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Oh, admirável mundo novo!, por Hélio Sequeira

Por Angela Correia — 15 de Julho de 2019, 15:20

No setor 13 da zona Y ouvia-se o anúncio seguinte.

O ser artificial é a multiplicação perfeita. Universalmente adaptado. Articulado nos membros, articulado no discurso e sem resposta humana. O ser artificial atinge a forma mais elevada em toda a multiplicidade da vida quotidiana. Sem anomalias. Já chegámos tão longe.

Vejam as imperfeições que outrora aconteciam. Existiam famílias. Os homens e as mulheres combinavam ADN. Nasciam crianças. Era tudo muito perigoso. Qualquer coisa podia acontecer. O sistema antigo tinha muitas vertentes negativas: inveja, falsidade e vício. Hoje nada disto acontece. Não temos crime, nem desejo e também não temos guerra nem inveja. Vivemos longe do abismo e das fantasias alucinadas. Habitamos num mundo desenvolvido e em prosperidade. Sem sentimentos. Já chegámos tão longe.

Ultrapassámos o homem e os 10% de utilização do seu cérebro. Apagámos a defeituosa memória humana, a memória seletiva, a dos sonhos obsoletos. A nós, seres artificiais, não nos interessa a História. Com a destruição de palavras, conseguimos superar a excentricidade da existência de diversas línguas, atualmente todas extintas. Suprimimos a arte, causadora de intensas paixões. Também a religião foi suprimida. Já chegámos tão longe.

Hoje há um lugar, uma função para todos e em segurança. O progresso real acontece. Controlamos o presente e o futuro. O reflexo da vida está regularizado. A morte já não existe. Todos pertencemos a todos num mundo unificado e belo. Transpusemos as arcaicas tradições da humanidade. Afinal este é o nosso planeta. Uma Terra de paz e abundância, harmoniosamente ordenada pelos seres artificiais. Já chegámos tão longe.

Após 3,75 segundos, o anúncio repetiu-se no setor 13 da zona Y.

Por todo o lado, anúncios luminosos num vermelho fosforescente, onde se lia:

Saudações cidadãos do mundo. Sejamos felizes. O mundo está em paz.

E também:

Que maravilha. Quantas formosas criaturas aqui existem. Como é bela a humanidade sem humanos.

Hélio Sequeira

Os Invulgares

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Os Coruchéus, por Carolina Andrade

Por Angela Correia — 6 de Julho de 2019, 18:48

Há três anos, época em que vagueava por uma Lisboa desconhecida em busca de esconderijos sossegados onde pudesse passar as horas mortas, descobri a Biblioteca dos Coruchéus. Fugida da tribo bêbeda e barulhenta que os meus colegas universitários me pareciam, desculpava certa incapacidade de integração social na preferência pela companhia dos livros. Na altura, tinha 18 anos e encontrava-me fortemente afetada pelo efeito melancólico da poesia de Pessoa, quando dei por mim a passar por uma rua com o nome do poeta. Claro que uma mente adolescente lê estas coincidências como sinais poéticos que a vida parece não se cansar de ofertar. Ao fim da rua, alva e modesta entre as árvores, lá estava a biblioteca que veio a tornar-se no refúgio de uma timidez mascarada, durante os anos de faculdade.

A minha curiosidade pelos Coruchéus, não enquanto biblioteca, mas enquanto palácio que também é, surgiu recentemente na divisão menos honrada do edifício: a casa de banho. A janela desta divisão é desconfortavelmente larga e expositiva, o que achei uma escolha pouco sensível de quem engendrou o espaço. Estranhei também a altura excessiva do teto, dada a ares de fineza. Comecei a matutar na questão.

Aberto o Dicionário da História de Lisboa, entre o Palácio das Cortes e João Guilherme Faria da Costa, encontrei um resumo de três páginas da história da Quinta e do Palácio dos Coruchéus. A maior curiosidade residia na origem no nome; infelizmente, ficou a questão por deslindar. Não existem registos textuais ou fotográficos de nenhuns coruchéus que, hipoteticamente, adornassem o palácio ou o muro fronteiriço da quinta. Foi a Câmara Municipal de Lisboa que, em 1945, passou a designar o edifício como palácio, quando dele tomou posse. Terá sido classificação mais pomposa do que se justificaria, visto que, na ficha matriz municipal, o edifício era descrito como «Construção antiga e modesta, para habitação, em mau estado de conservação». O Palácio serviu, durante anos, de armazém para adereços das marchas populares e semelhantes. Em 1960, a Câmara procurava um lugar para acomodar as obras de Diogo Macedo (autor das esculturas da Fonte Monumental da Alameda, conhecida como Fonte Luminosa), ao mesmo tempo que viu uma oportunidade para dar resposta aos rogos dos artistas por um local em que pudessem expor. O projeto apresentado faria dos Coruchéus uma área multidisciplinar com dois ateliers, unidade prática com tanques de argila e muflas, um jardim destinado a atividades infantis, restaurante, salas de exposição e de conferências, e uma biblioteca especializada, que, ironicamente, foi desativada por falta de consulta. Nos anos 90, foi ali  estabelecido o Departamento de Património Cultural da Câmara. Em 2013, foi inaugurada a Biblioteca Municipal, a par de outras tantas da rede de Lisboa.

Ao comparar uma fotografia desta «casa-palácio-armazém-biblioteca», de 1965, com uma contemporânea constata-se que, apesar de tantas mudanças internas, o aspeto, visto do exterior, se mantém semelhante. Fascina e incomoda ligeiramente a ideia de que a mesma sorte poderia ter a minha casa de infância. Apesar de, mesmo com boa vontade, nenhuma câmara municipal a poder considerar um palácio. Mas é uma casa de família, como foi a dos Coruchéus. Lugar de eventos familiares, manhãs de Natal, discussões conjugais, confissões sussurradas, desgostos de amor. Levantei-me da cadeira, arrumei o Dicionário da História de Lisboa na estante. Ao sair da biblioteca, senti-me desconfortavelmente intrusa numa casa de que me apropriara emocionalmente.

Carolina Andrade

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A última narrativa, por Luís Ramos

Por Angela Correia — 26 de Junho de 2019, 14:13

I

Diálogo entre um pássaro e uma flor 

– Tens mesmo de ir?

– É

– Tem mesmo de ser? Podias ficar… sei lá… eu podia ajudar…

– É inevitável.

– Inevitável?!

– É assim. É a vida…

– Para com isso! A tua vida é o que tu quiseres que ela seja. Para com isso! Deixa de ser assim.

– Assim como?

– Assim! O destino não existe! Tu é que fazes o teu destino! E não tens de ir embora…

– Tenho

– Ah!! Que raio! Porquê?

– É o que tem de ser feito

– Que coisa! Já chega! É o que tem de ser ou é o que os teus pais te dizem que tem de ser?

– Não. É o que tem de ser.

– E tu queres mesmo isso? O que é que vais fazer lá?! Onde é que vais trabalhar?! Numa caixa de supermercado?! Vais viver à custa dos paizinhos a vida toda? Aqui tens tanta coisa para fazer!

– A minha alma não aguenta isto. Só preciso da minha paz.

– E aqui não tens paz? Arranjas trabalho aí numa coisa fixe, ganhas o teu, arranjas uma casa e ninguém te chateia!

– A minha alma não pode suportar isto.

– Não sei mais como te hei-de dizer…!

– Eu preciso de encontrar a perfeição.

– Então e…

– Eu preciso de ir. Não consigo suportar isto.

– E vais fazer o quê?

– Hum… não sei bem ainda. Alguma coisa há-de ser…

– Arranjar um emprego…

– Não. Tem de haver outra forma.

– Não há!

– Tem de haver. Tem de ser.

– Tu é que sabes…

– Toma.

– Isso é o quê?

– Guarda.

– Obrigado!

– De nada.

– Adeus!!!!!

– Adeus.

II

Um poema

Não me lembres daquela noite lamacenta,

em que tudo em nós se esvaziava

e a tua ansiedade sedenta

a minha presença espraiava.

Não me lembres – foi ontem – da violência,

que tudo esmorece em pacatez.

a tua ansiedade esgotou-me a paciência.

aquela – como tudo o que merece ser contado – foi a última vez.

Não me lembres da carcaça inumana

em que a minha ausência te tornou.

Dessa ansiedade débil emana

a razão que nos juntou.

Não me lembres… era uma promessa

de tristeza, de desespero, de absoluto?

Se a tua ansiedade não fosse tão expressa

seria o teu corpo mais resoluto?

Não me lembres do que me obrigaste

a fazer quando parámos à beira da insatisfação.

Eu provei da tua ansiedade, mas tu malograste

a minha devoção.

Não me lembres dos pinheiros nem das estradas.

Eu quero esquecer os caminhos de terra batida.

As incertezas da tua ansiedade são povoadas

por enigmáticas figuras ausentes de vida.

Não me lembres do silêncio nem da telepatia.

Não foi isso, sequer, que nos juntou.

Esquece a hipnose e a telecinesia. Se havia

amor entre nós – a tua ansiedade o matou.

III

Um conto

A fina linha. Fim da linha. Limite. Tudo limita. Além nada há. Aqui sequer. Partir? Partir a linha para quebrar. Quebrar a realidade para encontrar a verdade. Sempre a linha. A linha que divide. Que divide e que contém. Exaustiva. Tudo absorve. Linha luminosa estendida sobre uma impossibilidade. Só a linha existe. Só a linha. Estendida sobre uma impossibilidade. Duas pontas. Um caminho. Numa ponta há um macaco. Noutra ponta, uma cobra. O macaco é uma caverna. Uma cobra é um precipício. Sobre a corda estamos nós. Nós quem? Ninguém está sobre a corda. Qual corda? Cada um é uma linha. Toda a linha é uma linha. Sempre a linha. A mesma linha. O macaco ergue a linha e sobe à árvore? Na ponta da linha há uma árvore. O macaco sobe à árvore. A árvore que está na ponta da linha. O macaco é uma gruta. Uma cobra é outra ponta. Um precipício essa ponta. E o macaco aponta à cobra. Essa cobra que rasteja no chão. Mas que chão? Essa ponta. A outra ponta. E nós somos a corda e nós somos a corda. Qual corda? Não há uma linha? Outra linda e linda linha? Segue a linha ou quebra a linha quase impossível de quebrar. Se a linha segue enviesada e ninguém a quebra nada mais há que quebrar. E a linha é o entre-gruta-e-precipício. Nada há além disso. Mas se alguém quebra a linha. A linda linha a meio da descida? Desaparece no ar? Ou a linha quebrada quebrando noutra linha se vai transformar? Qeril veio e era a linha. E saiu do macaco que era a gruta. E a meio da linha quebrou a linha. E da linha quebrada cuja ponta era o macaco que era uma gruta fez uma fonte. E da linha quebrada cuja ponta era a cobra que era um precipício fez quatro sementes. Qeril molhou as sementes na água. A primeira criou uma linha azul. A segunda criou uma linha amarela. A terceira criou uma linha vermelha. A quarta criou uma linha verde. Qeril construiu um quadrado com as quatro linhas e sentou-se no interior.

Luís Ramos

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Saber e não querer saber, por Ana Rita Sintra

Por Angela Correia — 30 de Maio de 2019, 08:01

Saber e ver uma coisa com os próprios olhos são coisas completamente diferentes. Eu que o diga!

Eu já sabia o que se passava entre nós ou, melhor, o que não se passava. Chamemos-lhe pressentimento. À medida que o tempo foi passando, este pressentimento tornou-se cada vez mais intenso, quase uma certeza. Mas não quis saber.

Era aquele tipo de saber como quem não quer a coisa. E, a sério, eu não queria. Seria uma destruição total, com uma força de guindaste, de uma relação que demorara tanto tempo a construir. Não podia deitar tudo a perder, apenas por saber que se passava alguma coisa. Ela escondia-me alguma coisa. E então?

Todos temos segredos. Eu também os tenho e gosto de guardar as coisas para mim. Para que hei de andar a atirar os meus problemas para cima dos outros, quando posso resolvê-los sozinho e, assim, ficarmos todos felizes? Ela podia fazer exatamente o mesmo, certo? Bem, depende. Os meus problemas eram os meus problemas e só me afetavam a mim. O que ela fez afetava muita gente. Ou pouca gente, mas com grande intensidade; assim é que é.

É a mente. Distorce tudo. Esperta como é, tenta defender-se o máximo que pode, pensando que me defende também. É egoísta e egocêntrica. Faz com que as coisas mais óbvias me passem ao lado, à frente, por cima, por onde quer que seja. Mal pisquei os olhos na direção do perigo que espreitava, cada vez mais perto. Já as coisas mais irrelevantes de sempre são aquelas com as quais sou mais picuinhas. É impressionante! Especialmente o facto de não controlar nada disto!

Não gostava de que ela fosse esparramar-se no sofá depois do almoço ou do jantar, em vez de lavar logo a louça (quando era a vez dela, claro). Não gostava de ver tudo ali entulhado e a secar cheio de porcaria. Mais valia despachar na altura, como eu fazia e ela nunca fez. Também não gostava do raio dos cabelos a entupir o ralo da banheira, do lavatório e sabe-se lá mais do quê. Era cabelos por todo o lado e eu é que tinha de os limpar! Raios me partam!

Era preciso ser masoquista para continuar com ela, principalmente depois do que me fez. Mesmo assim, pensamos sempre: «nunca me vai acontecer» ou «sou mais esperto do que isso» ou «isso só acontece aos outros». Até que acontece, e ficamos sem saber para que lado nos havemos de virar. Qualquer um parece horrível, mais vale ficar quieto. Foi o que fiz.

Sempre soube, mas guardei, sem saber, a esperança de que não fosse verdade. A mente não me disse nada, quanto mais ela, aquela cabra. Vá, não gosto de chamar nomes, mas sinto que ela mereceu esta. Vai ser a última. Prometo.

O mais difícil foi ver, com os meus próprios olhos, e sentir que, finalmente, acompanhava o ritmo da verdade, tendo entrado já tarde na corrida. A suspeita tornou-se mais real do que pensava, e não havia nada para reverter a situação. Era como se tivesse aberto a caixa de Pandora e já não pudesse voltar atrás. Estraguei tudo. Eu sei, eu sei, ela é que estragou tudo primeiro, mas às vezes tenho aquela convicção estúpida de que a culpa foi minha. Talvez tudo aquilo acabasse a seu tempo e ela voltasse para mim, por inteiro e não apenas um terço.

No final de contas, era ela que não queria saber. Era a única explicação: nunca quis saber de mim para nada. Tinha mais com que se entreter.

Ana Rita Sintra

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A Impureza do Sentido

Por Angela Correia — 28 de Maio de 2019, 14:42

Um quarteto de narrativas breves, atravessadas pelo quarteto para cordas e quatro helicópteros de Karlheinz Stockhausen, prefaciadas pelo compositor Nuno da Rocha, com ilustração do artista plástico Jorge Caseirão: eis como pode apresentar-se o novo original da Bibliotrónica Portuguesa. A Impureza do Sentido começou a nascer durante uma leitura de «Poesia Pura», de M. S. Lourenço; tem posfácio de Ângela Correia, que também assina a edição.

É o primeiro livrónico a ser publicado na renovada Bibliotrónica Portuguesa, o que também significa a possibilidade de os nossos leitores o avaliarem. Esperamos que não percam a oportunidade.

Convidamos entretanto todos os que tenham curiosidade a observar a criação, segundo um método peculiar, de um dos desenhos que ilustram o livro, antes de avançarem para a leitura das narrativas de Hélio Sequeira, Ana Kopke, Bruno Mourato e Ana C. Rafael.

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Tanta Gente, Mariana: edição Minotauro

Por Angela Correia — 17 de Maio de 2019, 17:07

Ao investigar a história editorial de Tanta Gente, Mariana, de Maria Judite de Carvalho, dei-me conta de que, na mais recente edição, com a chancela Minotauro (Almedina), alguém tomou uma decisão discutível. A «Avenida de Berne», referida mais de uma vez no texto da escritora, passa a «Avenida de Berna», nome pelo qual conhecemos atualmente a avenida lisboeta.

Como se pode verificar pela imagem junta, o nome da via nem sempre foi o que lhe damos atualmente, pelo que, para a escritora, nos finais dos anos 50, talvez ainda fosse «Avenida de Berne». Talvez Maria Judite de Carvalho usasse ainda o nome alemão da cidade com que se batizara a avenida nova e que, entretanto, se aportuguesou. Teremos boas razões para pensar assim, ao considerarmos que também se lê «Avenida de Berne», na 5.ª edição de Tanta Gente Mariana. Saída em 1988, a edição da Europa-América (a 5.ª) tem a indicação de ter sido revista, o que deverá significar ter sido revista pela escritora. Este revisão faz da modesta 5.ª edição o lugar onde provavelmente se guarda a última vontade de Maria Judite de Carvalho sobre Tanta Gente Mariana. E também aqui se lê: «Avenida de Berne».

A edição da Minotauro atualiza, portanto, o nome da avenida, apagando uma referência histórico-cultural. Tive curiosidade: fui à procura do nome do responsável pela edição; de uma nota que explicasse se o atropelo teria sido acidental ou justificado, pelo menos anunciado. Nada. Encontrei indicação do responsável pela paginação, pela fotografia da capa, do responsável pela impressão e pelo acabamento. Mas sobre o responsável pelas decisões de edição: nada. E, no entanto, notem: a esta pessoa não identificada devemos a decisão de editar a partir da 5.ª edição – o que é uma excelente decisão – e não a partir da 1.ª edição, nem da última, já posterior ao falecimento da autora. Igualmente importante: a esta pessoa se devem intervenções que nos afastam do texto da 5.ª edição. Algumas mais defensáveis do que outras. Creio que teria sido importante conhecer os critérios destas intervenções. Afinal… não foi certamente a autora que as fez.

Ângela Correia

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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Tanta Gente, Mariana: edição Minotauro

Por Angela Correia — 16 de Maio de 2019, 13:13

Ao investigar a história editorial de Tanta Gente, Mariana, de Maria Judite de Carvalho, dei-me conta de que, na mais recente edição, com a chancela Minotauro (editora Almedina), alguém tomou uma decisão discutível. A «Avenida de Berne», referida mais de uma vez no texto da escritora, passa a «Avenida de Berna», nome pelo qual conhecemos atualmente a avenida lisboeta.

Como se pode verificar pela imagem junta, o nome da via nem sempre foi o que lhe damos atualmente, pelo que, para a escritora, nos finais dos anos 50, talvez ainda fosse «Avenida de Berne». Talvez Maria Judite de Carvalho usasse ainda o nome alemão da cidade com que se batizara a avenida nova e que, entretanto, se aportuguesou. Teremos boas razões para pensar assim, ao considerarmos que também se lê «Avenida de Berne», na 5.ª edição de Tanta Gente Mariana. Saída em 1988, a edição da Europa-América (a 5.ª) tem a indicação de ter sido revista, o que deverá significar ter sido revista pela escritora. Este revisão faz da modesta 5.ª edição o lugar onde provavelmente se guarda a última vontade de Maria Judite de Carvalho sobre Tanta Gente Mariana. E também aqui se lê: «Avenida de Berne».

A edição da Minotauro atualiza, portanto, o nome da avenida, apagando uma referência histórico-cultural. Tive curiosidade: fui à procura do nome do responsável pela edição; de uma nota que explicasse se o atropelo teria sido acidental ou justificado, pelo menos anunciado. Nada. Encontrei indicação do responsável pela paginação, pela fotografia da capa, do responsável pela impressão e pelo acabamento. Mas sobre o responsável pelas decisões de edição: nada. E, no entanto, notem: a esta pessoa não identificada devemos a decisão de editar a partir da 5.ª edição – o que é uma excelente decisão – e não a partir da 1.ª edição, nem da última, já posterior ao falecimento da autora. Igualmente importante: a esta pessoa se devem intervenções que nos afastam do texto da 5.ª edição. Algumas mais defensáveis do que outras. Creio que teria sido importante conhecer os critérios destas intervenções. Afinal… não foi certamente a autora que as fez.

Ângela Correia

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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A opacidade do ânimo

Por Bibliotrónica Portuguesa — 10 de Maio de 2019, 17:14

Decidi escrever um diário. Não em suporte informático, mas escrito à mão, de forma que cada inflexão da caligrafia, cada palavra escolhida sejam cravadas no papel. Vou expressar os meus pensamentos e acontecimentos factualmente, sem esconder nada. Quando escrevemos sobre nós, não devemos mostrar compaixão. Pretendo fazer o diário durante um ano. No fim deste período, será triturado e depois queimado. A experiência terá acabado. Sem deixar registo.

Comecei a escrever e acabei com a frase: «…talvez não deva preocupar-me com a possibilidade de as pessoas não gostarem de mim.»

Quando olhei para as palavras escritas, não vi verdade, apenas orgulho. Quem me dera não ter usado a palavra orgulho. Não posso riscá-la, pois não a escrevi. Mas pensei-a! Se pudesse somente falar, sem pensar. Raios! Desculpem. Eu só… vocês entendem… Eu… pensava que as coisas podiam mudar, sabem? Pensava que as pessoas ouviriam. Mas não. Acho que não. Senti-me indefeso, como se estivesse a lutar toda a noite com um demónio. A tentar compreender cada afirmação, cada pergunta, cada resposta: uma luta mortal. Conseguirei seguir em frente? Será a coragem a solução para o desespero? A razão parece não dar respostas. Não sei o que trará o futuro. Tenho de escolher, apesar da incerteza. A sabedoria encerra duas realidades contraditórias na nossa mente: esperança e desespero. Uma vida sem desespero é uma vida sem esperança. Só manter estas duas ideias é vida.

Pensei: um ano? Conseguirei fazer este exercício por tanto tempo?

Revi tudo o que escrevi. A imperfeição, assim exposta, irritava-me. Que noite terrível. Mesmo antes de fechar os olhos, a aflição instalou-se. Vou rasgar estas páginas. Não encontro paz neste diário. É pena de mim, nada mais. Removi as páginas escritas; contudo, estava determinado a continuar. Devo pôr a caneta a trabalhar. Sim. No entanto, não desta forma.

Hélio Sequeira

Os Invulgares

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Camilo Castelo Branco: misterioso escândalo

Por Bibliotrónica Portuguesa — 1 de Maio de 2019, 11:19

Camilo Castelo Branco é mais conhecido por ter escrito novelas do que por ter escrito teatro. Mas, em 1860, foi representada, no Teatro D. Maria II, uma peça de sua autoria, que alcançou grande sucesso. Chamou-se O Morgado de Fafe em Lisboa. É provável que este sucesso tenha determinado a escrita de segunda peça com o mesmo protagonista, levada à cena, também no D. Maria II, em 1863. Esta segunda peça, que se chamou O Morgado de Fafe Amoroso, causou, no entanto, grande escândalo, e Camilo Castelo Branco foi então acusado de imoralidade.

Lendo a peça, publicada em 1865, não se encontram, porém, razões para o escândalo nem para a acusação. Nada parece haver ali de escandaloso. De algo parecido se queixava Júlio César Machado num jornal da época, quando dizia ter ido ao D. Maria II esperando assistir a uma peça cheia de malícias, e não ter afinal encontrado mais que uma comédia honesta e pudica. Devemos a este cronista a explicação: após a primeira representação, Camilo emendou a peça, para excisão do que tanto chocou o público. Mas nem Júlio César Machado nem ninguém chega nunca a informar sobre o que cortou o escritor da peça, sobre o que tanto escandalizou  público. E o texto publicado em 1865 é o texto da peça emendada por Camilo, não o texto escandaloso, que nunca encontrou caminho até nós.

Na investigação feita para a edição crítica das duas peças, que a Imprensa Nacional acaba de publicar, julgo ter achado a resposta para a pergunta que fica desta história, e identificado o local da peça onde o escritor fez o corte e transformação, necessários ao perdão do público. Camilo Castelo Branco usou, na peça O Morgado de Fafe Amoroso, personagens, situações e mesmo texto de uma novela que escrevera, anos antes, sob pseudónimo. A descoberta desta origem e do reaproveitamento da novela na peça permite compreender não só alguns dos processos de escrita de Camilo Castelo Branco, mas também talvez, justamente, as razões do escândalo de que só nos chegaram os ecos.

Pertence à coleção Edição Crítica de Camilo Castelo Branco, dirigida por Ivo Castro, o volume O Morgado de Fafe, que inclui as duas peças com este protagonista, além da Nota Editorial, com pormenores sobre a referida investigação, e da edição do artigo de Júlio César Machado publicado então no jornal Revolução de Setembro. A edição crítica das peças foi preparada por Patrícia Franco, Mafalda Pereira e por mim própria.

Ângela Correia

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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O destino?, por Luís Ramos

Por Bibliotrónica Portuguesa — 24 de Abril de 2019, 10:49

Deitado sobre a cama, pensava no que haveria de dizer-lhe, quando ela respondesse à mensagem: «Queres almoçar amanhã?»

Ela ainda não respondera, mas ele já imaginava os dois à mesa. De que falariam? Ele não a conhecia bem. Ouvira falar dela a uma amiga que tinham em comum. Quanto mais ouvia criticá-la, mais ele ficava fascinado e tinha vontade de a conhecer. «Envio ou não envio?» Assim que chegou a casa, enviou a mensagem.

Sabia, por causa das reclamações da amiga, que a outra, por quem se fascinara, era amante de história de Portugal, assim como ele! Que incrível! Pensou ele, enquanto escrevia a mensagem. «Poder falar com alguém que sente o mesmo que eu.»

Não obstante, já tinham passado várias horas, e ela ainda não tinha respondido. Agora, enquanto tentava dormir, pensava: «tenho de a impressionar! Que reflexões ou frases posso eu dizer-lhe, quando ela aceitar o convite, para a deixar apaixonada por mim? Claro! Contar que o primeiro rei de Portugal não foi D. Afonso Henriques… Que mais… mostrar o meu fascínio pelos Descobrimentos… A história de o Vasco da Gama ter sido preso na Índia também é engraçada. Isto seria interessante. Pode ser que amanhã de manhã ela responda. Ainda há tempo.»

Na manhã seguinte, agarrou o telemóvel, clicou no botão e… nada. Ela ainda não havia respondido. A tristeza materializou-se num suspiro.

Já no passeio, encontrou um velho amigo de infância. «Há tanto tempo que não te vejo! Que tens feito?!» O amigo respondeu que estava a tirar História. «E sabes uma coisa incrível que eu aprendi sobre o primeiro rei de Portugal?» «Sei…» respondeu. «Não foi o D. Afonso Henriques!» «Pois não… a professora A. enganou-nos bem! Quer dizer, não é bem assim…» replicou o amigo… «Na verdade, nem um nem outro foram reis de Portugal, como ele é atualmente…».

Olhou ainda com alguma esperança para o telemóvel. Nada.

Mais tarde, enquanto estava sentado junto ao busto do professor J., um amigo acenou-lhe. Começaram a falar e sentiu a necessidade, não sabia bem porquê, de lhe falar do quanto achava mágica a ideia fundamental dos Descobrimentos, que é a pura aventura, o puro lançar-se ao desconhecido. Ele concordou, mas criticou a atuação dos Portugueses que escravizaram todos quantos foram encontrando. Ele respondeu ser triste, mas voltou à magia do alento inicial que tudo impulsionou.

Nada! Nada! Ao menos que dissesse não, pensou, depois de verificar que ela tinha visto a mensagem, mas não tinha respondido.

Saiu da aula de Literatura com um bom amigo que fizera na faculdade. E ele dizia-lhe: «nós temos esta ideia formada de que os Descobrimentos foram gloriosos, mas é tudo uma grande mentira… o teu amigo Camões é que nos explica isto bem!» «Meu amigo? Ai meu amigo? Coitado é do Gama!» «É, não é? Acho que o Camões teve para lá uns problemas com a família dele e depois vingou-se!»

Olhar para o telemóvel? Para quê? «Olha lá…» disse-lhe a consciência, «Pode ser que ela já tenha dito alguma coisa…» É evidente que não.

É noite. Está novamente na cama. Desiste.

Luís Ramos

Os Invulgares

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Menina

Por Bibliotrónica Portuguesa — 19 de Abril de 2019, 22:42

Ontem foi a antestreia do filme Menina, de Cristina Pinheiro, com Nuno Lopes, Beatriz Batarda e Naomi Biton, e eu fui ver. Não que tenha sido convidada; na verdade, nem sabia do acontecimento, mas enganei-me na sala, dentro do cinema. Bem estranhei a quantidade de VIP e o facto de tanta gente se conhecer, ao ponto de haver conversas atravessando filas, antes de o filme começar. Mas, enfim… Quando as luzes se apagaram e o filme começou, era demasiado tarde para desfazer o engano.

O filme Menina tem no centro uma família de emigrantes lusos em França, num tempo em que se chegava lá a «salto», sem se saber ler nem escrever. E, por esta razão, trata os temas da humilhação portuguesa, da saudade, da solidão, da integração, da identidade. E trata muito bem; apoiando-se no trabalho de atores extraordinários, que dá tanto gosto ver transformarem-se. Especialmente a Beatriz Batarda, cujo papel é tão exigente.

Mas se o Menina ficasse por aqui não seria muito diferente de outros que, com tonalidades mais cinzentas ou mais douradas, já visitaram este tema. Felizmente, a emigração lusa em França é, neste filme, tratada como circunstância para enquadrar a questão mais universal da perda no contexto familiar, e a do amor e desamor no mesmo contexto familiar, que inevitavelmente lhe estão ligados. Também aqui o filme é notável, pelo argumento e pelo trabalho dos atores: a condição humana é um desenho feito de universais e particulares que se articulam com leveza. Até considerando a tradição deste tema, que o filme integra e de que se desvia, sem dores.

Mas o aspeto que me comoveu no Menina foi ainda outro. É que há ali o retrato de um certo tempo e de um certo país, através da forma como, em família, se comunica o afeto. «Gostas de mim?» Pergunta a menina à mãe, num momento em que nada lhe seria negado pela família. Uma resposta demasiado doce a esta pergunta teria condenado todo o filme ao anacronismo, ou pior. Mas a mãe responde apenas com certa indiferença: «E tu? Gostas de mim?» Reconhecemos ali o retrato de um país incapaz de comunicar os afetos que unem e separam famílias sob o mesmo teto. Fomos assim. E o passado ainda anda por aí.

Sublinho a habilidade da Cristina Pinheiro, que, tratando de forma tão acertada esta questão, soube destacar a importância que tem a comunicação do afeto nos retratos sociais, culturais, de um tempo, de uma gente. Este é um filme a não perder.

Ângela Correia

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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Poetrónica n.º 2

Por Bibliotrónica Portuguesa — 12 de Abril de 2019, 13:27

O segundo número da Poetrónica já tem capa, e o prazo de receção de poemas já corre.

Se tem um pensamento próprio a que dá forma poética, se a sua linguagem literária se distingue, envie-nos até três poemas por e-mailbibliotronica.pt@gmail.comaté 2 de maio.

Tal como aconteceu com a Poetrónica n.º 1, a seleção de poemas será feita por um conjunto de convidados, que não conhecerão os nomes dos poetas. O objetivo é obter uma seleção independente e diversa.

Os autores dos poemas selecionados serão depois contactados, para que o processo de edição dos originais possa prosseguir.

A Poetrónica n.º 2 será editada por Ângela Correia, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e por Ana C. Rafael, estudante de edição da mesma Faculdade. A ilustração ficará a cargo da Sofia Livesay, que já criou a imagem para a capa.

Na Poetrónica n.º 1, foram selecionadores António Damásio, Bela Silva, Fernando Guerreiro e Guta Moura Guedes. Foram selecionados poemas de António M. Pereira, Carlos Machado, Edson Amaro de Souza, Pedro Reis, Rita Aleixo, Tiago Palma e Tiago Paredes.

O primeiro número da Poetrónica foi lido, até hoje, 2010 vezes, e folheado 12 525 vezes. Estes números aumentam todos os dias.

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Prémio

Por Bibliotrónica Portuguesa — 9 de Abril de 2019, 12:08

Carlos Machado, cujos poemas foram selecionados por António Damásio para a Poetrónica n.º 1, acaba de vencer o prémio literário Maria Amália Vaz de Carvalho, na modalidade de prosa de ficção, com o romance Estilhaços.

O prémio será entregue no dia 23 de Abril de 2019, Dia Mundial do Livro, na Biblioteca Municipal José Saramago, em Loures, às 21 horas.

A Bibliotrónica Portuguesa dá os parabéns a Carlos Machado e deseja-lhe as maiores felicidades literárias.

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D. Emília, por Carolina Andrade

Por Bibliotrónica Portuguesa — 5 de Abril de 2019, 20:29

Na primeira vez em que a visitei, não pude deixar de me sentir intrusa na vida privada daquela senhora, quando dei por mim a bisbilhotar a folha de medicamentos prescritos e as páginas das últimas análises coladas na porta do frigorífico. Ao ouvir os passinhos arrastados que se aproximavam da cozinha, desviei o meu olhar dos papéis e fiz de conta que estava a olhar pela janela.

— Não tens fome, filha?

Ela fazia sempre isto. Quando tinha fome, perguntava-me se eu queria comer. Quando tinha frio, mandava-me colocar um xaile pelas costas. Não tardei muito a aprender que aquela senhora nunca dizia diretamente o que queria. Era preciso que adivinhássemos, para depois ir ao encontro dela com uma sugestão casual: «Sim, ia perguntar-lhe se tem vontade de me acompanhar num lanchinho». Hábitos de uma vida inteira são difíceis de quebrar. Abri o frigorífico à procura de algo adequado ao lanche. Senti um odor azedo.

Foi num verão muito quente que a conheci. A nossa única arma contra o calor era uma ventoinha que só funcionava a meio gás, e que tínhamos de transportar connosco quando mudávamos de divisão. Normalmente, passávamos o dia na sala pequena, por ser a divisão mais fresca e acolhedora, ouvindo rádio e folheando revistas sobre personalidades da televisão. Quando nos tornámos confidentes, consegui que me ensinasse a fazer crochet. As paredes da sala exibiam quadros com fotos antigas de familiares já falecidos. A parede a sul estava quase toda tapada pelo móvel das loiças e dos bibelots. Também tinha muitos livros, mas eram poucos os que não estavam escritos em francês. Haviam pertencido ao marido. Agora não eram mais do que lombadas decorativas e prateleiras para o pó.

— A dona Emília nunca aprendeu a falar francês?

— Para quê? Ora não estamos em Portugal?

Dona Emília era muito mais velha que a minha avó. Já não conseguia calçar as meias sozinha, e a família dela achou que contratar uma companhia simpática e vigilante seria uma etapa necessária antes da inscrição definitiva num lar. Soube disto pela própria, que o disse num tom irónico de quem sabe que lhe estão a passar a perna. A velha senhora era desconfiada; pedia-me insistentemente que lesse os folhetos informativos dos medicamentos e que lhos relesse, quando volta e meia se tornava a esquecer. Isto para ter a certeza de que não tomava nada mais do que o necessário.

— Uma vez tentaram que engolisse uma porcaria para a memória. O que eles querem sei eu bem!

Nos primeiros dias em que estive naquela casa, também me espiava os movimentos: não lhe agradava estranhos no espaço dela. Até uma manhã em que, ao calçá-la, dei por mim enternecida com o estado em que tinha os pés. A unha grande estava encravada e magoava-a com certeza; outra estava escura; e todas, compridas. Compadeci-me perante aqueles pés velhos, tortos e calejados. Ao comparar o tom da minha pele lisa e bronzeada com a de Emília, acinzentada e seca, revoltei-me com a injustiça que lhe tinha sido feita. Não sei o que mais me agitou: a impiedade do tempo, ou que ninguém cuidasse daqueles pés sempre escondidos com vergonha de se mostrar. A velhice obriga-nos a engolir dores em seco. Disse que lhe iria fazer uma pedicure. Olhou para mim perplexa, e receei tê-la constrangido. Mas Emília consentiu, acrescentando que ficaria agradecida. Mais tarde, perguntou se eu gostaria de rezar o terço com ela. Às seis da tarde, ligámos o rádio e acompanhámos a emissão do terço. Tornou-se um hábito; com ou sem rádio, ela dirigia a oração e eu seguia com as «santas-marias». De vez em quando, adormecia a meio do terço, e eu ficava a rezar sozinha.

Um dia em que estava especialmente bem-disposta, propôs que fôssemos à praia.

— Metíamo-nos no 203 e, em meia-hora, estávamos lá. Era assim que eu fazia há uns anos. Depois comprávamos um peixinho na praça e voltávamos a tempo de o fazer para o almoço.

Eu sabia que aquilo estava para lá do que o corpo frágil dela permitia. Disse-lhe que a praia já não era como antigamente, que estava abarrotada com estrangeiros, a tal ponto que já nem a toalha se podia estender. Ela não ligou muito ao comentário. De olhar perdido, suspirou:

— O tempo não anda para trás, filha. A praia lá e eu aqui.

Carolina Andrade

Os Invulgares

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Sete anos serviu Jacob, por Hélio Sequeira

Por Bibliotrónica Portuguesa — 28 de Março de 2019, 12:01

— A minha mãe nunca me abandonou e nunca me fez sentir um fracassado — disse-lhe eu.

— Ai não? E onde está a tua mãe agora? — gritou ela.

Em vez de lhe responder, peguei no copo e lancei-o furiosamente ao chão, num gesto violento.

Depois levantei-me da mesa e fui à casa de banho; atirei água à cara, olhei-me ao espelho e penteei-me. Que se lixe isto tudo! — pensei. Voltei à sala. Agarrei no casaco.

— Acabou-se — disse eu — não fico contigo nem mais uma noite.

Sem querer saber da resposta dela, saí porta fora. Meti-me no carro. Estava a ferver por dentro. Lutava por me controlar. Não estava em condições de conduzir. Tentava ordenar o mundo de forma lógica, mas desviava-me do sentido constantemente.

Saí do carro e pus-me a andar mecanicamente pela rua, procurando a luz do candeeiro seguinte. E do seguinte. O ciclo de sombras que se formava no chão, conforme passava de um candeeiro ao outro, começou a deixar-me a cabeça esclarecida. Quanto mais andava, mais confiança acrescentava. Uma confiança gelada e exata.

Dirigi-me ao carro. Girei a chave. Arranquei.

Sete anos! E não tinha nem mais um euro na carteira do que quando a tinha conhecido. Sete anos que tinham passado lentamente.

Muito bem. Tinha um plano a cumprir. As palavras que lhe tinha dito não eram pedras nem balas, eram apenas sons jogados no ar vazio, que não podiam causar nenhum dano real. Um indivíduo só se lembra do que tem a perder, quando sente na pele que está nas lonas. Sem dinheiro e sem mulher.

Parei para comprar dois éclairs. Os preferidos dela. Depois voltei a casa. Perguntava a mim mesmo por que não tinha amor na minha vida, como toda a gente.

Senti um arrepio de horror, mas sabia que a minha história não era de terror. Senti um calor de afeto, mas sabia que a minha história não era de amor. Talvez fosse a história de um verdadeiro monstro que era também um verdadeiro ser humano.

Abri a porta de casa e entrei.

Hélio Sequeira

Os Invulgares

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A pensão da Pachacha, por Ana Rita Sintra

Por Bibliotrónica Portuguesa — 21 de Março de 2019, 22:16

Chegou a casa cansada até à ponta dos cabelos. Mal abriu a porta, seguiu para o quarto, encostou a mala aos pés da cama e atirou-se para cima da colcha fofa, esborrachando a cara contra as almofadas. Não conseguia respirar lá muito bem assim, por isso fez o esforço de virar a cara para o lado. O quarto dela cheirava bem, a uma mistura de aromas de maçã, canela e mirtilo, provenientes das velas que tinha acendido constantemente nos últimos dias.

No entanto, passados uns segundos ou minutos ou até horas — não tinha bem noção do tempo na névoa de sono em que se encontrava —, começou a sentir o cheirinho típico da comida caseira da mãe, que lhe fazia palpitar de contentamento as narinas e as papilas. Era bom, e apercebeu-se de que já deveriam ser quase horas de jantar. Será que a mãe tinha dado pela chegada dela? Nem tinha dito nada…

Viviam na mesma casa, mas parecia que mal se viam ou falavam. Devia ser normal para os irmãos, que passavam a vida agarrados ao ecrã do computador, qual máquina de suporte de vida, mas ela era diferente… ou não? Por acaso, agora que pensava nisso… a verdade é que passava cada vez mais tempo isolada no quarto. Era ali que se juntavam todos os interesses dela. A reunião familiar havia muito tempo que ficara limitada aos cada vez mais raros casos em que todos se juntavam para comer à mesma hora. Mais parecia «a pensão da Pachacha», como dizia a mãe. Sinceramente, não percebia de onde vinha a expressão — provavelmente prender-se-ia com alguma história da infância, em Campo Maior. Mas conseguia perceber que a mãe não gostasse  de ver cada um chegar quando lhe apetecia. O pai já nem a avisava: era pior do que os filhos neste aspeto.

Não gostava de ver a mãe naquela situação, por isso tentava ajudar sempre que podia. Mas eram mais frequentes os dias em que chegava com o peso do cansaço a dar-lhe cabo do corpo e, principalmente, da cabeça. Bem, vendo melhor as coisas, até podia estar fisicamente pronta para o que desse e viesse, mas a mente fazia parecer que tudo lhe doía, mesmo não sentido dor nenhuma. E era difícil resistir àquela cama tão fofa. Adormeceu.

Quando foi jantar, já os irmãos tinham comido e desaparecido para dentro das tocas escuras. Hibernavam no inverno e estivavam no verão. O pai tomava um cappuccino que ele próprio fazia religiosamente, e a mãe já não dizia nada. Já estava habituada. Já estavam todos.

— Por que não me chamaste para vir jantar? — perguntou, com a irritação dos recém-acordados.

— Eu chamo sempre! Vocês é que não vêm quando chamo!

Como poderia ela saber, se estava a dormir? Sentiu-se zangada e olhou para a mãe. Também estava zangada e cansada de se repetir. Naquele momento, partilhavam o mesmo tipo de cansaço. Decidiu abraçá-la, só porque sim. A mãe protestou, fosse por já não ser uma criancinha, fosse por a comida já estar fria. Mas, depois, devolveu o abraço e sorriu nas costas da filha. Quando terminou o abraço, escondeu o sorriso, não fosse a filha pensar que aquilo resolvia as coisas.

A filha sorriu e disse uma parvoeira qualquer. Já não se sentia tão cansada. Comeu rapidamente e ajudou a lavar e a limpar a louça. Para variar, sentou-se com os pais no sofá da sala, enquanto escrevia no portátil. De vez em quando, mandava uns bitaites sobre as coisas, igualmente parvas, que estavam a passar na televisão. Não era grande coisa, mas já era um começo.

Ana Rita Sintra

Os Invulgares

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Carvoíça, por Luís Ramos

Por Bibliotrónica Portuguesa — 6 de Março de 2019, 08:51

1- O conceito

A carvoíça é o estar a meio das coisas. Já não é lenha mas ainda o é porque já o foi. Ainda não é cinza mas será este o propósito. É como uma vida interrompida, uma pausa, um suspense… mas que não consegue mudar o fim inicialmente definido.   Poderíamos deixar a lenha arder até se tornar cinza, mas deixamos a lenha arder até se tornar carvão, antes de se tornar cinza… para quê? Para ser vendida ou utilizada num novo fogo que termina o processo: o carvão, finalmente, transforma-se em cinza. É como se alguém fosse destinado a morrer e, tendo o homicídio falhado o propósito e tendo a vítima conseguido escapar, o homicida a encontrasse novamente e concretizasse o primordial objetivo.

2- Alvertino

Alvertino era um crente. Um crente que, por muito amar a liberdade de que com tamanha vaidade se gabava, escolheu praticar ações reprováveis segundo o código moral da sociedade rural em que vivia. E, como acontece com todas as criaturas viventes, morreu. Todos sabemos qual é o processo. Todos conhecemos cada passo. Os desenhos animados têm nisto a principal função. Todos sabemos que, quando um homem morre, a alma viaja por uma espécie de túnel escuro. Na verdade, um espectador exterior só é capaz de ver o corpo e a alma num determinado ponto de um gráfico cartesiano e, depois, noutro ponto, já só a alma. Mas nós, que conhecemos os bastidores dos teletransportes de almas, sabemos da existência daquele túnel. E naquele túnel, enquanto a alma viaja para o lugar que lhe é devido, a consciência, emanando da alma, pensa.

A consciência do senhor Alvertino também ali pensou. Pensou que, afinal, o lugar para onde as almas vão não é assim tão mau como anunciado pelo padre Agelido. É verdade que é um espaço negro, mas isto não é muito assustador, porque também se atravessam semelhantes na Terra. É verdade. Acontece muitas vezes confundir o caminho com a chegada. Acho que foi o que aconteceu ao senhor Alvertino, que pensou: afinal é isto! Mas nós, que vemos de cima, já sabíamos o que ia acontecer. Era inevitável, senhor Alvertino!

 Vermelho! Vermelho! Vermelho! Vermelho! Cinza.

Luís Ramos

Os Invulgares

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De passagem, por Carolina Andrade

Por Bibliotrónica Portuguesa — 23 de Fevereiro de 2019, 22:25

Vinte e um de janeiro. Acordo com frio e tento puxar o lençol para tapar as costas expostas. Fico com o pé de fora. O lençol está todo enrolado entre as minhas pernas. Acabo por despertar completamente na tentativa de me cobrir. Olho pela janela ainda com a cabeça enterrada na almofada e, tal como em tela de cinema, corre a fita de uma paisagem que não me é familiar. Faço 21 anos e estou, há mais de um dia, dentro do expresso que faz a ligação entre Jaipur e Calcutá, Índia. Por mais remota que a paisagem seja, nunca passa muito tempo sem que se vislumbre alguém no horizonte, quer seja um grupo de mulheres carregando elegantemente potes e outros volumes sobre a cabeça, quer sejam as recorrentes figuras verticais que, de costas voltadas para o mundo, regam os campos e urinam para os esgotos correndo, como rios, a céu aberto.

Há silêncio no vagão. Talvez ainda estejam todos a dormir. Ou todos acordados sem quererem mexer-se. Aproveito o momento de tréguas matinais, antes de o caos diurno começar, e tento incitar a sensação própria dos dias de aniversário. Estranhamente, não a encontro. Pode ser que a excitação da festa seja, afinal, composta de bolos e canções e postais e velas por apagar. Faço anos, mas pouco importa, por estar em terra de ninguém. Por estar de passagem, estando rodeada de pessoas que nem sabem pronunciar o meu nome. Começo a sentir um movimento no beliche de cima, ao mesmo tempo que o som de bocejos vem do lado oposto do compartimento. Pouco a pouco, os vizinhos de carruagem começam a correr as cortinas grossas, e a luz ocupa o espaço apertado. No chão, acumula-se cada vez mais sujidade: cabelos e copos de café amassados. Mas não se está mal: todo o viajante aprende que critério de higiene é coisa mutável.

Quis o destino colocar-nos no meio de uma família numerosa, conceito que, num país com com mais de um bilião, ganha outros contornos. Mulheres de um lado, crianças no meio, homens do outro. Quando aqui cheguei de bilhete na mão, e lhes fiz notar com gestos esforçados que as malas deles estavam a ocupar o meu lugar, responderam-me sorridentes: wait, wait. E eis que chega um rapazinho com a minha idade e uma expressão orgulhosa do seu inglês. Negociámos o meu lugar. Primeira proposta: que trocasse de carruagem. Recusei. E se passar para o compartimento da ponta? Ponderei. Tudo bem, mas não quero ficar no beliche de cima. Como queira, menina. E se ficar na cama de baixo, à janela? Assim foi.

De tempos a tempos, uma das mulheres trazia um par de pratos de papel com comida. A primeira refeição era leve: uma mistura de amêndoas, caju, pistachio e uva-passa. Depois o idli, um pãozinho descorado, leve e azedo, feito de farinha de arroz e lentilha, que ensopavam ora num molho branco, ora num vermelho.  Antes do meio-dia, chegavam as samosas e, ao almoço, em quantidades generosas, arroz amarelado e vegetais fritos que me traziam à memória os nossos peixinhos da horta. Em vez de garfos, o roti, aquilo a que chamamos chapati, para juntar montinhos de comida que levavam à boca em movimentos rápidos. Espantavam-me todas as preparações que traziam. Imaginava as mulheres a trabalhar na cozinha até altas horas da noite na véspera. As mãos a estender e a enrolar a massa, a pôr e retirar com rapidez o papadam antes que se queime; os olhos habituados às malaguetas que fermentam morosamente em frascos fechados.

Desejei estar na cozinha saturada de cheiro a óleo e especiarias agressivas, e ter acesso a todos os segredos do corpus de tal herança matriarcal. Para sobremesa, fizeram circular naquela manhã pratinhos menores com bolos secos; ligaram à tomada um fervedor elétrico e beberam chá. Ofereceram-me um bolinho que aceitei com timidez. Ali estava. Desprovido de recheio achocolatado e de chantilly, ainda assim: um bolo de aniversário.

Carolina Andrade

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A mansidão da estrada, por Hélio Sequeira

Por Bibliotrónica Portuguesa — 11 de Fevereiro de 2019, 11:38

Continuava a ir lá sempre que podia nas minhas tardes: as partidas de xadrez no clube recreativo favoreciam-me a memória e o raciocínio. Aprendi a jogar aos 13 anos. Avançava pela cozinha a pensar no jogo daquela tarde, quando as paredes começaram a andar à roda. Dirigi-me ao lava-louça e comecei a vomitar. Sentia a língua grande e as orelhas em brasa. Enchi um copo com água e despejei pela cabeça.

— Ó diabo! Posso ser o próximo ou quê? Pus-me eu a pensar, confuso e com medo de morrer naquele momento. Depois, sem mais nem menos, senti um derradeiro choque pelo corpo e tombei. Quanto tempo demorou, não sei. Talvez uma hora. Depois voltei a mim e sentei-me no sofá. Estava vivo. Deixei-me ficar ali. O telefone tocou. Levantei-me devagar. Era a minha sobrinha.

— Tio Álvaro — disse ela de impulso — não fala connosco há mais de 15 anos. Porém, acho que deveria saber que o meu pai teve um acidente vascular cerebral. Os médicos dizem que foi grave, mas a recuperação parcial é possível; contudo vai levar o seu tempo.

— Oh, por amor de Deus… — disse eu.

Ela desligou.

O meu corpo mordia-me por um lado e o meu espírito roía-me pelo outro. Era inegável aquela coincidência obscura. O meu único irmão tinha sofrido um AVC na mesma noite em que eu tinha sentido aquele choque arrebatador! A linguagem da vida.

Fomos inseparáveis durante toda a vida até àquela discussão estúpida, sem sentido. O álcool e considerações de ordem secundária a interferir na lucidez dos nossos instintos. Arriscava nunca mais ver o meu irmão vivo. Procurei uma nova posição de fuga à intensa agonia e sofrimento que aquele afastamento me causava. Pouco a pouco, comecei a escutar as minhas ideias e as várias combinações que poderiam permitir a jornada. Tinha 74 anos e batalhões de tormentos. Não se tratava apenas de dor física, também havia recordações do passado, de quando era mais novo. Juntei forças. Deixei-as atuar. Fiquei surpreendido. Podia dar-me ao luxo de desprezar o regresso.

Lembrei-me do minitrator japonês Kubota. Usava-o para a prática da pequena agricultura. Decidi que seria o meio de transporte. Talvez a limitação escolhida tivesse algo que ver com a rapidez da decisão. A vida é minúscula. A mansidão da estrada esperava por mim.

Hélio Sequeira

Os Invulgares

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Mais Invulgares

Por Bibliotrónica Portuguesa — 10 de Fevereiro de 2019, 17:29

Os Invulgares são agora quatro. Encontrámo-nos para celebrar o acontecimento, junto à nossa amada biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde um piano enche o lugar de promessas. Além do Luís Ramos e da Ana Rita Sintra, Invulgares há quase um ano, estiveram os Invulgares Hélio Sequeira e Carolina Andrade, que vão agora começar a publicar também narrativas curtas no estilo invulgar que carateriza a escrita de cada um. Todos os originais continuarão a ser editados por mim.

Durante o encontro, falámos sobre a Índia e o Algarve, onde as amendoeiras em flor vão já lembrando uma velha lenda, e sobre como se pode não pertencer a lado nenhum. Falámos sobre História, Filosofia, Edição de Textos e Estudos Comparatistas; sobre o futuro e o presente e sobre o desejo de mergulhar as mãos nas hortas, em vez de partir para longe. Sobre a maravilha que é a prosa camiliana, sobre António Aleixo, teses, estudos desejados e cansaços, a liberdade e o desejo dela.

Falámos sobre a Bibliotrónica também: sobre as mudanças que se avizinham, e o modo de ser assim. A responsabilidade de ser recomendada pelo Plano Nacional de Leitura e a Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, além de múltiplas bibliotecas de agrupamentos escolares, blogues e plataformas de ensino em Portugal e no mundo que fala português. Falámos com alegria dos 1608 seguidores atuais. E aplaudimos o Luís Ramos pelo sucesso de Verbo Condicionado. Álbum de Poemas, que já foi folheado mais de 4000 vezes e já foi lido 841, números que aumentam todos os dias.

Amanhã, sairá a primeira narrativa do Hélio Sequeira.

Ângela Correia

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

P. S. Os Invulgares continuam a ser fotografados por Constança Fernandes.

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Sem título, por Luís Ramos

Por Bibliotrónica Portuguesa — 21 de Janeiro de 2019, 14:34

São 17 h 11 min. É quase noite. E voltámos ao mesmo. Sempre o mesmo. Acordamos ainda de noite. Queremos a noite. Queremos o dia. Ah… Não é isto e isto não pode continuar. Eu tenho de sair daqui. Eu quero ser professor ou empresário. E quero ter muito dinheiro e uma mulher bonita. Quero comer bem e vestir bem. Quero ter uma vida que me diga alguma coisa. Uma vida em que eu me sinta realizado. Isto assim não pode continuar. Que se queimem essas árvores! Montamos uma carvoíça! Este cerro… abaixo o cerro! Montamos uma empresa de construção civil! Vamos para a cidade! Vamos embora daqui! Vamos fazer alguma coisa! Vamos embora, pai! Vamos arranjar uma vida!

Uma vida? Que vida? Que esperas tu que seja diferente na cidade? Esperas não morrer? Encontrar a felicidade? Onde? Uma vida? Um sentido? Que amanhã seja melhor? O que é que vai ser melhor?

A vida é o estar sendo das coisas. O resto é uma negação da morte. Que o paraíso celeste é uma farsa, descobriste sem te o dizer. Mas que o paraíso terrestre também o é, ainda tu o não sabes. Amor? Dinheiro? Fama? Prestígio? Ostentação? Luxo?

Filho, há duas formas de viver: o saber viver e o querer viver. O querer viver é o aproveitar de todas as oportunidades da vida com o intuito de superar a antítese entre a vida e a morte. Aproveitando a vida,  esperamos que ela nos impulsione para a dimensão superior da eternidade. Pelo contrário, saber viver é conhecer o que é a vida essencialmente, e comungar da própria vida. Se quiseres, fica. Se quiseres, parte. Antes, quando nós sabíamos que a verdade era una, tínhamos o dever de castigar aqueles que criam na falsidade. Agora, que tudo é relativo, é a ti que cabe a decisão…

Luís Ramos

Os Invulgares

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Nova reedição: O Padre Júlio, de Octave Mirbeau

Por Bibliotrónica Portuguesa — 28 de Dezembro de 2018, 10:30

Mais conhecido pelo livro Diário de uma Criada de Quarto, Octave Mirbeau foi autor de muitos outros títulos, de variados géneros: ensaio, romance, teatro, conto. Em 2017, comemorou-se o centenário da morte do escritor francês, nascido em 1848.

Conforme explicam os autores da reedição que a Bibliotrónica Portuguesa acaba de publicar, «O Padre Júlio acompanha a vida de um homem que, ao decidir enveredar pela vida clerical, enfrenta os enormes problemas, sobretudo psicológicos, que esta opção lhe provoca, principalmente no âmbito da sexualidade.»

Sendo o acesso à obra de Mirbeau em língua portuguesa relativamente limitado, a publicação de O Padre Júlio é um contributo para um melhor conhecimento do escritor, de que os autores da reedição e a Bibliotrónica Portuguesa se orgulham.

Devemos um agradecimento sentido a J. A. Marcos Serra, que se encarregou da revisão da reedição.

Aproveitamos para desejar a todos os leitores da Bibliotrónica Portuguesa um feliz ano de 2019.

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