Esta terça-feira das 16h00 às 19h00 vão ser distribuídos, no quiosque do Terraço Júlio Henriques, 60 kits Colecionar da coleção “Vamos Semear Ciência!”, que desafiam as famílias a descobrir as plantas e as sementes que as rodeiam. Para os adultos, estarão disponíveis 60 livros “No jardim há histórias sem fim”, que dão a conhecer melhor o Jardim Botânico.

Mas não só. Num passeio virtual pela Estufa Tropical do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (JBUC), é possível ficar a conhecer orquídeas, carnívoras e muitas outras plantas tropicais. Basta ir ao Facebook ou ao site do JBUC.

9. Debate “Será que os alimentos que comemos vêm realmente da natureza?”

as-sementes-de-um-dente-de-leão
Foto: Joana Bourgard

Este debate moderado pelo jornalista Luís Ribeiro vai juntar especialistas em diferentes áreas ligadas à alimentação, como a nutrição, a agricultura, gastronomia e pesquisa. Vai ser possível assistir esta terça-feira em directo às 18h00, juntando-se através da plataforma Zoom.


Saiba mais.

Fique a conhecer aqui estas e outras actividades do Dia Internacional do Fascínio das Plantas, em Portugal. E também outras acções programadas um pouco por todo o mundo.

O conteúdo Nove sugestões para o Dia Internacional do Fascínio das Plantas aparece primeiro em Wilder.

Este é o primeiro registo em Portugal de grifos a nidificarem numa árvore

Por Inês Sequeira

Foi durante os trabalhos dos censos de aves rupícolas nidificantes no Parque Natural do Tejo Internacional que dois técnicos da Quercus – ANCN fizeram esta interessante descoberta. E contaram à Wilder como tudo se passou.

Samuel Infante e Pedro Alves foram apanhados de surpresa quando andavam pelo campo a registar os casais reprodutores de diferentes espécies de aves rupícolas, também conhecidas como “aves das rochas”, por utilizarem habitualmente substractos rochosos para nidificar. Em cima de uma azinheira depararam-se com um ninho de abutre preto, já abandonado desde a época reprodutora passada, mas ocupado por um casal de grifos.

“Este é o primeiro registo em Portugal de uma nidificação confirmada de grifo em cima de uma árvore”, anunciou Samuel Infante à Wilder, lembrando que esta espécie de abutre constrói habitualmente os seus ninhos em escarpas.

Mas a surpresa não se ficou por aqui. Dentro do ninho, observaram atentamente uma cria que já mostra “um desenvolvimento significativo, com mais de dois meses de idade”, o que indica que a postura do ovo “aconteceu no início da época de reprodução”. Em Portugal, os grifos começam a nidificar em pleno Inverno, no mês de Dezembro.

Foto: Pedro Alves

Quanto à azinheira onde está assente o ninho, é uma árvore de porte médio, descreveu o técnico da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza. “Esta região do país foi desflorestada no passado, no âmbito da campanha de trigo. As árvores aqui já têm algumas décadas, mas não têm ainda muita dimensão.” Ainda assim, o ninho parece ter uma base sólida para se aguentar sem cair, ao contrário do que por vezes sucede com ninhos de abutre-preto na região. Curiosamente, a cerca de 250 metros deste casal de grifos, “instalou-se um casal de abutre-preto que está ainda em fase de incubação.”

Este é o primeiro caso do género conhecido em Portugal, mas na vizinha região da Extremadura, em Espanha, estima-se que numa população de cerca de 2.000 casais de grifo, três por cento nidificam no topo de árvores. Para isso ocupam ninhos de outras espécies, normalmente de abutre-preto ou águia-real. Também nos Balcãs são conhecidas situações semelhantes.

Ninho com grifo em cima de azinheira
Foto: Pedro Alves

Qual será a causa para esta alteração de comportamentos? Samuel Infante diz que pode estar relacionado com o aumento populacional da espécie, mas no PNTI ainda é cedo para tirar conclusões.

Aumento substancial da população reprodutora

Segundo os censos preliminares que estão em curso, estima-se que entre 244 a 259 casais de grifo iniciaram este ano a reprodução nesta área protegida – incluindo 60 casais do lado espanhol, no Parque Natural del Tajo Internacional, na província de Cáceres. Registaram-se também 59 ninhos abandonados.

A equipa verificou “um aumento substancial da população reprodutora de grifo no PNTI”, uma vez que no último censo realizado – em 1999, há mais de 20 anos – as contagens apontavam para uma população de cerca de 153 a 155 casais.

Outro dado curioso foi “a observação de casais ainda com ovos nesta época do ano e, na mesma escarpa, a poucos metros, ninhos com crias bem desenvolvidas com mais de 60 dias de idade”, acrescentam os dois técnicos da Quercus, numa nota de imprensa enviada à Wilder. “Isto ocorre porque esta espécie inicia a época de reprodução em Dezembro, podendo as posturas ocorrer no período de Dezembro a Março.”

grifo a voar
Foto: Pedro Alves

O grifo (Gyps fulvus) é uma ave necrófaga classificada como Quase Ameaçada de extinção, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, publicado em 2005. Apesar de estar hoje em recuperação, continua ainda longe da área de distribuição original que tinha no país, devido a ameaças como o envenenamento, a falta de alimento disponível e perseguição.

O Parque Natural do Tejo Internacional ocupa 26.484 hectares do distrito de Castelo Branco, numa área que se estende por parte dos concelhos de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, Vila Velha de Ródão e Nisa. Esta área protegida “alberga a maior colónia nidificante de abutre-preto em Portugal, a segunda maior população nacional de grifo e diversas espécies de avifauna criticamente ameaçadas e de elevado valor biológico, sendo o último reduto nacional para algumas delas, nomeadamente para o cortiçol-de-barriga-branca (Pterocles alchata)”, descreve a equipa.

Os censos que estão agora a realizar-se integram-se no projecto “Investigação e monitorização de avifauna no PNTI”, ao abrigo de um protocolo de colaboração assinado entre o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, a Quercus e o Fundo Ambiental, no âmbito da gestão colaborativa desta área protegida. 

Os objectivos principais são a produção, actualização e divulgação de informação científica sobre o estado e a dinâmica das populações de avifauna no parque natural, de forma a melhorar o conhecimento neste domínio, “o que é crucial para implementar futuras medidas de conservação e gestão que sejam mais direccionadas, esclarecidas e eficazes.”

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O que procurar na Primavera: a tramazeira

Por Carine Azevedo

Com uma bela floração branca, a tramazeira (Sorbus aucuparia) inicia agora uma nova etapa do seu ciclo de vida. As suas pequenas flores perfumadas começam a florir, mantendo-se assim até finais de julho.

A tramazeira é uma árvore ornamental muito elegante. A sua folhagem, as flores e os frutos tornam-na numa árvore magnífica e atrativa em jardins e outros espaços verdes durante uma longa parte do ano. Possui também um grande interesse florestal pela sua madeira de textura fina e clara e é muito importante do ponto de vista ecológico, uma vez que o néctar das suas flores e os seus frutos servem de alimento a muitos animais.

A tramazeira

A tramazeira, também vulgarmente conhecida como cornogodinho, sorveira, escancerejo, sorveira-brava e sorveira-dos-passarinhos, é uma pequena árvore da família Rosaceae, que inclui espécies bem conhecidas como o pilriteiro, a amendoeira, a cerejeira, a pereira, a macieira e muitas outras. 

Os ingleses chamam-lhe Moutain ash (Freixo da montanha) pelas suas semelhanças com o freixo e por ser uma espécie tipicamente de montanha.

Foto: Eeno11 / Wiki Commons

Esta árvore pode atingir até 15 metros de altura. Possui uma copa arredondada, por vezes irregular e pouco densa. Os raminhos jovens, de tons acinzentados a púrpura-acastanhados, são peludos e com abundantes lentículas (poros da casca da árvore). Quanto ao ritidoma, que é a parte externa e seca da casca das árvores, é liso, acinzentado, igualmente com numerosas lentículas, tornando-se acastanhado e ligeiramente fendido com a idade. Tem um sistema radicular profundo e de longo alcance.

É uma espécie caducifólia, de folhas compostas, peludas, que vão perdendo os pelos, tornando-se glabras, após a floração. Cada folha possui 5 a 7 pares de folíolos laterais e um folíolo apical, lanceolados e de margem serrada. As folhas são verde-escuras na página superior e cobertas por uma esparsa pubescência na face inferior, que assume assim uma cor esbranquiçada a acinzentada. A folhagem adquire tons amarelos e avermelhados no outono.

Foto: 3268zauber / Wiki Commons

A floração desta árvore ocorre entre maio e julho. As flores hermafroditas (femininas e masculinas) encontram-se reunidas em inflorescências – corimbos compostos e terminais com cerca de 15 cm de diâmetro. Cada flor possui cinco pétalas brancas, livres e glabras, protegidas por cinco sépalas com a face externa tormentosa (penugenta). As flores da tramazeira são perfumadas, no entanto o aroma é um tanto desagradável. O seu néctar é rico em frutoses e glicose.

Já o fruto, conhecido como sorva, é um pomo subgloboso – semelhante a uma pequena maçã – de cor verde na fase inicial de formação e vermelho a alaranjado e brilhante na fase final da maturação. Possui uma polpa homogénea e contém entre 1 a 6 sementes no seu interior. Os frutos amadurecem durante o verão e o início do outono e permanecem na árvore mesmo depois da queda das folhas, enquanto as aves não os comem. A primeira frutificação ocorre a partir dos 10 a 15 anos de idade e é geralmente anual. Em média, a tramazeira pode viver entre 80 a 120 anos.

A designação científica desta espécie está muito associada às características dos frutos e à sua importância ecológica. O nome genérico Sorbus poderá derivar do latim “sorbeo” que significa engolir, muito provavelmente devido aos seus frutos comestíveis, ou do celta “sormel” que significa maçã áspera, também alusivo ao seu pequeno fruto. O restritivo específico aucuparia deriva do latim “aucupor” – que serve para caçar pássaros – em referência ao facto de os seus frutos serem atrativos para os pássaros que se alimentam deles. Aliás, esta árvore é muito conhecida entre os caçadores que costumam usar os seus frutos, como isco, para atrair as aves.

Sorveira-dos-passarinhos

A tramazeira é uma espécie nativa da Europa e da Ásia Menor. Em Portugal Continental, ocorre naturalmente nas regiões de montanha do Norte e Centro, nomeadamente nas serras do Gerês, Cabreira, Larouco, Montesinho, Gardunha e Estrela. É muito rara no Sul e na faixa litoral.

Dom-fafe a alimentar-se de frutos de tramazeira. Foto: Reelika Saar / Wiki Commons

É uma espécie de pleno sol ou de semi-sombra, que requer humidade moderada. Pode crescer e desenvolver-se em solos pedregosos, argilosos, arenosos ou turfosos, preferindo substratos ácidos, férteis, profundos, frescos e soltos. É intolerante ao alagamento, a solos salinos e com demasiado calcário. É bastante resistente aos ventos fortes, à neve e a temperaturas baixas, sendo capaz de suportar temperaturas abaixo dos 30ºC negativos. É tolerante à poluição urbana e regenera muito bem após o corte.

É comum na orla de bosques caducifólios, acompanhando bétulas, faias e carvalhos, mas também a podemos encontrar junto a pinhais e por vezes em matagais, em zonas montanhosas.

A tramazeira tem um crescimento bastante rápido durante os primeiros anos e é uma espécie pioneira, ocupando áreas onde muitas outras espécies não se conseguem estabelecer. E é essencial na fixação do solo através das suas raízes profundas, protegendo-o contra a erosão. As suas folhas decompõem-se rapidamente, o que favorece a formação de húmus. 

É uma árvore muito apreciada pelos seus frutos por melros, tordos e outros pássaros – daí a sua designação comum sorveira-dos-passarinhos – e por inúmeros mamíferos como as raposas, texugos e esquilos. Todos estes animais desempenham um papel fundamental na dispersão das suas sementes.

Mil e uma aplicações

Esta planta é frequentemente cultivada para fins ornamentais e pode utilizar-se isolada e em pequenos bosques ou sebes e também em alinhamentos. 

É uma árvore bastante interessante do ponto de vista florestal, a madeira é muito compacta, dura e elástica, de textura fina, resistente e de cor branca, por vezes rosada. Usada para tornear, para o fabrico de rodas e de cintas para as pipas, assim como no fabrico de peças sujeitas a desgaste (cabos para ferramentas). Da madeira da tramazeira também se podem obter instrumentos musicais (flautas). A lenha é um bom combustível.

Os frutos, apesar de serem ácidos e levemente amargos, são usados, depois de cozinhados, na confecção de compotas, geleias, molhos e conservas. Após a sua fermentação, também podem ser utilizados no fabrico de bebidas alcoólicas, como aguardente, vodka, licores de frutas e até vinagre. 

Não é aconselhável comer os frutos crus uma vez que contêm parasorbina – substância aromática de cheiro doce e ligeiramente tóxica, pois pode causar irritação, vómito, inflamação gastrointestinal. Se ingeridos, deve-se garantir que estão totalmente maduros e nunca em grandes quantidades.

Da tramazeira é possível extrair ácido sórbico, um conservante para alimentos com ação antifúngica, e o sorbitol, um poliol (álcool de açúcar) de sabor adocicado usado como adoçante.

Foto: Nxr-at / Wiki Commons

Além das aplicações culinárias, a tramazeira tem várias aplicações medicinais: propriedades antioxidantes, antidiarreica, anti-inflamatória, digestiva, adstringente, diurética, anticancerígena, antiescorbúticas e anti-hemorroidal, além de ser rica em vitamina C em taninos.

A infusão do fruto e a decocção feita a partir da casca do tronco são úteis no combate à diarreia, hemorroidas e no tratamento de gastrites e irritações das mucosas. 

As infusões também podem utilizar-se em gargarejos, para tratar inflamações da boca e da garganta. Têm um efeito de regulação e normalização do trânsito intestinal e o seu uso também é recomendado em casos de doenças febris, gripes, resfriados e cansaço. Alguns autores referem ainda que o consumo destes frutos, após cozedura, ajudam a limpar o sangue e a fortalecer o sistema imunitário, além de ajudar na prevenção do envelhecimento precoce e na saúde da pele. A decocção feita a partir da casca pode ser aplicada externamente no tratamento e desinfeção de cortes e pequenas feridas. 

As flores e as folhas também podem ser utilizadas para fazer uma tisana calmante, com propriedades semelhantes à tília.

Lendas e histórias

A tramazeira é uma árvore envolta de história e misticismo. Ainda antes da era cristã era uma árvore venerada pelos antigos celtas, considerada mágica e sagrada e muito utilizada em rituais religiosos e na magia popular. 

Para os celtas, a floresta era vista como divina, existindo o culto às árvores. Com eles surgiu o oráculo das árvores, um dos oráculos mais antigos de que se tem conhecimento, composto por 25 árvores, onde se inclui a tramazeira. Estas árvores segredavam ou murmuravam segredos e mensagens a quem as consultava. O oráculo era também utilizado para fazer previsões e dar aconselhamentos e orientações em prol do autoconhecimento.

Foto: Joanna Boisse / Wiki Commons

Associada à proteção contra o mau-olhado, a bruxaria e as trovoadas, os frutos, secos, eram usados como “repelentes” para bruxas, lobisomens e demónios e como “antídoto” contra o mal e os feitiços. 

Alguns povos plantavam-na à entrada de casa ou então penduravam uns raminhos na porta para proteção contra os maus espíritos. Os cristãos usavam-na em pequenas cruzes com ramos atados por uma fita vermelha que se penduravam por cima das portas na época da Páscoa ou nos rituais da primavera.

Numa próxima visita às serras do Norte e Centro de Portugal, procure esta espécie. Se for agora, na primavera, irá encontrar as suas belas flores brancas, durante o verão poderá apreciar a beleza dos seus frutos e a sombra fresca e leve da sua folhagem. No outono poderá encontrar os frutos vermelhos e a folhagem dourada típica da estação e no inverno encontrará a árvore despida de folhas, mas ainda carregada de frutos.


Dicionário informal do mundo vegetal: 

Lentícula – poro da casca da árvore, pelo qual penetra o ar, apoiando o processo de respiração

Folíolo – cada uma das partes em que o limbo, de uma folha composta ou recomposta, se divide

Limbo – parte larga de uma folha

Apical – que está no ápice, ponto terminal ou vértice da folha

Lanceolada – cada folíolo apresenta a forma de lança

Serrada – margem com dentes marginais agudos, como os de uma serra

Corimbo – inflorescência cujas hastes florais partem de pontos diversos, mas alcançando altura semelhante


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.

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Lesma-do-Gerês, espécie protegida, descoberta no Parque das Serras do Porto

Por Helena Geraldes

A rara e protegida lesma-do-Gerês (Geomalacus maculosus) foi descoberta na noite de 7 de Maio no Parque das Serras do Porto por uma equipa de investigadores. A descoberta é importante porque ainda há poucos registos para esta espécie, cujo estatuto será em breve avaliado na primeira lista de invertebrados de Portugal.

Na noite de 7 de Maio, uma equipa de investigadores do CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos) foi até ao Parque das Serras do Porto à procura de invertebrados. “Fomos realizar amostragens de invertebrados de forma a colmatar a ainda bastante grande falta de informação que existe”, explicou à Wilder a investigadora Sónia Ferreira.

O Parque das Serras do Porto, com quase 6.000 hectares, é composto por seis serras – Santa Justa, Pias, Castiçal, Santa Iria, Flores e Banjas – nos municípios de Gondomar, Paredes e Valongo.

Nessa noite, os investigadores fizeram uma descoberta especial. Encontraram uma lesma-do-Gerês no tronco de um carvalho-alvarinho.

Lesma-do-Gerês. Foto: Sónia Ferreira

“Sabemos que aquando da definição do Parque esta espécie não foi tida em conta, pois não se conhecia a sua ocorrência na área. No entanto é excelente descobrir populações que ocorrem no seio do Parque e que podem ser acompanhadas mais de perto, assim como ser alvo de medidas de proteção, caso seja necessário”, comentou a investigadora.

A lesma-do-Gerês, da família Arionidae, é uma espécie legalmente protegida a nível europeu. Está contemplada nos anexos B-II e B-IV da Directiva Habitats, isto é, é considerada como uma das Espécies animais e vegetais de interesse comunitário cuja conservação exige a designação de zonas especiais de conservação, e Espécies animais e vegetais de interesse comunitário que exigem uma protecção rigorosa.

Segundo Sónia Ferreira, esta é uma lesma “acastanhada com bastante variação na coloração e que apresenta manchas amareladas (mais claras) (máculas que lhe dão o nome maculosus)”. Tem um tamanho médio a grande e pode alcançar os 12 centímetros de comprimento.

Está activa nesta altura do ano, em noites de chuva e ou elevada humidade. “Alimenta-se de líquenes e musgos pelo que, muito provavelmente, quando a observamos à noite sobre troncos de árvores ou sobre granito, andará à procura de alimento.”

Ainda pouco se sabe sobre esta lesma. Mas sabe-se que vive na metade Norte do país, em particular em florestas de caducifólias. É “conhecida da Serra da Estrela e em diversas áreas, algumas das quais serras, nomeadamente do Gerês onde é comum (e daí o seu nome comum)”.

Mapa dos registos existentes na plataforma BioDiversity4All actualmente

Sónia Ferreira já encontrou algumas lesmas-do-Gerês. “Já conheço esta espécie há quase 20 anos”, contou à Wilder. “Creio que a conheci precisamente no Gerês quando participava nos meus primeiros estudos de invertebrados.”

Depois, a investigadora passou a observá-la esporadicamente na Serra da Estrela, por exemplo. A espécie é conhecida de Vairão, localidade onde o CIBIO-InBIO está localizado. Em 2019 observou-a no Parque Natural de Montesinho e junto ao Mosteiro de São João de Arga (Caminha). No ano passado observou esta espécie numa outra freguesia de Vila do Conde, em Santo Tirso, no Parque Biológico de Gaia e encontrou um único exemplar em Alijó, no Parque Natural Regional do Vale do Tua.

“Creio que quase todas as observações foram feitas à noite, depois das 21h00-22h00 e raramente foram avistados mais de dois indivíduos. Ou seja, parece ser uma espécie com ocorrência localizada e nunca abundante.”

Na verdade, “existem ainda poucos registos” da espécie e “ainda sabemos muito pouco sobre a sua ecologia”.

De acordo com Sónia Ferreira, “a ameaça principal que enfrenta é a destruição do seu habitat, a destruição e fragmentação das florestas de caducifólias no noroeste ibérico. Em Espanha – onde ocorre nos Montes Galaicos e na Cordilheira Cantábrica – a espécie está classificada como Vulnerável. Em Portugal o seu estatuto será em breve avaliado no contexto da primeira lista de invertebrados de Portugal”. 

Preparativos para uma sessão de amostragem nocturna de invertebrados. Foto: João Nunes

A situação desta lesma-do-Gerês espelha a falta de dados para muitas espécies de invertebrados em Portugal. Para tentar colmatar lacunas, o Parque das Serras do Porto tomou a iniciativa de promover um estudo para avaliar o estado actual do conhecimento sobre invertebrados da área protegida.

“Apesar de a grande maioria de animais pertencerem aos invertebrados (animais sem coluna vertebral), pouquíssimo se sabe sobre as espécies que ocorrem no nosso país. Claro que há grupos melhor conhecidos e mais estudados do que outros, assim como regiões do país melhor estudadas que outras, mas ainda temos muito, muito para descobrir”, comentou Sónia Ferreira.

Foi nesse âmbito que a equipa do CIBIO-InBIO estava a realizar amostragens de invertebrados para conseguir informação sobre as espécies com actividade nocturna. “Um dos grupos mais fáceis de observar à noite são as borboletas nocturnas, dado que são atraídas pela luz. O que fazemos é colocar uma luz forte e aguardar que as espécies sejam atraídas. Além de borboletas nocturnas há diversos animais de outros grupos que são assim amostrados, nomeadamente escaravelhos, moscas, vespas, louva-a-deus e percevejos. Outros são encontrados por procura directa, como foi o caso do exemplar de lesma observado num tronco de árvore.”

Preparativos para uma sessão de amostragem nocturna de invertebrados. Foto: João Nunes

Agora é a sua vez.

Sónia Ferreira sugere duas formas para qualquer pessoa ajudar à conservação das lesmas-do-Gerês.

Há duas coisas muito importantes para preservar estes animais.

A primeira é ajudar a saber mais sobre eles. O uso da plataforma BioDiversity4All e a participação no projeto Invertebrados da Lista Vermelha Procuram-se! é uma excelente forma de ajudar! Só podemos preservar o que conhecemos. Por isso, se num passeio após um jantar encontrar uma lesma não hesite, fotografe e registe na plataforma a sua observação. A informação pode ser muito valiosa para o futuro desta espécie.

A outra forma é mesmo a preservação das árvores de grande porte e dos bosques de caducifólias, onde esta espécie encontra abrigo e alimento. Com a contínua destruição dos nossos bosques e abate de árvores de grande porte estamos a remover o habitat não apenas desta espécie protegida mas de muitas outras e a eliminar precioso património natural e muitas vezes também cultural.

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Esponja marinha roxa passou 10 anos sem nome até uma criança lhe ter dado um

Por Helena Geraldes

Uma misteriosa esponja marinha roxa, descoberta há 10 anos durante uma expedição científica na zona costeira entre Essex e Northumberland, em Inglaterra, só agora recebeu um nome comum, escolhido por uma criança de 9 anos.

A iniciativa foi lançada em Janeiro deste ano pelo projecto Agents of Change da Marine Conservation Society e financiado pelo ramo britânico da Fundação Calouste Gulbenkian. Este projecto convidou as crianças da zona de Norfolk a dar um nome à esponja roxa que ali havia sido descoberta há 10 anos. Pertence ao sub-género Hymedesmia (Stylopus) mas ainda não lhe foi atribuído nenhum nome científico. 

Parpal Dumplin. Foto: Dawn Watson

Todas as propostas de nome comum foram analisadas ao detalhe por um painel de especialistas, que procuravam criatividade e adequação do nome.

A escolha foi unânime e o nome selecionado foi “Parpal Dumplin”, sugerido por Sylvie, aluna de 9 anos da escola de Langham. “A esponja é roxa e parece mesmo um bolinho de massa” (em Inglês, “dumpling”), segundo um comunicado do Norfolk Wildlife Trust.

Entre os especialistas do painel que decidiu o nome estão peritos da Norwich Naturalists Society, do Norfolk Wildlife Trust e Claire Goodwin, especialista internacional em esponjas marinhas no Huntsman Marine Science Centre.  

“O projecto Agents of Change deu à esponja um nome comum que podemos usar enquanto ainda não existe um nome científico”, comentou Claire Goodwin. “Gostei imenso de ver todas as sugestões tão criativas.”

As esponjas marinhas ajudam a manter o fundo do mar limpo porque filtram a água quando se alimentam, consumindo partículas minúsculas de alimento que flutuam na coluna de água.

Estima-se que existam mais de 11.000 espécies diferentes de esponjas em todo o mundo. Esta esponja roxa, descoberta ao largo de Norfolk em 2011 – numa expedição durante a qual foram registadas 352 espécies marinhas, na zona costeira entre Essex e Northumberland -, ocorre na Zona de Conservação Marinha de Cromer Shoal Chalk Beds.

“Dar um nome à esponja foi uma forma divertida de as crianças descobrirem mais sobre a vida fascinante que está escondida por debaixo das ondas”, comentou Jenny Lumb, professora na The Coastal Federation. “É fantástico ter a hipótese de dar um nome a uma espécie que os cientistas e mergulhadores vão usar nos próximos anos! Além disso, estas crianças têm a sorte de ter à porta de casa uma Zona de Conservação Marinha.”

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Miriam recebeu uma bolsa National Geographic para estudar crias de cagarros no Faial

Por Helena Geraldes

De Julho a Novembro, a bióloga marinha Miriam Cuesta vai estar em trabalho de campo no Faial a estudar o comportamento noturno das crias de cagarros naquela ilha açoriana, graças a uma bolsa Early Career Grant da National Geographic Society.

“O projeto, de um ano de duração, inicia-se a 15 de Maio e o trabalho de campo decorrerá de Julho a Novembro, quando as crias estão nos ninhos”, segundo um comunicado da Universidade dos Açores. 

As crias de cagarro empreendem depois o seu primeiro voo em direcção ao oceano. Só regressarão quando tiverem idade para se reproduzir, sete anos depois. Até lá, o oceano será a sua casa.

O cagarro é a ave marinha mais emblemática do arquipélago dos Açores. As aves que nidificam nos Açores e na Madeira representam 75 a 80% da população mundial da espécie.

Como muitas outras aves marinhas, as crias de cagarro (Calonectris borealis) deixam os seus ninhos à noite para exercitar as asas e alisar as penas.

Cagarro exercitando as asas durante a noite.

Ainda é pouco conhecido este período de desenvolvimento das crias, por isso, Miriam Cuesta, bióloga espanhola de 32 anos, irá filmar com câmaras de vídeo infravermelho as “excursões” das crias durante os meses que antecedem a saída definitiva dos ninhos.

Ao mesmo tempo, a investigadora visitará regularmente a colónia de cagarros no Faial para recolher informação sobre o peso e tamanho do bico e da pata destas aves, para calcular a condição corporal. O objetivo é “saber se existe alguma relação entre o índice de massa corporal e os comportamentos observados através das filmagens”.

Miriam Cuesta. Foto: D.R.

“Este conhecimento será importante para o planeamento de futuras campanhas de conservação, aumentando a consciência pública sobre as aves marinhas e contribuindo com novos dados para a comunidade científica”, explicou Miriam Cuesta.

Os primeiros voos dos cagarros são um enorme desafio. Muitas aves confundem a iluminação pública das povoações com a luz da Lua e desorientam-se, acabando por cair nas estradas, parques de estacionamento, campos desportivos, incapazes de encontrar o mar.

Miriam Cuesta mora na Horta desde 2016. Entre 2016 e 2019, trabalhou como Estagiária e Técnica superior no grupo das Aves Marinhas do Okeanos-UAç e no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. 

Em 2020 finalizou o Mestrado em Estudo Integrados dos Oceanos pela Universidade dos Açores, tendo recebido a medalha de mérito escolar 2019/2020. 

Actualmente é colaboradora eventual do Okeanos-UAç – Grupo de investigação marinha ligado à Universidade dos Açores – e presidente da Associação sem fins lucrativos Asas do Mar – Instituto de Ornitologia Marinha dos Açores.

Em Abril foi revelado que um outro investigador a trabalhar em Portugal, Luís Ceríaco, ganhou uma bolsa de explorador da National Geographic Society. Este investigador do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto vai fazer o levantamento exaustivo das espécies de um hotspot de biodiversidade em Angola.


Saiba mais.

Descubra mais aqui sobre os cagarros nos Açores e o que está a ser feito para os conservar.

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Florestas que se regeneraram desde 2000 ocupam área maior do que a França

Por Inês Sequeira

Quase 59 milhões de hectares de floresta ressurgiram de forma natural nos últimos 20 anos, segundo um estudo realizado no âmbito da iniciativa Trillion Trees.

O projecto Trillion Trees (‘um bilião de árvores’, em português) é uma parceria entre a Birdlife International, a Wildlife Conservation Society e a WWF. O objectivo é ajudar a proteger e a restaurar as florestas do mundo atingindo um bilião de árvores até 2050, mas com “as árvores certas nos locais certos”.

A nova área de floresta agora detectada tem potencial para armazenar o equivalente a 5,9 gigatoneladas de dióxido de carbono – mais do que as emissões anuais dos Estados Unidos, indicam as organizações ambientalistas. Em causa estão áreas onde as árvores voltaram a crescer com pouca ou mesmo nenhuma intervenção humana.

“O estudo foi desenhado para fornecer mais informação aos planos de reflorestação mundiais, providenciando uma ideia das zonas onde concentrar os esforços de restauro poderá ser mais benéfico”, explica uma nota de imprensa. A investigação fez parte de um trabalho de pesquisa que demorou mais de dois anos, e que envolveu a análise de mais de 30 anos de imagens de satélite e a consulta de especialistas de mais de 100 entidades, em 29 países diferentes.

A Floresta Atlântica, no Brasil, é um dos casos destacados pela equipa. Ali, calcula-se que desde 2000 foram reflorestados cerca de 4,2 milhões de hectares – uma área de tamanho semelhante à Holanda – devido a várias causas: além dos projectos de reflorestação que avançaram no terreno, também a aplicação de práticas mais responsáveis pela indústria e uma tendência de migração dos habitantes locais para as cidades.

As florestas boreais do norte da Mongólia são outra área do mundo onde a renascimento de árvores parece estar a acontecer: estima-se que ali cerca de 1,2 milhões de hectares de floresta reapareceram nos últimos 20 anos. A África Central e as florestas boreais do Canadá são outras zonas onde os especialistas notam uma tendência semelhante.

“A ciência é clara: se queremos evitar alterações climáticas perigosas e reverter a perda de natureza, temos de travar tanto a desflorestação como restaurar as florestas naturais”, indicou William Baldwin-Cantello, director da WWF para a área de soluções baseadas na natureza.

“Sabemos há muito tempo que a regeneração natural da floresta é muitas vezes mais barata, mais rica em carbono e melhor para a biodiversidade do que florestas que são activamente plantadas, e esta pesquisa diz-nos onde e porque é que essa regeneração está a acontecer, e como é que podemos recriar essas condições noutros lados.”

Nada é garantido

No entanto, avisa o mesmo responsável, todos os anos os efeitos da desflorestação tomam conta de milhões de hectares, muitos mais do que a área que vai sendo regenerada. Os estudos já realizados apontam para 386 milhões de hectares de árvores perdidos a nível mundial entre 2001 e 2019 – mais de sete vezes a área que terá sido reflorestada ao longo desse período.

Além da inclusão de metas de reflorestação nos planos de acção climática, defende a equipa, devem ser combatidas as causas da perda de floresta. No Reino Unido, por exemplo, isso passa “pela criação de leis internas fortes para evitar que a nossa comida esteja a causar a desflorestação noutros lados”, apela Baldwin-Cantello.

Em causa está por exemplo o consumo de produtos como a soja e o óleo de palma em muitos países – incluindo Portugal – que está a ter um impacto forte sobre as florestas dos trópicos, alertou em Abril um relatório da WWF.

A equipa do projecto One Trillion Trees apela também à colaboração de especialistas, por todo o mundo, para ajudarem a validar e a enriquecer a informação obtida até agora.

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Que espécie é esta: mosca-das-flores-alongada

Por Helena Geraldes

O leitor António Dias fotografou este insecto em Abril na Mealhada e pediu ajuda na identificação. Rui Andrade responde.

“Fotografei este insecto tipo “vespa” numa flor de estevinha em Abril de 2021 na Mealhada”, escreveu o leitor à Wilder.

Trata-se de uma mosca-das-flores-alongada (Sphaerophoria sp.).

Espécie identificada e texto por: Rui Andrade, dinamizador do grupo Diptera em Portugal no Facebook.

É uma fêmea de Sphaerophoria sp., provavelmente S. scripta, a espécie mais comum do género. No entanto as fêmeas são complicadas de identificar.

Os adultos visitam flores de várias espécies de plantas, contribuindo assim para a sua polinização.

As larvas são predadoras de pulgões.

Mas como se distinguem as fêmeas dos machos? Segundo Rui Andrade, as fêmeas têm os olhos separados no topo da cabeça e o abdómen estreita na extremidade posterior. Nos machos os olhos tocam-se no topo da cabeça e a parte final do abdómen é arredondada devido à cápsula genital.

Aqui está uma imagem de um macho para comparar.


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

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Vozes humanas e ruído do tráfego reduzem estado de alerta de espécies ameaçadas como o visão-europeu

Por Helena Geraldes

Os ruídos feitos pelo Homem, como o ruído do tráfego e as vozes humanas, comprometem a conservação de espécies ameaçadas, alerta um novo estudo científico publicado na Scientific Reports.

Investigadores da Universidade Autónoma de Madrid (UAM), com a colaboração de um investigador da Universidade Politécnica de Madrid (UPM), destacam a importância de conhecer como a fauna silvestre, e em particular as espécies ameaçadas, responde a distintas ameaças no seu meio para sobreviver.

O trabalho baseou-se na avaliação de um conjunto de visões-europeus (Mustela lutreola), espécie de mustelídeos que ocorrem na franja norte de Espanha com uma população estimada em menos de 500 indivíduos, classificados como Criticamente Em Perigo de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Fêmea adulta de visão-europeu vigiando o perímetro. Foto: Víctor Ortega/FIEB

Os resultados demonstram que os ruídos antropogénicos modificam alguns comportamentos no visão-europeu em maior medida do que outras ameaças, como o risco de predação ou a concorrência entre indivíduos.

“Os ruídos antropogénicos suscitam uma ocultação mais duradoura”, escrevem os autores do artigo. “Particularmente as vozes humanas induzem a uma maior diminuição na vigilância.”

Por outro lado, “os visões permanecem mais tempo escondidos e reduzem a vigilância na presença de outro visão, enquanto que na presença do cheiro de predadores aumentam tanto o tempo de ocultação como de vigilância.”

“Quando ambos os sinais se apresentam juntos, a reacção comportamental perante um animal da mesma espécie prevalece sobre a resposta a um odor de um predador. Isto deve-se ao facto de que a primeira é um sinal directo e a segunda é um sinal indirecto: o indivíduo da mesma espécie está mesmo à sua frente e o predador está nas imediações”.

De igual forma, argumentam os investigadores, quando está presente outro visão e há ruídos antropogénicos é a resposta comportamental aos ruídos que prevalece. Os visões também modificam o seu comportamento às diferentes ameaças em função do seu sexo e idade, sendo as fêmeas e os subadultos os mais precavidos.

Experiências ex situ

A investigação foi realizada na Fundação para a Investigação em Etologia e Biodiversidade (FIEB), no centro de reprodução do visão-europeu – instalado em Casarrubios del Monte, em Toledo (Castela-La Mancha) – que pertence ao Programa de Conservação Ex Situ da espécie, promovido pelo Governo espanhol. Em 2020 ali nasceram 27 crias de visão-europeu, das quais sobreviveram 21.

Ali, os visões foram expostos a estímulos acústicos, olfactivos e visuais para simular a presença de um congénere (espelho), a presença de predadores (excrementos de bufo-real e de cão) e perturbações antropogénicas (vozes humanas e ruído de tráfego rodoviário).

Durante as experiências foi avaliado o tempo que cada visão permanecia escondido no seu abrigo e o tempo dedicado a vigiar o perímetro. Além disso, foi avaliado o efeito conjunto dos estímulos para estudar a prioridade na modulação de cada uma das respostas comportamentais quando duas ameaças se apresentavam ao mesmo tempo.

“Conhecer como esta espécie reage a potenciais ameaças do seu habitat natural permite estabelecer estratégias que melhorem a sua gestão, ajudando à sua conservação no meio natural, ao aumentar a taxa de sobrevivência nas reintroduções dos visões nascidos em cativeiro”, destacam os autores.

Além disso, é de “vital importância conhecer os efeitos das perturbações antropogénicas para tomar decisões sobre as interacções entre humanos e a fauna silvestre, sobretudo quando se trata de espécies ameaçadas”.

Conservação In Situ

A concorrência com o visão-americano, espécie invasora (Neovison vison), unida à baixa taxa de natalidade e densidade populacional, são alguns dos obstáculos que dificultam a conservação do visão-europeu na natureza.

“É necessário ter em conta os nossos resultados nos planos de gestão da espécie, restringindo actividades como o turismo de natureza ou actividades desportivas que registam uma tendência crescente nas últimas décadas”, salienta Lorena Ortiz, co-autora do artigo.

Para Isabel Barja, investigadora da UAM, “este tipo de gestão deve prioritizar-se em épocas críticas para a espécie, como a reprodução e o cuidado das crias, sobretudo quando se trata de espécies ameaçadas”.

Carlos Iglesias-Merchán, da UPM, concluiu que “não devemos descuidar o impacto do ruído das estradas, pois uma habituação ao mesmo poderia aumentar a taxa de mortalidade por atropelamentos ao comprometer a avaliação do risco de ameaça”.

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O que está a acontecer: As gaivotas revezam-se a cuidar dos ovos

Por Inês Sequeira

É nesta época que os casais de gaivotas partilham esforços na nidificação, em falésias ou em meio urbano. A Wilder falou com Nuno Oliveira, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), que está a coordenar uma acção de ciência cidadã para sabermos mais sobre a nidificação destas aves nas cidades.

Se por estes dias observar um ninho de gaivota no seu terraço ou no cimo de um prédio, o mais provável é que seja de uma gaivota-de-patas-amarelas (Larus michaellis). Esta espécie está em Portugal ao longo de todo o ano – ao contrário de outra espécie também comum, a gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus), que costuma ser invernante.

No âmbito de uma iniciativa de ciência cidadã lançada este mês pela SPEA, quem observar gaivotas na cidade – que são quase certamente gaivotas-de-patas-amarelas – pode registar esses dados para ajudar a saber mais sobre a situação actual da espécie. Mas o que andam estas aves a fazer?

Apesar de não serem migratórias, as gaivotas-de-patas-amarelas têm um carácter dispersivo, pelo que “durante o Inverno são mais errantes e andam um pouco por todo o lado”, descreve Nuno Oliveira. “Já tivemos registos da presença de gaivotas, que anilhámos nas Ilhas Berlengas, por toda a costa da Península Ibérica, e também desde o norte de França e sul de Inglaterra até Marrocos e à Mauritânia, sempre em zonas costeiras.”

Entretanto na Primavera, quando chega a época de reprodução, costumam voltar ao mesmo local, ano após ano. “E sendo uma ave colonial, a tendência é a população crescer como uma colónia, com a construção de ninhos próximos uns dos outros.”

Gaivotas na Lagoa do Fogo, Ilha de São Miguel, Açores. Foto: JCNazza / Wiki Commons

Por outro lado, não só regressam ao mesmo sítio onde nidificaram pela primeira vez, como a tendência é continuarem a juntar-se sempre com o mesmo parceiro. “É natural que assim seja, uma vez que as gaivotas vivem cerca de 20 anos e precisam de funcionar numa harmonia muito grande em casal, tanto para a incubação dos ovos como a alimentação das crias e a defesa do ninho”, nota o mesmo responsável. Como as gaivotas adultas não costumam alimentar outras gaivotas adultas, têm de revezar-se nas diferentes tarefas para cada uma ter tempo de procurar comida.

Logo em Abril, muitos casais já estão a construir os ninhos – sempre em sítios elevados de onde vigiam a zona em redor, mas onde ao mesmo tempo estão protegidos das intempéries. Por isso, “o habitat típico de nidificação são falésias”, mas numa cidade pode ser um telhado abrigado, exemplifica Nuno Oliveira. Palhas, penas e pedaços de ervas – ou de plástico – são usados na construção.

Cada ninho de gaivota costuma ter dois ou três ovos, de tom acastanhado, sarapintados com pequenas pintinhas castanho-escuras, mais ou menos com sete centímetros cada um. Passados 28 dias, em média, nascem as pequenas gaivotas, que três ou quatro dias depois já saem do ninho e começam a explorar o espaço ali à volta – mas sempre a pé, pois ainda vão demorar mais de um mês para começarem a voar.

Cria de gaivota. Foto: Drow male / Wiki Commons

Nestas primeiras semanas de vida, macho e fêmea revezam-se para tomar conta das crias. E há um cuidado especial na alimentação. “As gaivotas urbanas alimentam-se muito de resíduos urbanos, mas para as crias vão à procura de pescado, especialmente nos primeiros dias.” Hoje em dia estas aves quase não pescam, pois vão buscar o peixe aos barcos e aos portos de pesca. Outro alimento muito procurado é o caranguejo-pilado, “que tem um ‘boom’ a partir de Maio, exactamente durante esta época da nidificação.”

Mesmo se as gaivotas fazem ninho na cidade, aliás, não significa que ficam o dia todo por ali: “Estarem a nidificar no topo do prédio não quer dizer que se vão alimentar ao café da esquina.” Nuno Oliveira adianta que é normal viajarem num raio de 10 a 15 quilómetros, todos os dias, para irem buscar a comida de que precisam e também para as crias.

Juvenil de gaivota-de-patas-amarelas. Foto: Benjamin Janecke / Wiki Commons

Finalmente, mais de um mês após terem nascido – em média aos 37 dias – as pequenas gaivotas começam a voar e abandonam o ninho definitivamente, descreve o mesmo especialista. Ainda vão demorar cerca de três a quatro anos para adquirirem a plumagem de adultas: nas gaivotas-de-patas-amarelas, as asas deixam de ser acastanhadas e assumem um tom prateado e o bico fica amarelo com uma pinta vermelha na ponta. É nessa altura que começam a reproduzir-se.


Agora é a sua vez.

Assista a este vídeo da SPEA para saber como participar na campanha de ciência cidadã e contar as gaivotas urbanas.


Conte as Aves que Contam Consigo

A série Conte as Aves que Contam Consigo insere-se no projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, dinamizado pela SPEA em parceria com a Wilder – Rewilding your days e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA) e financiado pelo Programa Cidadãos Ativos/Active Citizens Fund (EEAGrants), um fundo constituído por recursos públicos da Islândia, Liechtenstein e Noruega e gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian, em consórcio com a Fundação Bissaya Barreto.

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Que espécie é esta: besouro Hoplia philanthus

Por Helena Geraldes

O leitor Paulo Santiago observou esta espécie a 8 de Maio no Porto e pediu ajuda na identificação. José Manuel Grosso-Silva responde.

“Este senhor poisou em mim. Dei conta dele dentro do metro na estação de Rio Tinto, no Porto. Tirei esta foto antes de o devolver ao espaço verde mais próximo que encontrei quando saí do metro”, na Trindade-Porto, escreveu o leitor à Wilder. “Conseguem identificar com esta foto?”

Trata-se do besouro Hoplia philanthus.

Espécie identificada e texto por: José Manuel Grosso-Silva, responsável pelas colecções entomológicas do Museu de História Natural e da Ciência (Universidade do Porto).

Este é um besouro, de uma forma geral é o que chamo aos Scarabaeoidea quando não têm um nome individualizado.

Os besouros Hoplia philanthus “têm um revestimento de escamas que, à medida que vão caindo, levam à mudança do aspeto dos exemplares e por isso exemplares recém-eclodidos e outros com semanas de vida adulta podem parecer pertencer a espécies diferentes”. 


Agora é a sua vez.

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Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

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Contributo para um plano de acção estratégico para os próximos 50 anos da Peneda-Gerês

Por Miguel Dantas da Gama

Este sábado, 8 de Maio, comemorou-se o 50º aniversário do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Miguel Dantas da Gama, membro do Conselho Estratégico do PNPG em representação das organizações não governamentais de ambiente, divulga na Wilder uma reflexão que enviou aos órgãos de gestão da maior área protegida nacional.

1. Uma visão para a globalidade de um território singular

Foto: Miguel Dantas da Gama

O Parque Nacional da Peneda-Gerês nasceu há cinquenta anos, pela mão de quem conferiu no seu território um conjunto de valores, principalmente naturais, que muito importava proteger e conservar. A aplicação da ideia de parque nacional, inspirada no modelo originário dos Estados Unidos da América (iniciado em 1872 com o P.N. de Yellowstone) implicava a sua adaptação a um território parcialmente habitado por comunidades humanas herdeiras de uma presença antiga, autora de um património cultural que também importava preservar. Quem com ele sonhou, avançou ideias, reuniu esforços para que se convergisse num objetivo que teria que ser desejado pelas populações residentes e por isso, por elas obrigatoriamente assumido. Não esquecidas na ideia original, foi-lhes apontado um papel participativo, fundamental e decisivo para o alcance desse sonho. 

Logo à partida reconheceram-se danos que importava enfrentar, debelar, corrigir. 

Meio século depois, estamos longe da meta desejada e os passos mais recentes apontam mesmo um afastamento que poderá ser fatal para o projeto desencadeado em maio de 1971. Problemas de fundo mantiveram-se, outros até se agravaram e da motivação inicial desviaram-se os que se foram sucedendo em posições cimeiras na hierarquia do Estado, apesar de terem aceitado a missão de zelar por esses valores naturais e de se comprometerem em fazer cumprir tão aliciante missão. Pouco a pouco, o projeto afastou-se do carácter nacional que à nascença lhe foi atribuído. Perdeu autonomia, perdeu infraestruturas e meios, humanos e materiais, foi-se ignorando o respeito pelo requisito que a sua salvaguarda impõe. Uma estratégia para todo um território, uma visão, com o objetivo de salvaguardar a sua integridade, a conservação do espaço como um todo. Agora, esta ameaça, sempre presente, pode feri-lo de morte.

O Homem tem lugar na Peneda-Gerês. Mas respeitando-o. As comunidades residentes, os cidadãos que dele dependem e que nele poderão sentir condicionamentos ditados pela salvaguarda dos valores, devem ser privilegiados, positivamente discriminados face aos restantes cidadãos, àqueles que o visitam e àqueles que, também provenientes do exterior pretendem explorar e auferir rendimentos de um património que tem que ser respeitado e reconhecido por todos. Pelos presentes e pelos vindouros. 

 As propostas que a seguir se apresentam têm em consideração:

  • A necessidade de agir encarando o Parque Nacional como um todo; 
  • A usufruição humana, que admitida como um desígnio relevante no conjunto dos objetivos, deve submeter-se a um correto estabelecimento de prioridades. Antes da sua facilitação, impõe-se um prévio restauro e a devida proteção dos valores que se pretendem desfrutar. 
  • As formas nocivas com que os cidadãos residentes e não residentes foram degradando o meio e os fatores que criam fragilidades e geram danos;
  • A debilidade presente dos diversos tipos de habitat e o consequente empobrecimento das populações de  flora e fauna selvagens;
  • A imposição, a que nos devemos obrigar, de garantir que no território haja espaço para a preservação da natureza, ou seja, espaço em que o ser humano deixe a natureza seguir o seu caminho não explorando quaisquer recursos, para aí evitar a extinção de espécies, aí continuar a aprender como a natureza, livre da interferência humana, evolui e progride. E para que a partir daí possa replicá-la, promovendo a biodiversidade indispensável à vida humana.

Assinalar o 50º aniversário propondo ações com o propósito de avaliar e festejar o respetivo resultado no dia do centenário do Parque Nacional da Peneda-Gerês sustenta-se na convicção de que recuperar a Natureza, pressupõe trabalhar num plano a longo prazo e com objetivos bem definidos, que exige tempo, muito tempo. O reconhecimento da importância destas medidas e o empenho em as concretizar revelar-se-ão evidentes avançando agora, já que a maioria dos seus potenciais promotores e executores sabe, à partida, que não estará presente na data aqui simbolicamente definida para apreciar um expectável sucesso. A começar pelo autor deste plano.

2. Medidas de proteção e de reforço do ordenamento do território

Foto: Miguel Dantas da Gama

É um facto que só se protege e valoriza aquilo que se conhece. Mas tal principio não pode levar a que a usufruição do património se transforme no principal objetivo ao ponto de colocar os usufruidores literalmente sobre os valores que se devem preservar. A prioridade de investimento deve concentrar-se em ações de proteção e de recuperação do património e não no seu consumo. Há que investir no restauro de habitats, das populações de flora e fauna, não em infraestruturas humanas que contribuem em muitos casos para a degradação do património. Tal obriga a que se reconheça que o estado geral do Parque Nacional é de grande fragilidade, que por mais que encantem as paisagens belas deste singular relevo serrano, há muito onde investir para que nele se possa reconhecer um espaço devidamente preservado.

No Parque Nacional mantêm-se abertas ao trânsito automóvel vias que põem em causa a integridade de espaços sensíveis para a conservação da natureza. Impõe-se o condicionamento do trânsito motorizado de uma forma efetiva (nalgumas delas o condicionamento de acesso está sinalizado mas não é respeitado) nos seguintes acessos:

  • Estrada da Geira Romana entre Albergaria e Bouça da Mó (encerramento total e definitivo a veículos motorizados);
  • EN-308-1 entre Leonte e Portela do Homem (encerramento nos meses de verão e em alguns períodos festivos, salvaguardando a circulação de pessoas residentes dos aglomerados urbanos mais próximos, de ambos os lados da fronteira);

O condicionamento desta via deve integrar-se num plano mais abrangente e cuidado devido à enorme pressão a que esta importante área do Parque Nacional tem sido submetida. De uma forma intolerável, nos últimos anos. 

Nomeadamente entre o início do mês de julho e meados do mês de setembro a circulação de veículos motorizados deve ser interdita entre as Portelas de Leonte e do Homem. Não sendo admissível (nem havendo condições físicas) para criar espaços para aparcamento automóvel (na EN308-1 entre o Gerês e Leonte), a circulação motorizada deverá ser condicionada a partir da Vila do Gerês. Para permitir que os visitantes possam empreender passeios pedestres a partir de Leonte (entrada da Área de Ambiente Natural), uma rede de transporte coletivo/ «mini-bus» asseguraria, ao longo do dia, a ligação entre as Termas e Leonte (e vice-versa). Esta rede poderia também funcionar entre o Gerês e a Pedra Bela, permitindo igualmente limitar o fluxo de veículos motorizados particulares, sempre que se revelasse necessário. Pelas mesmas razões de dificuldade de aparcamento na vila do Gerês, o ponto de partida poderia ser Rio Caldo (entrada do PNPG) e não o Gerês, e próximo desse local de embarque (já fora do PNPG) seria mais fácil e recomendável criar um espaço com maior capacidade de aparcamento (também neste caso as Termas seriam local de paragem para entrada e saída de passageiros, mas o custo do transporte seria o mesmo, desincentivando a deslocação em automóvel particular até à vila, a quem se destinasse a Leonte). Os visitantes pagariam o transporte e adicionalmente receberiam informação adequada sobre a área protegida, durante o percurso de autocarro. Esta proposta pressupõe que seja respeitado um limite de capacidade de carga e opõe-se à ideia de que para resolver os enormes e inadmissíveis congestionamentos de trânsito, a solução é criar condições de acesso alternativos (como a ideia recente da instalação de um teleférico!) que conduziriam a uma pressão humana ainda mais incontrolável. Esta solução traria outros benefícios, nomeadamente económicos, para além dos ambientais. E pressupõe o encerramento da fronteira durante os períodos de condicionamento. Soluções como esta estão a ser implementadas (com sucesso) em áreas protegidas noutros países, nomeadamente em Espanha.

  • Estradão de acesso à cascata do Arado e Malhadoura a partir do cruzamento da Fonte do Arado (salvaguardando a circulação de pessoas residentes com atividades autorizadas na área a que a via dá acesso);
  • Estradão de acesso ao Porto da Lage a partir do cruzamento com a estrada alcatroada que percorre o PNPG na vertente norte do vale do Cávado e que dá acesso às aldeias (salvaguardando a circulação de pessoas residentes com atividades autorizadas nas áreas em que a via se encontra);
  • Estradão de acesso ao cume da serra Amarela – Muro/Louriça- (salvaguardando a circulação de pessoas residentes com atividades autorizadas na área em que a via se encontra e dos responsáveis pela manutenção do posto retransmissor);
  • Estradões de acesso ao Planalto de Castro Laboreiro, a partir da Portelinha e de Portos (salvaguardando a circulação de pessoas residentes com atividades autorizadas na área em que as vias se encontram);
  • Estradões envolventes do vale do Ramiscal, a partir de Travanca, da Lombadinha, de Lordelo e da Branda dos Homens/Batateiro (salvaguardando a circulação de pessoas residentes com atividades autorizadas na área a que as vias dão acesso);

A Carta de Desporto e Natureza, em tempos objeto de discussão, incluía um conjunto de propostas que colocavam em causa a salvaguarda de valores naturais sensíveis. Nomeadamente a prática da escalada em Pé de Cabril, do «canyoning» no Conho (troço Servas/Pigarreira), afluente do Fafião. Importa saber em que pé ficou este estudo. O que na Peneda-Gerês não escasseia são zonas propícias para banhistas. Neste contexto é de todo intolerável a manutenção de áreas balneares em espaços da maior importância para a conservação dos ecossistemas naturais. Entre elas evidenciam-se as cascatas no rio Homem junto à ponte de acesso à Portela do Homem. O respeito pelo Parque Nacional impõe a proibição definitiva desta realidade aberrante na área de Ambiente Natural (AAN). A estrada para a fronteira levou à fragmentação da sua Área de Proteção Total (APT) e concede um acesso fácil a estas cascatas. 

Num momento em que de novo se discute o ordenamento das albufeiras, importa manter livres de qualquer atividade motorizada os espelhos de água das barragens de Paradela e de Vilarinho da Furna, atendendo à sua localização, extremamente sensível. Não faltando alternativas na região, este é uma das questões com que se testa o caráter nacional do PNPG, o respeito pela sua integridade, a visão nacional que o mesmo impõe. Seria inaceitável uma visão concelhia, local, baseada na ideia de que nenhuma autarquia pode ser «prejudicada» se não lhe for concedido o mesmo direito de «aproveitar», como as demais, a albufeira inserida no seu concelho.

A grande debilidade do corpo de vigilância do Parque Nacional é evidente. Impõe-se um reforço urgente de meios humanos, que com a sua atividade devidamente dignificada e dotados de melhores recursos devem ver facilitada a sua insubstituível missão: vigiar, informar, sensibilizar, zelar para que se cumpra a legislação vigente. Missão que deve ser também a de contribuir para a recolha de informação sobre o estado de conservação de habitats, das populações de flora e fauna.

O reforço das importantíssimas equipas de sapadores, em curso, deve prosseguir. Para a estratégia de recuperação do coberto vegetal que adiante se defende, a deteção precoce de fogos é um vetor chave. Para tal importa reforçar a rede de postos fixos de vigilância, nomeadamente em pontos críticos. Os vales do Cabril (serra Amarela) e do Ramiscal e outras manchas florestais da maior importância não estão devidamente acautelados. Nos momentos de grande risco, que com as alterações climáticas podem ocorrer em qualquer época do ano, estes espaços estão quase sempre abandonados à sua sorte. A repetição de desastres ambientais como os verificados nas duas últimas décadas, precisamente no Cabril e no Ramiscal, seria intolerável.

O Ramiscal, em particular, levanta um outro problema, sucessivamente ignorado, e cuja resolução se torna mais problemática a cada dia que passa. Trata-se de uma das áreas mais importantes do Parque Nacional, mas que se encontra numa situação muito fragilizada, uma vez que a sua diminuta dimensão coloca os limites das zonas mais sensíveis praticamente sobre os limites da própria área protegida. Impõe-se pois uma redefinição dos limites da Peneda-Gerês no sentido de salvaguardar outras áreas também valiosas e que devem servir de tampão para os redutos a que a lei conferiu um mais elevado estatuto de proteção. A faixa de território a norte do vale do Ramiscal, até às brandas do vale do Vez (Aveleira, St. António de Poldras e, a sul, até limites mais a poente do Mezio (Vilar de Suente), evidenciam-se.

A caça desportiva no interior do Parque Nacional deve caminhar para a extinção. Até lá impõe-se limitar rapidamente o seu exercício aos praticantes que residem no PNPG, excluindo de imediato todos aqueles que normalmente são identificados como naturais, para quem o território se transformou num espaço de visita, num local de recreio, numa coutada de fim-de-semana, pois nele já não vivem, nem dele depende a sua subsistência. Relativamente à caça importa esclarecer se o que a lei alterou na Revisão do Plano de Ordenamento de 2011 está a ser respeitado. À época existiam zonas de caça associativa que a partir dessa altura ficaram parcialmente dentro da nova Área de Ambiente Natural, alargada nessa revisão. As concessões não podiam ser renovadas uma vez expirados os períodos ainda vigentes nessa data. 

A extinção da caça também se impõe para que a pressão do lobo sobre o gado diminua e consequentemente sejam minimizados os conflitos com as comunidades humanas. De uma forma sustentada o lobo tem que encontrar as alternativas de alimento, as alternativas silvestres, as alternativas naturais, que se revelarão ainda mais necessárias com o confinamento do gado que a seguir se defende. E se o gado doméstico não pode continuar a ser uma importante fonte de subsistência para o lobo, porque tal contraria os princípios, porque tal gera um mal-estar prejudicial para todos, a gestão, ou melhor dizendo, a produção de presas silvestres para satisfação de atividades lúdicas humanas é uma atitude frontalmente contrária ao princípio que tem de prevalecer num parque nacional. 

Finalmente o importante dossier do pastoreio. O tipo de exploração que hoje se pratica, com gado, essencialmente bovino e equino, pastoreando livre, por norma ao longo de todo o ano, sem qualquer acompanhamento e não respeitando qualquer tipo de ordenamento do território revela-se o fator que mais degrada os valores naturais da área protegida. Os animais são em muitos casos propriedade de não residentes, alguns muito arredados do território, apenas movidos pelo interesse da obtenção dos subsídios que a União Europeia concede. A este tipo de exploração estão associados os fogos, especialmente queimadas, levadas a cabo em espaços cuja vegetação nativa foi sendo destroçada também por esta prática ancestral. Tal como para a caça, impõe-se aqui uma discriminação positiva dos residentes, libertando progressivamente o território da pressão exercida por quem do exterior já não convive diariamente com ele. 

O gado pertença dos cidadãos residentes deve ser ordenado, impedindo o seu acesso a zonas onde a preservação dos valores naturais é prioritária, desde logo em toda a Área de Proteção Total. As medidas que se sugerem são expostas mais à frente quando se abordarem as questões que se prendem com a recuperação de habitats. Importa mais uma vez evidenciar que tratamos um parque nacional, não uma reserva de caça desportiva, como em grande parte ele é na prática. Nem um imenso jardim zoológico ou um espaço onde as populações animais, concretamente as designadas cinegéticas têm sido geridas para servir os interesses lúdicos dos humanos. 

Privilegiar a preservação da natureza tem custos, gera constrangimentos? Sim. Por isso temos que assumir esses encargos e quem com ela diretamente convive deve ser compensado. Devemos ser todos, a nível nacional. Porque o parque diz-se e quer-se isso mesmo. Nacional.

3. Cidadãos residentes, participantes de um projeto que os deve incluir e discriminar positivamente

Parque Nacional da Peneda-Gerês, Inverno de 2021. Foto: Miguel Dantas da Gama

A preocupação de melhorar as condições de vida de quem reside no interior do Parque Nacional é uma obrigação, uma questão de justiça mas também um imperativo para que se garanta a sua correta salvaguarda. Se não é aceitável o discurso do politicamente correto de que o que subsiste às comunidades residentes se deve, também não é aceitável que, para elas, não se concedam alguns privilégios pelo facto de coexistirem num território onde, para benefício de todos, foi delimitada uma área protegida e onde por isso se impõem regras que nalguns casos podem ditar limitações, como anteriormente referido. 

Ao que já foi defendido importa acrescentar a imperiosa necessidade da concretização de medidas ativas, ações concretas nesse sentido. A exploração pecuária que hoje predomina, em que o gado pasta abandonado sem a companhia e a vigilância de pastores exige um maior ordenamento do território, a criação de espaços em que ele se mantenha confinado. O apoio do Estado tem que ser neste sentido, ajudando na construção de cercados e prevendo medidas de melhoria de pastagens em torno das povoações. 

A atribuição de indemnizações por danos causados pelos lobos tem que ser rápida e eficaz e até afetada por um coeficiente que acrescente uma compensação adicional justificada pelo dano afetivo que a perda dos animais implica para os seus donos. A disponibilização de cães de guarda, apontada frequentemente como uma medida de apoio à minimização dos ataques de lobos, apenas resulta junto dos últimos pastores de rebanhos de cabras e ovelhas. Para o gado de maior porte, quase sempre abandonado como já se evidenciou, os cães-pastores não fazem qualquer sentido. 

A propósito do lobo há também que lamentar o retrocesso legal verificado. A legislação recentemente revista descriminalizou a perseguição humana contra a espécie, que continua ativa com a eliminação cruel de lobos, barbaramente aprisionados em laços ilegais, abatidos a tiro e envenenados, com a agravante de prever agora que os proprietários de gado apenas sejam ressarcidos pelos danos atribuídos aos lobos se confinarem os seus animais e os acompanharem nas pastagens livres, o que, como já foi dito, com o actual perfil das explorações pecuárias é uma medida que se vira frontalmente contra o lobo. Aos detentores de gado é preferível pagar multas ridículas do que gastar verbas dispendiosas em estruturas (abandonadas) de confinamento. Com esta revisão da lei o Estado demonstrou estar apenas preocupado em reduzir substancialmente o montante das indemnizações, agravando a ira (e a perseguição) dos criadores de gado contra a espécie selvagem que a lei demagogicamente diz ser protegida.

As enormes verbas disponíveis, nomeadamente as provenientes da Europa Comunitária, muitas das quais se diz serem destinadas ao meio ambiente, têm que ser canalizadas, prioritariamente, para estas ações e não para infraestruturas lúdicas ou pseudoculturais com que os agentes locais pretendem trazer mais e mais gente ao território que em muitos casos apenas «retribui» com o lixo que deixa na serra. A população residente requer a prestação de serviços nas áreas da saúde e da educação. Quanto mais importante seria para os residentes, maioritariamente pessoas idosas, dispor da visita periódica de uma unidade médica móvel, de um serviço regular de transporte que das aldeias os levassem à sede do concelho para tratar dos vários assuntos que em muitos casos os obrigam a alugar transportes privados caros? São medidas que os próprios residentes devem reclamar como prioritárias, contrariando as modas que vão surgindo como passadiços e baloiços concentradores de pressão humana nos locais em que são executados, ou monumentos a vacas e «parques biológicos» em que se querem mostrar em cativeiro espécies cuja observação deveria ser motivada em saídas de campo devidamente acompanhadas para as procurar no seu estado selvagem, razão suplementar para que os investimentos sejam canalizados não para estes jardins zoológicos inexplicáveis em entradas de uma área natural, mas para os espaços serranos envolventes das Portas do Parque que tanto carecem de ações de recuperação do coberto vegetal, da sua flora e fauna autóctones. 

Restaurar devidamente o património (natural, cultural, histórico, arquitetónico) permite admitir que a sua usufruição seja de algum modo paga por quem visita o território. Concretamente alguns sítios (naturais, históricos). E uma rede de prestação de serviços, prioritariamente assegurados pelos residentes, em parceria com o Parque, só se justifica se no terreno houver «conteúdos» que valham a pena merecer uma atenção dedicada. Um serviço de guias em caminhadas devidamente informadas, a criação de documentação atualizada sobre o que apreciar no que se refere aos valores patrimoniais que o PNPG encerra são bens e serviços que só fazem sentido e só são sustentáveis se no território os visitantes mais atentos, conhecedores e exigentes, especialmente aqueles que têm poder de compra, os que tendem a melhor respeitar a natureza, encontrarem um património valorizado, conservado, distinto do que, degradado, abunda um pouco por todo o país. Um património de que todos podem e devem beneficiar. 

Por todas estas importantes razões, impõem-se ações de recuperação e de valorização que a seguir se apresentam.

4. Recuperação da vida selvagem, da flora e fauna

Foto: Miguel Dantas da Gama

São ações ambiciosas, motivações para a mudança que o único parque nacional português reclama desde o dia em que foi criado, já lá vai meio século.

Tal como inicialmente referido, em parte do território do Parque Nacional têm que ser garantidas parcelas onde a preservação da natureza não seja apenas uma prioridade mas sim o objetivo único. Tal está previsto no zonamento aprovado no Plano de Ordenamento e designa-se Área de Proteção Total. Inclui os vales do Cabril e do Ramiscal que urgentemente devem ficar livres de qualquer intervenção humana e passarem para a alçada do Estado com o mesmo estatuto da Mata de Albergaria (nem de uma expropriação se tratará, o que em todo o caso seria mais do que justificável). Ambos requerem a interdição do pastoreio o que neste momento só se garante com a vedação total destes redutos, numa intervenção, que devidamente concertada com os pastores impeça a entrada de gado bovino e equino mas salvaguarde a livre circulação de fauna selvagem de maior porte, como lobos, corços, veados e javalis. 

A recuperação do coberto vegetal e a eliminação das espécies exóticas infestantes é a ação que merece destaque no conjunto das intervenções propostas. 

 A ligar as várias parcelas de maior interesse natural (AAN, APT em particular), sugere-se a criação de um corredor de floresta nativa, uma mancha mais ou menos contínua de bosque autóctone que atravesse todo o território. Uma «faixa» de arvoredo e demais vegetação característica dos carvalhais naturais com o objetivo maior de ligar, recuperar, reforçar núcleos residuais onde sobrevivem populações fragilizadas, algumas à beira da extinção, de fauna e de flora endémica da região onde o PNPG se insere. Uma intervenção baseada na recolha de sementes originárias do melhor que resta. O estabelecimento deste corredor de floresta nativa deve incluir o reforço e a expansão de espécies seriamente ameaçadas e cuja presença é fundamental para a recuperação dos vários tipos de habitat que importa restaurar.

Neste contexto, trabalhar com as espécies arbóreas é a base de uma recuperação generalizada dos espaços. Partindo do arvoredo, recupera-se muita outra vegetação associada. O Parque Nacional possui 33 espécies nativas de porte arbóreo. Para algumas delas a Peneda-Gerês é importante por constituir o único ou o principal local de ocorrência ou ainda por ser parcela importante de uma distribuição muito confinada em Portugal. São os casos do zimbro-rasteiro (Juniperus communis), do pinheiro-silvestre autóctone, (Pinus sylvestris) do teixo (Taxus baccata), da nespereira-das-rochas (Amelanchier ovalis), da faia (Fagus sylvatica), do azereiro (Prunos lusitanica), da pereira-brava (Pyrus communis), de duas espécies de salgueiros (Salix caprea e Salix repens), de três espécies de sorveiras, a sorveira-branca, o mostajeiro e o cornogodinho (respectivamente Sorbus aria, Sorbus torminalis e Sorbus aucuparia) e do ulmeiro (Ulmus glabra). Destas essências autóctones importa realçar que, também na Peneda-Gerês, são raros os dois salgueiros, as três sorveiras e o ulmeiro. 

A elas se devem juntar quatro outras espécies que não sendo raras a nível nacional – atendendo a que têm uma distribuição que se alarga para fora do PNPG ou se situa em núcleos diferenciados – o são na Peneda-Gerês. A ameixoeira-brava (Prunos spinosa), a aveleira (Corylus avelana), a macieira-brava (Malus sylvestris) e a reliquial azinheira (Quercus rotundifolia). Estão assim encontradas as espécies que deveriam merecer uma atenção prioritária. Em dois escalões. As que são quase exclusivas do PNPG e ao mesmo tempo (nele) raras. E as que olhando o Parque Nacional isoladamente são também muito escassas. 

Excluindo o caso particular do pinheiro-silvestre (do qual foram elaborados estudos que relevam a importância extrema dos núcleos residuais existentes no interior da serra do Gerês), tratam-se de espécies que não estão ameaçadas num contexto internacional mas a sua ocorrência escassa ou ameaçada no Parque Nacional empobrece as manchas de bosque autóctone reduzindo ou inviabilizando a ocorrência de outras plantas e animais e o regresso das que por esta e outras razões se extinguiram. A reprodução destas espécies arbóreas nativas, em piores situações que as normalmente citadas, como o azevinho, o teixo, ou o azereiro, é pois muito importante para o reforço das respetivas populações.

E se a disseminação e a ampliação dos resquícios de floresta é importante, evitar que eles se percam exige que de imediato se protejam pequenos bosquetes de grandes exemplares arbóreos, o que resta das árvores antigas, atualmente isoladas pelo fogo, ameaçadas pelos matos e pelas queimadas associadas que foram dizimando tudo o que de importante com elas convivia, principalmente manta morta que as chamas devastadoramente «limpam». Espalhadas um pouco por todo o território do Parque Nacional devem beneficiar de ações cirúrgicas de proteção, da construção de pequenos cercados que as isolem da pressão do gado e promovam a regeneração natural. Bosquetes em que se destacam diminutas manchas de azevinhos centenários e os pinheiros-silvestres primitivos sobreviventes que o Parque Nacional finalmente decidiu estudar e começar a disseminar. Mas disseminar estas relíquias sem que paralelamente tudo se faça para evitar a perda do que do passado sobreviveu até aos nossos dias, não faz sentido.

Ramificações deste grande corredor de floresta autóctone para áreas rurais envolventes das aldeias devem ser fomentados para benefício futuro das populações residentes criando um recurso que, para ficar disponível, tem que ser semeado o mais depressa possível e ser merecedor de um trabalho desenvolvido com empenho e persistência porque é moroso e leva tempo. Neste contexto importa insistir na reconversão progressiva das manchas mono-culturais de pinheiro-bravo, como defendia Lagrifa Mendes no seu projeto inicial, cuja apresentação antecedeu a criação da Peneda- Gerês. 

Esta intervenção prioritária sobre o coberto vegetal requer a reativação dos antigos viveiros florestais e deve ser acompanhado de um plano igualmente tenaz, insistente e duradouro para irradicação das manchas de espécies infestantes que destroem o Parque de uma forma avassaladora. 

Nesta proposta de plano de ação para os próximos cinquenta anos de vida do Parque Nacional importa agora aludir ao novo modelo de cogestão, recentemente implementado na Peneda-Gerês e com o qual a Tutela do Ambiente transferiu para uma equipa alargada, presidida por um dos autarcas, a gestão da área protegida nomeadamente o estabelecimento de um plano de ação e o consequente estabelecimento das prioridades de investimento. Esta mudança é profundamente contrária aos interesses conservacionistas de um espaço classificado que mais uma vez vê desrespeitado o estatuto nacional que o devia diferenciar das restantes áreas protegidas. Depois de ter perdido um diretor autónomo, depois de ter perdido também autonomia financeira, de recursos humanos e materiais, esta alteração de gestão poderá comprometer definitivamente o projeto inicial, inspirador, que levou à criação do único parque nacional português. Acresce o facto de recente portaria definir como critérios de avaliação do bom desempenho desta comissão de cogestão, não a evolução do estado de conservação do património natural, mas parâmetros que mais uma vez insistem, na melhoria das condições de usufruição, em chamar mais gente ao território, pressupondo que tudo está bem e ignorando que os valores naturais não aguentam uma pressão humana crescente num território encarado como mais uma região de turismo disfarçada pela chancela de área protegida.

Por ser uma alteração legal de difícil reversão, importa dizer que chegou a hora do poder autárquico ser coerente com o discurso crítico que ao longo destas cinco décadas assumiu contra a autoridade nacional do ambiente (ICNF e organismos que o antecederam) tudo fazendo para promover a grande limpeza que se impõe no território do Parque Nacional. Principalmente o município de Terras de Bouro, mas também o de Ponte da Barca, devem encabeçar a luta para a erradicação das acácias, das mimosas em particular, dos núcleos crescentes de hakia-picante (principalmente na serra Amarela) e de outras infestantes, substituindo-as por arvoredo autóctone e não mais pelas monoculturas de pinheiro-bravo que tanto criticaram também ao Estado Novo. Uma verdadeira reflorestação (não uma simples arborização) com espécies nativas, também benéfica para a economia das comunidades residentes. Um investimento que traga madeiras nobres, frutos e outros produtos comercializáveis, que potencie um turismo de maior qualidade, maiores e melhores condições para travar o flagelo dos incêndios, em suma, melhor qualidade de vida. Considerando e reconhecendo os muitos esforços já despendidos nesse sentido, as extremamente onerosas intervenções, de vários tipos e os intermitentes e fracos resultados obtidos, importa insistir na defesa de uma intervenção, necessariamente prolongada no tempo, que inicialmente incida nos núcleos mais importantes a salvar. Começando em cada um deles por criar um anel de contenção que circunscreva as manchas a recuperar, limpando e reflorestando, com um acompanhamento incessante nos primeiros anos, nos limites exteriores das manchas afetadas de forma a controlar e impedir a expansão e paralelamente a recuperar, reconvertendo. A partir daí ir progressivamente entrando na mancha, sempre com o mesmo perfil de atuação, até que o coberto refeito naturalmente impeça a sobrevivência das espécies exóticas. Tal implica uma incidência, prioritária, na aplicação dos recursos financeiros.

Trabalhar com espécies de fauna selvagem é motivador. Fazer regressar espécies extintas é particularmente aliciante. 

A execução da maioria das ações anteriormente defendidas não deixará de dar frutos na recuperação de populações de animais selvagens, principalmente de espécies de aves de montanha para as quais este território (nomeadamente os dois planaltos extremos de Laboreiro e da Mourela) constitui o limite sul da sua área de reprodução no extremo noroeste da Península Ibérica como o cartaxo-nortenho (Saxicola rubetra), a escrevedeira-amarela (Emberiza citrinella), o tartaranhão-azulado (Circus cyaneus), o picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio), a narceja-comum (Gallinago gallinago). Medidas que poderão também facilitar visitas mais assíduas de preciosidades que quase deixaram de ocorrer na Peneda-Gerês como o melro-de-peito-branco (Turdus torquatus), o pardal-alpino (Montifringilla nivalis) e a trepadeira-dos-muros (Tichodroma muraria). E até o regresso de outras há muito extintas como é o caso do peto-preto (Dryocopus martius). A sobrevivência de répteis e anfíbios e de uma infinidade de espécies de invertebrados também requer estas mesmas ações, uma vez que se encontram particularmente expostas aos efeitos das alterações climáticas que estas intervenções deverão mitigar.

Mas há espécies que requerem ações dedicadas. Entre elas ressalta a importância da prossecução das medidas que o Parque Nacional tem levado a cabo – apoiando os técnicos galegos do vizinho Parque do Xurés – com o objetivo de restabelecer uma população de águia-real (Aquila chrysaetos), através da libertação de mais indivíduos e a manutenção do alimentador de aves necrófagas presentemente em funcionamento. Uma população consistente da maior das nossas águias promove uma interação saudável com a crescente população de cabra-montês. Importa fazer notar, que a recuperação das populações de presas e a salvaguarda dos locais de reprodução, deveras importantes quando em causa está um superpredador tão exigente como este, estão fortemente condicionadas pela prática da caça e pela ausência do ordenamento do pastoreio e do turismo, já abordados.

São questões que condicionam também o regresso ao território de outras espécies que por estas e outras causas se extinguiram. É neste contexto que se insiste na reintrodução oportuna da charrela (Perdix perdix).

Depois da cabra-montês (Capra pyrenaica) um outro símbolo icónico da fauna ibérica pode e deve voltar a povoar as serranias da Peneda-Gerês. Avistar de novo o lince-ibérico (Linx pardina) é uma realidade cada vez mais próxima. Não apenas devido ao muito que já foi executado no programa de criação em cativeiro e de libertação a partir dos dois centros ibéricos criados para o efeito mas também pela manifestação de interesse de regiões autonómicas espanholas vizinhas em avançar com medidas ativas no sentido de expandir a área de ocorrência deste felino e de criar novos núcleos. A atitude, de louvar, que Castela-la-Mancha já tinha assumido a propósito da nova lei de proteção do lobo em Espanha, confirma-se em relação ao lince. O grau de acolhimento do «tigre», do «lobo-cerval» na Peneda-Gerês, depende da disponibilidade de habitat e da manutenção de uma população de coelho-bravo estável, o que nas condições atuais de forte pressão da caça e do fogo não está garantido. 

O quebra-ossos (Gypaetus barbatus) está na mesma situação. A expansão da distribuição da espécie na Península Ibérica não cessa de crescer devido às ações de repovoamento em várias regiões espanholas, nomeadamente na bem próxima cordilheira cantábrica. Portugal tem que convergir, associar-se ao crescente movimento de rewilding na Europa com medidas ativas assumidas pelo próprio Estado. E o rewilding sugere uma outra espécie cuja evolução na Península Ibérica tem gerado notícias empolgantes. A recente visita de um urso-pardo (Ursus arctos) a Trás-os-Montes, veio confirmar a possibilidade dos territórios fronteiriços de Portugal poderem ser limites (mesmo que intermitentes) de uma área de ocorrência da espécie que se alarga e que se aproxima do nosso país. Para esta espécie há muito trabalho a desenvolver. Recuperação de habitat (nomeadamente plantação de árvores frutícolas como a cerejeira-brava e a macieira-brava) e ordenamento do território, campanhas de informação e sensibilização junto das comunidades residentes que à imagem do que aconteceu na vertente ocidental da cordilheira cantábrica, poderão vir a reconhecer um dia o quanto beneficiarão com o regresso deste emblemático plantígrado.

A grandeza, a ambição do plano de intervenção aqui proposto reclama o retorno da autonomia da gestão do PNPG, a criação no território de uma forte e polivalente equipa técnica a liderar um Centro de Estudos de Montanha. 

*

O Parque Nacional da Peneda-Gerês anda frequentemente nas bocas do mundo, mas raramente para sobre ele se tratarem as questões com cujo debate se reconheceria estarmos perante um verdadeiro parque nacional, a mais importante das áreas protegidas da rede nacional, que carece de projetos de preservação da natureza ao nível do que de melhor se concretiza um pouco por toda esta Europa, da qual almejamos aproximarmo-nos, em termos económicos, sociais e culturais. Convivemos com uma realidade triste, desmotivadora, num território que contrariamente ao que revela o comportamento da maioria dos que dele usufruem, se encontra muito degradado e desprezado. Não bastam títulos e estatutos. Não bastam investimentos financeiros avultados, se o seu consumo contribui para torná-lo ainda mais frágil e pressionado. O erro maior de medir o valor do Parque Nacional pela quantidade (crescente) de visitantes que a ele acorrem, está a ser a causa da sua há muito anunciada perda. O que devia ser um projeto de preservação e conservação da natureza de valor nacional e internacional transformou-se numa simples região turística em que governantes nacionais e autarcas continuam a insistir e de cuja marca se aproveitam.

Que o dia 8 de maio de 20121, simbolicamente importante para o Parque Nacional da Peneda-Gerês, seja o ponto de partida de uma viragem. Que neste dia em que ele completa as suas cinco primeiras décadas de existência se projetem as próximas cinco para que nessa data, olhando para trás, se possa dizer que o sonho se concretizou, que nestas serranias do noroeste ibérico subsiste um reduto de natureza exemplar, o melhor contributo dos portugueses para a biodiversidade do planeta que a todos cabe assumir.


O Parque Nacional da Peneda-Gerês foi criado há 50 anos e as celebrações decorrem até 8 de Maio de 2021. Esta carta aberta encerra uma série de crónicas nas quais Miguel Dantas da Gama, profundo conhecedor desta área protegida, aproximou-nos deste recanto único no nosso país.

Hoje, este Parque Nacional abrange os concelhos de Arcos de Valdevez, Melgaço, Montalegre, Ponte da Barca e Terras de Bouro. As matas do Ramiscal, de Albergaria, do Cabril, todo o vale superior do rio Homem e a própria serra do Gerês são um tipo de paisagem que dificilmente encontra em Portugal algo de comparável.

O conteúdo Contributo para um plano de acção estratégico para os próximos 50 anos da Peneda-Gerês aparece primeiro em Wilder.

Há um novo guia para conhecer as aves de Vila Real, em Trás-os-Montes

Por Inês Sequeira

Águia-de-bonelli, cruza-bico e guarda-rios são algumas das espécies de aves retratadas na nova publicação lançada este sábado, dia 8 de Maio, no Dia Mundial das Aves Migratórias.

“Esta publicação, concebida num formato prático para o reconhecimento do território e a identificação de espécies, reúne 136 aves identificadas na área do município”, indica uma nota de imprensa sobre o novo volume, que é o segundo de uma colecção de cadernos de campo sobre a biodiversidade do concelho de Vila Real, lançadas pela autarquia. O primeiro número foi dedicado às borboletas nocturnas.

“O caderno de campo resulta do programa de monitorização da biodiversidade, implementado pelo município de Vila Real ao longo dos últimos anos, e é mais um passo importante na estratégia de sensibilização para o valor do património natural do concelho”, indicou à Wilder a vereadora de Ambiente da Câmara de Vila Real, Mafalda Vaz Carvalho, que coordena o projecto.

Trigueirão. Foto: Joaquim Beteriano

Na sua elaboração, participaram ainda equipas técnicas do município, tal como “colaboradores pontuais, académicos, estagiários, entusiastas e curiosos destas temáticas”.

O novo volume contém 136 fichas de identificação com dados que caracterizam cada espécie, acompanhadas de 555 fotografias, fornecidas por 43 fotógrafos nacionais e internacionais. “As imagens, para além de exibirem as principais características identificativas de cada uma das espécies, são complementadas com legendas que destacam as diferenças entre macho e fêmea, a postura corporal típica, o comportamento e o tipo de voo”, indica a nota de imprensa.

Rabirruivo-preto. Foto: Joaquim Beteriano

A sessão de lançamento, agendada para sábado às 15h00 no Teatro de Vila Real, prevê a distribuição gratuita do guia, que depois ficará disponível para venda no Centro de Ciência de Vila Real e na Agência de Ecologia Urbana do município. Mais tarde, vai ficar também guardado em Biblioteca Digital, com acesso aberto para todos os interessados.

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Governo recebe proposta para criação do Parque Natural Marinho do Recife do Algarve

Por Inês Sequeira

A Fundação Oceano Azul e o CCMAR – Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve entregaram esta sexta-feira ao Governo uma proposta para a criação de uma nova Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário no Algarve: o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado.

“Esta proposta inédita foi construída através de um processo participativo, ao longo de quase três anos e envolvendo mais de 70 entidades e baseado numa sólida fundamentação científica”, afirmam as duas entidades numa nota de imprensa conjunta.

Depois de um longo processo de consultas, a proposta avança que o futuro Parque Natural Marinho do Recife do Algarve deverá situar-se entre o Farol da Alfanzina e a Marina de Albufeira e estender-se até aos 50 metros de profundidade, totalizando 156 quilómetros quadrados.

Limites propostos para a Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário. Imagem: CCMAR

O maior recife rochoso costeiro do Algarve – que é também o maior recife rochoso costeiro a baixa profundidade de Portugal – está localizado na zona costeira dos concelhos de Albufeira, Lagoa e Silves, na zona do Barlavento. É considerado “um ecossistema ímpar no continente português, que beneficia de condições naturais que favorecem uma biodiversidade marinha e produtividade únicas”, onde habitam quase 900 espécies.

Os estudos já realizados mostram que ao longo deste recife há condições oceanografias únicas, “que favorece, o desenvolvimento e sobrevivência larvar de várias espécies de peixe, como a sardinha, funcionando como zona de reprodução, refúgio e crescimento para inúmeras espécies”, adianta a mesma nota de imprensa.

Cavalo-marinho (Hipocampus guttulatus). Foto: Inês Sousa / CCMAR

No total, os cientistas encontraram 889 espécies na área do futuro parque marinho, incluindo 703 invertebrados, 111 peixes e 75 algas. De todas estas espécies, 19 têm um estatuto de protecção, como é o caso dos cavalos-marinhos e do mero. Há ainda 45 espécies novas para Portugal, entre as quais 12 novas para a ciência, que nunca tinham sido observadas em mais nenhum local.

Gorgónias. Foto: Pedro Veiga / CCMAR

Na área são conhecidos também seis novos habitats identificados na costa sul do Algarve – incluindo os jardins de gorgónias (corais em forma de leque), protegidos pela convenção OSPAR – Convenção para a Protecção do Meio Marinho do Atlântico Nordeste, e ainda comunidades de algas castanhas e calcárias e de bancos de ofiurídeos (seres aparentados com as estrelas-do-mar). Outro habitat protegido são as pradarias de ervas marinhas (Cymodocea nodosa).

Abrótea. Foto: Inês Sousa / CCMAR

Pressões da pesca e do turismo massificado

Conservar de forma eficaz os valores naturais, promover a pesca local e o desenvolvimento de actividades recreativas sustentáveis e também a realização de actividades culturais e educativas relacionadas com o oceano e o Recife do Algarve são os quatro grandes objectivos para a criação desta área marinha protegida.

Em causa está reverter “o declínio da pequena pesca, o aumento da pressão sobre os recursos e a explosão do turismo massificado, demonstrados nos estudos da Universidade do Algarve”.

A vontade de criar o novo parque marinho surgiu face aos alertas de entidades locais para a necessidade de proteger o recife e também a pequena pesca artesanal. Foi então que teve início um processo participativo que se prolongou por dois anos, liderado pela Fundação Oceano Azul e pelo CCMAR, com o envolvimento da Associação de Pescadores de Armação de Pêra, dos municípios de Albufeira, Silves e Lagoa, e da Junta de Freguesia de Armação de Pêra.

“Em 2018 lançaram-se as bases para a criação de uma Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário suportada por sólida fundamentação técnica e científica e definida através de um processo participativo, inclusivo, construído ‘de baixo para cima’ que, por um lado, proteja e valorize este capital natural e que, por outro, garanta da melhor forma os interesses e necessidades da comunidade de que dele dependem”, explica Jorge Gonçalves, investigador do CCMAR, citado na nota de imprensa. 

Polvo. Foto: Pedro Veiga / CCMAR

“Nunca foi tão urgente proteger o oceano e criar ferramentas de conservação”, referiu por seu turno Tiago Pitta e Cunha, CEO da Fundação Oceano Azul, salientando que Portugal é “detentor de uma das maiores zonas económicas exclusivas da União Europeia” e por isso pode vir a ter “um papel fundamental na liderança destas questões a nível internacional”.

“As áreas marinhas protegidas, quando devidamente desenhadas e implementadas, produzem mais peixes, peixes maiores e sustentam uma maior diversidade de espécies”, acrescentou o mesmo responsável. “Podemos ter uma atividade económica mais valorizada, com maior retorno para a pesca, um turismo mais sustentável, valorizando os territórios, as atividades e os produtos do mar.” 

Modelo de cogestão

Cabe agora ao Governo analisar as propostas e aprovar a criação do novo parque marinho. A cumprirem-se as sugestões em cima da mesa, a nova área protegida vai seguir um modelo de cogestão, “com a participação activa das entidades e organizações locais”. Isto, sem prejuízo da “participação decisiva das entidades representativas do Estado” com responsabilidades nas áreas da conservação da natureza, pescas, turismo e vigilância dessas actividades, indica o documento divulgado esta sexta-feira.

Zonamento da Área Marinha Protegida de Interesse Comunitário. Imagem: CCMAR

O modelo proposto inclui a criação de uma área de protecção total de quatro quilómetros quadrados, a zona de maior biodiversidade marinha, onde estão proibidas a passagem e quaisquer actividades, com excepção de estudos científicos.

Está prevista também uma área de protecção parcial na crista do recife, com 16,5 quilómetros quadrados, “onde se pretende a protecção de uma zona de interesse ecológico elevado”, que une as duas áreas com mais importância para a biodiversidade marinha. Aqui serão apenas permitidas actividades não extractivas, “sustentáveis e devidamente regulamentadas”, como mergulhos e passeios.

Muito maior é a área de protecção complementar, com 135 quilómetros quadrados, que abarca grande parte do recife rochoso e onde vai ser permitida a pequena pesca artesanal. Por sua vez, vão ser criadas zonas de protecção especial na costa, com regras específicas, para protecção das ervas marinhas e poças de marés, que terão por exemplo espaço para actividades de educação ambiental.

Na zona exterior do recife, poderão operar todas embarcações de pesca, mas por toda a área protegida são excluídas as artes arrasastes: o arrasto, a ganchara e a xávega. De igual forma, “a aquacultura, as dragagens comerciais e a alimentação de praias – a não ser por razões de necessidade extrema e segurança da costa – ficam interditas em toda esta área marinha.

A Fundação Oceano Azul e o CCMAR acreditam que a implementação deste novo parque marinho vai traduzir-se num “processo gradual de curta duração, entre um a três anos, para adaptação e interiorização de procedimentos e regras”. Numa primeira fase, deverá entrar em vigor a área de protecção total e metade da área de protecção parcial, a Este do recife. Numa segunda fase, será implementada a restante área de protecção parcial, a Oeste do recife.

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O que procurar na Primavera: a malva-de-três-meses

Por Carine Azevedo

Por estes dias, as plantas com flor continuam a brindar-nos e encantam-nos com as suas cores vibrantes e exuberantes e aromas únicos. As temperaturas amenas e agradáveis marcam a mudança da paisagem e os polinizadores ficam mais ativos, pois a abundância de alimento é muito mais elevada. Para as abelhas, borboletas e muitos outros polinizadores, esta é sem dúvida uma época de festa.

Nos campos agrícolas, nos prados, nas bermas de caminhos e em muitos outros locais surgem agora, com flores muito marcantes, as malva-de-três-meses (Lavatera trimestris) – também vulgarmente conhecidas como lavatera-de-três-meses, malva-rosa ou malva-real.

A malva-de-três-meses

A malva-de-três-meses é uma planta herbácea e anual da família Malvaceae, uma das grandes famílias botânicas, com relevância ornamental. Esta é formada por plantas herbáceas, arbustos, árvores e lianas, algumas bem conhecidas dos nossos espaços verdes, como os hibiscos (Hibiscus spp.), as lanternas (Abutilon spp.) e as dombeias (Dombeya spp.).

Esta planta forma um pequeno arbusto, que pode chegar aos 90 a 100 cm de altura. Possui caules ramificados, eretos ou ascendentes, geralmente muito peludos, de cor verde, por vezes avermelhados. As folhas verdes ligam-se aos caules por longos pecíolos, dispõem-se de forma alternada e são de dois tipos. As folhas que se situam na parte superior são geralmente mais pequenas e trilobadas – em forma de triângulo – e as que se situam na parte inferior são cordadas – mais arredondadas, em forma de coração. A folhagem é contrastante com as flores, no entanto não possui características marcantes do ponto de vista ornamental. 

Foto: Agnieszka Kwiecień / Wiki Commons

A abundante floração da malva-de-três-meses ocorre entre os meses de abril e junho, com um coloração rosa forte e marcante. As flores são solitárias, hermafroditas (femininas e masculinas) e grandes, podendo chegar aos 10 cm de diâmetro. Surgem nas axilas das folhas superiores em pedúnculos, mais compridos que os pecíolos das folhas. São radialmente simétricas, possuem cinco pétalas em tons de rosa intenso ou pálido, por vezes lilás ou branco, com estrias mais escuras, criando um efeito e a textura de um leque. Assim como acontece com as folhas, as flores superiores são diferentes das que surgem nos andares inferiores dos caules. 

Além destas características particulares das flores, o conjunto floral é duplamente protegido. Para além de possuir 5 sépalas verdes, triangulares, que constituem o cálice, existe uma outra estrutura – o epicálice – situada abaixo do cálice, formada por 3 brácteas, também elas verdes e triangulares, que vão crescendo e protegendo o fruto até à sua maturação. 

Foto: Joanna Boisse / Wiki Commons

O fruto não tem características marcantes, passando despercebido. É do tipo esquizocarpo, dividido em poções equivalentes, em doze mericarpos, portadores de sementes e cobertos por um disco expandido do eixo central.

O nome genérico Lavatera é dedicado a Heinrich Lavater, médico e naturalista suíço do século XVII e aos seus filhos (Johann Heinrich Lavater e Johann Jacob Lavater) também eles médicos e naturalistas. A designação trimestris, deriva do latim e significa “três meses”, referindo-se ao rápido crescimento, desenvolvimento e floração desta planta – desde que nasce até que floresce bastam três meses.

Silvestre a ornamental

A malva-de-três-meses é uma espécie nativa da região do Mediterrâneo, de Marrocos, Espanha e sul da França até à Turquia e Levante, incluindo as Ilhas Baleares, Córsega, Sardenha, Sicília, Malta e Grécia. 

Em Portugal ocorre espontaneamente, sobretudo no Litoral Centro e no Sul do território continental, tendo sido introduzida no arquipélago dos Açores, onde também se tem desenvolvido muito bem. É frequente em campos de cultivo ou em pousio, em prados, em terrenos incultos, na berma de caminhos, taludes e em clareiras de matos.

Esta planta tem preferência por locais de exposição solar plena e é razoavelmente tolerante a diferentes tipos de solo. Desenvolve-se em solos argilosos, arenosos e calcários, desde que sejam bem drenados, não excessivamente férteis e que não sejam ácidos. Solos encharcados promovem o seu mau desenvolvimento e por consequência o apodrecimento das suas raízes, podendo levá-la à morte.

É uma espécie bastante resistente à seca. Em regiões mais frias não se desenvolve bem, não sendo tolerante ao frio nem às geadas.

Pela beleza e abundância de flores, por possuir uma ramificação volumosa que lhe confere um aspecto vivo e intenso e pelo rápido crescimento, a malva-de-três-meses é muito apreciada como planta ornamental, sendo muito cultivada em jardins, sobretudo de estilo mais campestre. 

É perfeita para a formação de maciços, bordaduras, floreiras e em vasos. O facto de ser uma espécie bastante resistente à seca tem conduzido a que seja amplamente empregue em jardins rochosos e áridos e também é frequente em misturas de sementes de flores silvestres. Pelo elevado interesse que tem revelado do ponto de vista ornamental, foram desenvolvidos numerosos cultivares que privilegiam um menor tamanho da planta e uma maior gama de cores das flores.

Foto: Joanna Boisse / Wiki Commons

A malva-de-três-meses também é muito importante do ponto de vista ecológico. As suas flores são bastante atrativas para abelhas e borboletas, que se alimentam do seu néctar.

Esta planta possuiu ainda outras qualidades e aplicações interessantes. As folhas mais jovens são comestíveis cozinhadas, adicionadas em sopas e em saladas. Do ponto de vista medicinal é reconhecida pelas suas propriedades antirrugas, calmante, anti-inflamatória, expetorante e hidratante. A tisana de folhas de malva-de-três-meses é útil em afecções do sistema digestivo, urinário e respiratório. Tem também aplicações na cosmética e na perfumaria.

Lavatera ou Malva

As espécies do género Lavatera podem ser muitas vezes confundidas com outras plantas da mesma família, pertencentes ao género Malva, com as quais também partilham por vezes os mesmos nomes comuns. As espécies destes dois géneros possuem uma folhagem e floração muito semelhantes, além de crescerem frequentemente nas mesmas condições edafo-climáticas.

As espécies do género Malva são nativas da região mediterrânica e da Eurásia e como o género Lavatera, podem possuir porte herbáceo, arbustivo ou arbóreo, e ciclos de vida anuais, bianuais ou perenes. 

A principal característica que distingue estes dois géneros tem a ver com uma característica morfológica particular. O epicálice, estrutura que se forma na base da flor, abaixo do cálice possui brácteas soldadas (fundidas) no género Lavatera e livres no género Malva. No entanto existe alguma controvérsia entre os taxonomistas nesta diferenciação de géneros, uma vez que o grau de fusão das brácteas é muito variável de espécie para espécie dentro de cada um dos géneros.

Foto: Joanna Boisse / Wiki Commons

Em Portugal, além destes dois géneros, surgem de forma espontânea outros géneros da família Malvaceae: o género Althaea e o género Hibiscus. 

A malva-de-três-meses é conhecida desde a antiguidade pelas suas propriedades medicinais e pelas suas qualidades ornamentais e é sem dúvida uma espécie silvestre bastante interessante. Na linguagem das flores, a malva-dos-três-meses evoca abundância, profusão e doçura. 


Dicionário informal do mundo vegetal: 

Trilobada – folha simples que possui margens profundamente recortadas que a dividem em três pequenos lobos, no entanto, menores que a metade do limbo (parte principal da folha)

Lobo – cada uma das partes do limbo da folha, largas e em regra arredondadas

Cordada – folha de limbo arredondado que possui um chanfro (corte em ângulo ou de esguelha) na base e com a forma de um coração 

Epicálice – estrutura formada por brácteas, situada na base do cálice, semelhante a outro cálice, em geral mais pequeno e que tem a principal função de proteção dos órgãos reprodutores

Esquizocarpo – fruto seco que na maturação se divide em frutos parciais

Mericarpo – porção do fruto formado a partir de cada carpelo e que se separa naturalmente, contendo uma semente

Carpelo – peça floral feminina que após a fecundação dará origem ao fruto

Bráctea – folha modificada, localizada na base da flor, que a protege enquanto está fechada


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.

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Tudo o que precisa de saber para se iniciar na contagem de aves

Por Joana Domingues / SPEA

A primeira reação de muitas pessoas que nunca ouviram falar em censos de aves é a estranheza. Como se contam? Joana Domingues, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), explica-lhe para que serve esta actividade e como dar os primeiros passos.

Na maioria das vezes, as aves andam lá longe, ou estão escondidas, ou são demasiado rápidas para as conseguirmos ver com alguma precisão. Mas na verdade é possível fazê-lo e há algumas técnicas que ajudam.

Desde logo, a prática e a atenção são a base de tudo. E se alguns censos de aves requerem graus de conhecimento muito especializado, muitos outros abertos à participação cidadã não requerem muita experiência. Para quem está a começar, podem ser uma forma de ir treinando e despertando para o que o rodeia.

Mas há uma pergunta que surge muitas vezes: qual é a utilidade dos censos? Os dados recolhidos nestas ações são muito importantes para os cientistas e ornitólogos, que não têm forma de estar em todo o lado. A informação recolhida é a base do trabalho das entidades que trabalham na preservação de espécies, pois ajuda a avaliar a evolução das populações e a analisar aquelas que necessitam de estudos mais aprofundados. Só assim se tomam decisões informadas e se determinam que espécies necessitam de medidas de conservação mais urgentes.

Se quer ser um cidadão ativo pela natureza, damos-lhe algumas dicas de por onde deve começar:

Como posso identificar uma ave?

Um rapaz olha para o céu por um par de binóculos
Foto: SPEA

Quando observa alguma ave que desconhece, é importante que faça algumas perguntas rápidas a si próprio: 

É do tamanho de um pardal, de um melro ou de um pombo?

A maioria dos guias de aves indicam o comprimento de cada espécie, mas isso poderá ser difícil de estimar quando fizer as primeiras observações. Nestes casos, uma boa ajuda é comparar mentalmente a espécie que está a observar com uma que conheça bem. 

Tem asas muito compridas?

Nalguns casos, como acontece com as aves de rapina, tanto a envergadura de asas (medida da ponta de uma asa à ponta da outra) como o tipo de voo (planado versus batimento de asas contínuo, por exemplo) podem ser mais uma ajuda preciosa para saber que espécie está a ver.

Águia-real (Aquila chrysaetos). Foto: Juan Lacruz / Wiki Commons
Chapim-rabilongo (Aegithalos caudatus). Foto: Charles J. Sharp

Qual a forma?

É esguia ou “rechonchuda”? Tem a cauda bifurcada? O bico é fino ou grosso, curvo ou direito? As patas são compridas ou curtas? O pescoço é comprido? A silhueta da ave em voo pode ajudar a identificá-la, e a forma do corpo, bico e patas são também pistas úteis.

Qual a cor ou cores?

A cor da ave, e sobretudo manchas de cor diferente, são muito úteis na identificação. Mas é bom não esquecer que em muitas espécies as cores variam com o sexo, a idade ou mesmo com a época do ano, e que as condições de luz podem enganar.

Ouviu o  canto da ave?

À medida que vai ganhando experiência, começará certamente a reconhecer o canto e os chamamentos de algumas espécies. Se puder acompanhar ornitólogos mais experientes, eles vão abrir-lhe certamente as portas para um novo mundo de identificação de aves. No site xeno-canto pode ouvir gravações de inúmeras espécies, feitas por observadores.

Houve algum comportamento que se destacou?

Algumas aves têm comportamentos inconfundíveis: depois de os ver uma vez, nunca mais terá dúvidas. A forma como as trepadeiras caminham pelos troncos das árvores ou o abanar de cauda de uma alvéola vão passar a saltar-lhe à vista para rapidamente ajudar na identificação.

Trapadeira-comum (Certhia brachydactyla). Foto: Jac. Janssen / Wiki Commons

Quando e onde observou a ave?

A época do ano e o local onde avista uma ave podem ser igualmente cruciais para a identificar. Algumas espécies apenas ocorrem nalgumas zonas do nosso país, preferem determinados habitats ou só nos visitam no inverno, por exemplo.

Continuar sempre a treinar!

A melhor forma de aprender a identificar aves é ir para o campo. Mas nas alturas em que não puder, um recurso útil pode ser o site BirdID, que permite treinar-se com fotos e sons, e até fazer um teste e obter um certificado.

Código de conduta de um observador de aves

Guarda-rios (Alcedo atthis). Foto: LubosHouska / Pixabay

Não se esqueça de que o bem-estar das aves é sempre mais importante do que a nossa vontade de as observar. 

  • Evite perturbar as aves, sobretudo quando estão junto aos seus ninhos
  • Não tenha atitudes que alterem o comportamento das aves
  • Informe e denuncie se detetar alguma atividade suspeita
  • Deixe o local pelo menos tão limpo como o encontrou

Como contar?

Bando de guinchos-comuns (Chroicocephalus ridibundus). Foto: Georg Wietschorke / Pixabay

Se estivermos a observar um bando pousado, o “truque” será garantir um bom ponto de observação, e fazer-se uma aproximação lenta e gradual para não assustar ou perturbar as aves. Manter a distância suficiente para estas se sentirem confortáveis é importante. E tenha em atenção que algumas podem ficar “escondidas”, por estarem uma atrás de outra ou numa posição diferente – com a cabeça recolhida atrás das costas, por exemplo.

Já nos bandos em voo, pode ser necessário fazer várias contagens e esperar pelo momento certo para contar, se se tratar de um bando que está a voar em nosso redor. Quando se tratam de bandos de maior dimensão, aliás, pode ser preciso estimar o número de aves. Para uma melhor estimativa desses números, podemos por exemplo contar grupos de aves em vez de indivíduos, de acordo com a dimensão total do bando. Mas é preciso muito treino e ir repetindo contagens do mesmo bando até haver pouca variação entre contagens consecutivas. 

Da mesma forma, contar aves pelo canto também requer muita prática: além de conhecermos bem os cantos de cada espécie, é necessário desenvolvermos a nossa percepção da direção e distância a que cada ave se encontra. Ajuda se nos concentrarmos numa espécie de cada vez, focando a nossa atenção primeiro nas que estão mais vocais ou são mais numerosas.

Como reportar as observações

Coruja-das-torres (Tyto alba). Foto: Carlos Delgado/WikiCommons

Para registar as espécies que observou, aconselhamos a plataforma PortugalAves/eBird. Aqui pode anotar as aves que observa, guardar sons e fotos, e descobrir o que outros observadores por todo o mundo estão a ver. Pode inclusive receber alertas quando uma espécie interessante for avistada perto de si!

Ao compilar os dados, esta plataforma torna-os mais acessíveis aos cientistas, permitindo que sejam usados em inúmeros projetos de investigação e de conservação. 

Equipamento útil para observar aves 

Foto: Becky Perren/Pixabay

Para se iniciar neste desafio, vai precisar de algum equipamento básico. Os binóculos são fundamentais, uma vez que é necessário procurar as aves, e não é muitas vezes possível identificá-las a olho nu.

Necessita também de um guia de identificação. Existem alguns muito completos no mercado, como por exemplo o “Guia Aves de Portugal” ou o “Guia de Aves de Portugal e da Europa”. Se quiser um mais focado em Portugal Continental e Ilhas, o ideal é o primeiro. O segundo destes guias será uma boa opção para distinguir diferentes plumagens (consoante a idade e as épocas do ano) ou então para o caso de planear voos mais altos, já a pensar na Europa.

Não se esqueça de levar também um caderno de campo para registar o que observou e tirar notas. Dependendo do local para onde vai e da época do ano, deverá levar roupa adequada e água. 

Participe!

Os censos com participação cidadã são uma excelente forma de contribuir para a ciência não só a nível nacional, mas também num nível mais internacional. Participar num censo de aves é contribuir para aferir o estado das populações e das espécies: quanto mais cidadãos participarem, mais robustos serão os dados e melhores conclusões podem tirar-se, para implementar ações de conservação e tomar decisões políticas. São também uma excelente desculpa para passar mais tempo na natureza e contribuir para a melhoria do seu bem-estar. Aceite o desafio, agarre nos seus binóculos e venha contar aves! 


Conte as Aves que Contam Consigo

A série Conte as Aves que Contam Consigo insere-se no projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, dinamizado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) em parceria com a Wilder – Rewilding your days e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA) e financiado pelo Programa Cidadãos Ativos/Active Citizens Fund (EEAGrants), um fundo constituído por recursos públicos da Islândia, Liechtenstein e Noruega e gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian, em consórcio com a Fundação Bissaya Barreto.

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Aeroporto do Montijo: Estudo alerta para perda de 30% no valor de conservação do Estuário do Tejo

Por Inês Sequeira

São muito importantes as áreas do Estuário do Tejo que vão ficar de difícil acesso às aves devido ao transtorno provocado pelo ruído das aeronaves, conclui um artigo científico agora publicado.

Uma equipa de cientistas avaliou o impacto que o aeroporto internacional do Montijo, se a construção avançar, poderá ter sobre a alimentação das muitas aves passam o Inverno na zona do Estuário do Tejo.

Com quase 340 quilómetros quadrados, esta é uma das maiores e mais importantes áreas húmidas para aves aquáticas migradoras na chamada Rota do Atlântico Leste. Mas se a construção do aeroporto avançar, o impacto do ruído das aeronaves poderá levar à perda de até 30% do valor de conservação do estuário, indica a equipa de sete investigadores, num artigo publicado a 22 de Abril na revista Bird Conservation International.

“O nosso estudo realça que as áreas afectadas pelo ruído no eixo de aterragem e descolagem das aeronaves [no futuro aeroporto] são bastante importante no estuário do Tejo”, nota a autora principal, Teresa Catry, que é investigadora no CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

No caso do aeroporto do Montijo, “está previsto que tráfego aéreo intenso e voos a baixas altitudes, na descolagem e aterragem, vão cruzar o estuário, sobrepondo-se numa área extensa a zonas intertidais (entre-marés) importantes para a alimentação”, afirmam. A análise debruçou-se sobre o valor destas áreas para as aves aquáticas invernantes, que ali encontram pequenos moluscos, crustáceos e outros invertebrados, entre outros alimentos.

Maçarico-de-bico-direito (subespécie Limosa limosa islandica), que inverna no Estuário do Tejo e nidifica na Islândia. Foto: Hans Hillewaert/Wiki Commons

Em causa estão por exemplo espécies como o pilrito-comum (Calidris alpina), perna-vermelha-comum (Tringa totanus), alfaiate (Recurvirostra avosetta), borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula), garça-branca-pequena (Egretta garzetta) e tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola), entre muitas outras. Ou ainda o maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa), em que nalguns anos o estuário “acolhe cerca de 40% da população europeia ocidental” dessa espécie, durante a migração de Primavera, notam os cientistas.

Avaliação quadrícula a quadrícula

Os investigadores começaram por identificar as áreas de alimentação entre-marés mais importantes, a partir de contagens já realizadas das 10 espécies mais abundantes de aves aquáticas invernantes no estuário, explicou Teresa Catry à Wilder.

Para isso, o estuário foi dividido em quadrículas com 250 metros de lado – com cerca de 62 quilómetros quadrados cada uma – classificadas quanto ao seu valor de conservação com o auxílio de um software de utilização livre (Zonation). Essa classificação teve em conta o número de aves e de espécies em cada quadrícula, e também o estado de conservação, esclareceu a investigadora.

Depois, com auxílio do software, compararam a situação actual – sem aeroporto internacional – com dois cenários possíveis se o aeroporto estiver em operação: um em que as aves apresentam grande tolerância ao ruído, evitando apenas as zonas afectadas por sons acima de 65 decibéis (dB,) e outro em que isso acontece também em locais acima dos 55 dB.

Resultado? “A exclusão da área impactada pelo ruído é entre 21% (se as aves evitarem zonas com 65 dB) a 30% (no caso de 55 dB) pior do que num cenário de perda de uma área com a mesma dimensão, se pudessem ser escolhidas as áreas menos interessantes para as aves aquáticas”, indica o artigo científico. Ou seja, conclui, o valor de conservação do estuário poderá reduzir-se entre 21 e 30%.

Estuário do Tejo. Foto: Joana Bourgard/Wilder

“Este elevado custo de substituição indica que as áreas mais fortemente afectadas pela operação do aeroporto não podem ser substituídas por soluções alternativas”, alertam também os autores. Estes chamam também a atenção para os efeitos que o aeroporto vai ter nas aves migradoras de passagem, que usam o estuário para descanso e alimentação no caminho para outros destinos. “Os impactos globais podem ser ainda mais severos, pois estas aves estão mais limitadas em tempo e energia […] e porque não estão familiarizadas com as características do habitat local e com as fontes de perturbação.”

Violação de acordos e erro no EIA

“Os impactos previstos são uma violação dos acordos assinados pelo Governo português para salvaguardar as zonas húmidas”, alertam estes cientistas, que apelam à cooperação internacional do país no que respeita à conservação de espécies migradoras. Actualmente, recordam, metade de todas as populações de aves aquáticas estão a perder terreno a nível mundial, principalmente devido a mudanças relacionadas com actividades humanas.

Por outro lado, nas suas viagens de migração, estas aves dependem de uma rede de locais de alta qualidade para se reabastecerem “nesses voos extraordinários”. “A perda de um desses sítios pode ter consequências dramáticas para toda a população migradora”, salientam os autores do artigo.

A equipa repete também um alerta que já tinha sido lançado na fase de consulta pública relativa às conclusões do estudo de impacte ambiental: nesse estudo, “a severidade dos efeitos do ruído foi subestimada por um erro cálculo”, o que tem como resultado uma “grave subestimativa do número de aves e áreas impactadas dentro de cada classe de perturbação”.

Os investigadores recomendam ainda a realização de mais estudos no estuário, com a realização de voos de teste que repliquem o que aconteceria num aeroporto em operação, e o registo das respostas das aves, incluindo as espécies mais afectadas e as distâncias que percorrem. “Seria extremamente útil fazer este exercício nas zonas de alimentação (áreas intertidais durante a maré baixa) e nas zonas de refúgio (zonas de concentração na maré cheia)”, afirmou Teresa Catry.

No estudo, para além de investigadores do CESAM, participaram também cientistas ligados à organização BirdLife International, ao CIBIO/InBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, ao cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Universidade Federal do Pará e Max Planck Institute for Animal Behavior.

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Que espécie é esta: som de coruja-do-mato

Por Helena Geraldes

A leitora Maria Silva captou este som a 27 de Março em Algoz, concelho de Silves, e pediu ajuda na identificação da espécie. Magnus Robb responde.

Trata-se de uma coruja-do-mato (Strix aluco).

Espécie identificada e texto por: Magnus Robb, ornitólogo britânico especializado na gravação do canto de aves.

Coruja-do-mato. Foto: Andreas Trepte/WikiCommons

“Este gravação é, na minha opinião, da coruja-do-mato”, diz-nos Magnus Robb.

“É um chamamento que eu chamo “pulsed hooting” e ouve-se muitas vezes quando o casal se aproxima, muitas vezes acompanhado por outros chamamentos.”

Aqui tenho exemplos do macho e da fêmea (CD4-21 & 22).”

A coruja-do-mato é uma ave de hábitos estritamente nocturnos. Segundo o portal Aves de Portugal, esta é uma espécie “residente em Portugal e o seu canto pode ser ouvido durante todo o ano (embora com menos frequência no final do Verão)”.

“A espécie distribui-se de norte a sul do país, mas a sua abundância varia fortemente de umas zonas para outras, sendo mais frequente na metade sul do país. É particularmente comum nos extensos montados de sobro e azinho e em certos pinhais maduros. É mais rara em zonas sem árvores ou de grande altitude, bem como em áreas fortemente urbanizadas.”


Agora é a sua vez.

Encontrou um animal ou planta que não sabe a que espécie pertence? Envie para o nosso email a fotografia, a data e o local. Trabalhamos com uma equipa de especialistas que o vão ajudar.

Explore a série “Que espécie é esta?” e descubra quais as espécies que já foram identificadas, com a ajuda dos especialistas.

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Que espécie é esta: trevo-estrelado

Por Helena Geraldes

O leitor Diamantino Silva fotografou estas flores num passeio pelo campo em Lousa/Loures a 3 de Maio e quis saber qual a espécie. Carine Azevedo responde.

Trata-se de um trevo-estrelado (Trifolium stellatum).

Espécie identificada e texto por:  Carine Azevedo, consultora na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas.

A estrutura floral das fotografias pertence ao trevo-estrelado (Trifolium stellatum), da família Fabaceae

É uma espécie predominantemente mediterrânica, nativa da Macaronésia, sudoeste asiático, centro e sul da Europa e norte de África.

Em Portugal ocorre naturalmente um pouco por todo o território continental, excepto no litoral norte e também se desenvolve espontaneamente no arquipélago da Madeira. É comum em solos secos e pedregosos ou arenosos, pastagens e prados xerófilos, montados, terrenos incultos e na berma de caminhos.

O trevo-estrelado é uma planta anual de folhas compostas por três folíolos em forma de coração, peludas e com longos pecíolos.

As flores surgem entre março e maio. A corola é composta por cinco pétalas, de cor branca a rosada, por vezes púrpura. As flores agrupam-se em inflorescências do tipo capítulo, são terminais e solitárias. O cálice (estrutura que protege a corola) é composto por cinco sépalas muito peludas e de cor verde. Durante a maturação o cálice torna-se bastante vistoso, apresentando-se vermelho, com pelos brancos nas margens e com forma estrelada.


Agora é a sua vez.

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Que espécie é esta: abelha-carpinteira

Por Helena Geraldes

O leitor José Manuel Vasconcellos fotografou esta espécie a 4 de Abril perto de Alter do Chão e pediu ajuda na identificação. Albano Soares responde.

“Fotografei este insecto que parece uma abelha, mas toda preta, no dia 4 de Abril, perto de Alter do Chão. Agradeço a vossa ajuda na identificação”, escreveu à Wilder.

Trata-se de uma abelha carpinteira (Xylocopa violacea).

Espécie identificada e texto por: Albano Soares, Rede de Estações da BiodiversidadeTagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.

Esta é a nossa maior abelha. É uma abelha solitária, ou seja, não vive em sociedade como a abelha do mel.

Como o nome comum indica, este insecto escava madeira para fazer túneis onde coloca os ovos em células alimentadas com pólen e néctar. Muitas vezes utiliza cavidades já abertas.

Os adultos invernam em buracos saindo aos primeiros dias de Sol, muitas vezes em Janeiro.

As abelhas carpinteiras são importantes polinizadores de árvores de fruto e outras plantas.

É uma espécie muito pouco agressiva, só ferrando se manuseada.


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Lançado guia de identificação das espécies de aves exóticas de Portugal

Por Helena Geraldes

Torne-se um perito em identificar aves exóticas em Portugal e saiba qual a situação actual de cada uma no livro “Aves Exóticas em Portugal: Guia de Identificação”, lançado esta Primavera pelo escritor naturalista Gonçalo Elias.

A primeira ave exótica que Gonçalo Elias se recorda de ter observado na vida foi o bico-de-lacre (Estrilda astrild), em 1988. Desde então, o responsável pelo portal Aves de Portugal tem observado muitas mais espécies exóticas no nosso país.

Bicos-de-lacre. Foto: Pedro Olivença/WikiCommons

“São bastantes as espécies exóticas já estabelecidas e algumas continuam em expansão”, comentou o autor à Wilder.

Só neste novo guia de identificação são abordadas 125 espécies, como o ganso-do-egipto (Alopochen aegyptiaca), o periquitão-de-cabeça-azul (Thectocercus acuticaudatus), o mainá-de-crista (Acridotheres cristatellus) ou o capuchinho-dominó (Lonchura punctulata).

A ideia para este livro nasceu de uma troca de ideias na rede social Facebook a propósito de aves exóticas. “A certa altura houve uma pessoa que disse que fazia falta um guia actualizado de identificação de aves exóticas e que eu era a pessoa certa para o fazer. Na altura hesitei porque nunca tinha feito nenhum guia de identificação, mas depois achei que o desafio era interessante e resolvi meter mãos à obra”, contou Gonçalo Elias.

O livro, de 116 páginas e com cerca de 100 fotografias a cores – “gentilmente cedidas por diversos observadores e fotógrafos de natureza” -, está organizado em duas secções. A secção principal abrange 22 espécies, que são abordadas em detalhe. Para cada uma delas é dada a seguinte informação: nome comum e nome científico, características identificativas (incluindo tamanho, características físicas, vocalizações), espécies semelhantes (referência a outras espécies, autóctones ou não, com as quais a espécie descrita pode ser confundida), distribuição mundial (descrição sumária das regiões de origem, bem como das áreas onde foi introduzida), situação em Portugal (breve historial da ocorrência e descrição da situação actual), habitat, época de reprodução, mapa de distribuição no país, com comentários.

“No final há um apêndice com uma lista de 103 espécies não nativas de ocorrência ocasional. Trata-se aqui de fugas de cativeiro que não se reproduzem em liberdade.”

Psittacula krameri. Foto: Louis Dewame/WikiCommons

Segundo Gonçalo Elias, este livro foi feito a pensar em “qualquer pessoa que se interesse pelas nossas aves selvagens, seja para as identificar no terreno, seja para saber o ponto de situação actual de cada uma das espécies exóticas que ocorrem em liberdade no nosso país”.

Ao escrever este livro, o autor naturalista quis ajudar as pessoas a identificar as espécies não autóctones. “A maioria dos guias de identificação de aves selvagens não inclui a maioria destas espécies, o que muitas vezes causa dificuldades aos observadores. Assim, este guia vem colmatar essa lacuna, ao disponibilizar informação detalhada sobre as aves exóticas.”

Além disso, acrescentou, o objectivo foi “fazer um ponto de situação actualizado sobre a ocorrência das espécies não autóctones no nosso território”.

“O único guia anteriormente publicado sobre este assunto, da autoria de Rafael Matias, já tem quase 20 anos, estando por isso um bocado desactualizado, pois houve muitas alterações em anos recentes. Além disso, esse guia está esgotado há muitos anos, sendo por isso praticamente impossível de encontrar.”


Aves Exóticas em Portugal: Guia de Identificação

Por: Gonçalo Elias

Editora: Plataforma online kindle

Data de publicação: Março de 2021

Preço: 18,20 €

Disponível através da loja online Amazon


Agora é a sua vez.

Participe no IBISurvey, novo projecto do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Évora, e procure e registe as 11 espécies de aves exóticas bem instaladas em Portugal.

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