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Pegar pela palavra

Por Miguel Horta — 20 de Abril de 2022, 17:47

 


E por onde começar?
-Pegamos pela palavra

Foi com muito gosto que aceitei, em nome da Laredo Associação Cultural, o convite para participar no projeto A Cultura sai à Rua, uma parceria da Câmara Municipal de Sintra com a Fundação Aga Khan Portugal, inscrita no Plano Municipal para o Envelhecimento Ativo, Saudável e Inclusivo, que tem como eixo prioritário o combate ao isolamento através de respostas sociais.1

Pegar pela palavra, foi assim que batizámos a nossa intervenção que parte do universo das palavras ditas para vencer a solidão criando um pequeno grupo de seniores dinâmicos em duas freguesias do Concelho de Sintra. O projeto passará por diversos lugares como Montelavar, Vale de Lobos e Tapada das Mercês, tendo apresentação pública, junto com outras propostas artísticas, em Novembro no Centro Cultural Olga Cadaval. Pretendemos com esta intervenção dar a palavra a quem muitas tem para partilhar - os mais velhos. Queremos valorizar o seu papel no seio da família e junto da comunidade. A Narração Oral será a primeira ferramenta para a aproximação das pessoas; mas também são bem vindos os provérbios, os ditos populares, as adivinhas, a poesia e as histórias vivas das freguesias.
A partilha destas palavras faz-nos sentir como parte de um todo que tem identidade e um caminho já percorrido. A nossa proposta, embora centrada nos mais velhos, pretende ir juntando outras gerações neste trabalho de comunicação e criatividade que contribuirá para o  desenvolvimento da escuta ativa, de dinâmicas colaborativas, das literacias, em encontros não formais que vão acontecer ao longo deste ano.

No dia 12 de Abril, teve lugar um primeiro encontro no edifício da Junta (União das Freguesias de Almargem do Bispo, Pêro Pinheiro e Montelavar) – e que belo encontro! Escutámos poemas, histórias locais onde não faltaram personagens marcantes, lugares de reis e mouras encantadas, anedotas do Alentejo (…). Foi uma bela conversa. Fiquei a conhecer a equipa local e os participantes, cada um com a sua individualidade criativa bem marcada. Rapidamente se constatou que faltavam ali alguns narradores locais, mais reservados e, já agora, poderíamos ter um maior equilíbrio de género? Esperamos a todo o momento a chegada de muitas outras histórias deste interior Saloio. O próximo encontro terá lugar em Vale de Lobos, estando agendado outro para Tapada das Mercês (Junta de Freguesia de Algueirão -Mem Martins). De repente lembrei-me do belo trabalho de Cristina Taquelim junto das mais velhas em Santa Vitória, da metodologia de recoleção de contos tantas vezes pacientemente explicada por António Fontinha, do recente trabalho do projeto “De Boca em Boca” ou a comovente intervenção de Jorge Serafim junto dos seniores da Mouraria de Beja – “Candeia que vai à frente ilumina duas vezes”... Por aqui vos darei conta deste caminho clareado.

1 “O projeto “A Cultura sai à Rua” surge através da candidatura Cultura para Todos, entretanto integrada na Ação 11 da operação Lisboa-06-4538-FSE-000016 - Idade Mais - Estratégia Municipal para o Envelhecimento Ativo e Saudável, cofinanciada pelo Fundo Social Europeu. O presente projeto vem contribuir para o combate/ redução da exclusão social, nomeadamente da população sénior do concelho, na medida em que visa dar mais voz aos seniores, melhorar a sua qualidade de vida e promover uma maior igualdade de oportunidades (perspetiva etária, diferentes características/perfis, diferentes territórios, nomeadamente de maioria vulnerabilidade social e económica).”



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Código 2016 IRS - Bout de souffle

Por Miguel Horta — 13 de Janeiro de 2022, 12:39

 

Com esta fotografia (já com 19 anos) relembro Lurdes de Castro
Fotografia captada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
também lugar de crescimento como Mediador 

A 7 de Janeiro deste ano foi publicada, em Diário da República, uma portaria (com origem no Ministério das Finanças) que estabelece a tabela de classificação de atividades, atribuindo códigos a funções que ainda não estavam contempladas no domínio das Artes, a saber: Mediador cultural e artístico(código 2016), Técnico de apoio à atividade cultural e artística (código 2017) e Professores ou Educadores artísticos (código 8013) (1). Esta iniciativa surge na sequência da aprovação na Assembleia da República doEstatuto dos Profissionais da Área da Cultura (EPAC) em anexo ao Decreto -Lei n.º 105/2021, de 29 de novembro, com o objetivo de criar as condições para o desenvolvimento de um setor cultural dinâmico e equilibrado, que garanta boas condições de trabalho aos seus profissionais, de forma a potenciar a respetiva criatividade e criação artística. (cito)

De repente, o surgimento de um código que é atribuído ao nosso labor criativo atribui-nos visibilidade, reconhecendo a existência de um espaço, um “mercado”, um lugar profissional. Sou Mediador Cultural há 47 anos (com berço no Centro de Apoio às Organizações de Base – finais dos anos setenta), tantos quanto tenho de artista, dupla condição partilhada com tantos colegas de trabalho. A nossa intervenção estende-se a Museus, Bibliotecas (Públicas, escolares ou comunitárias), Teatros e Centros Culturais, lugares de Património, Escolas, Hospitais, Lares e outras instituições, Juntas de Freguesia, Associações, Bairros e tantos outros lugares em constante comunicação direta, tão diversa do trabalho em gabinete. Plural é a nossa expressão e diverso o nosso conjunto de ferramentas para a expressão afirmativa. Trabalhamos com pessoas, transmitindo, acordando ou “ativando pessoas”, como afirmou Francisco Sena Santos numa crónica transmitida esta semana na Antena 1 (RDP). Sabemos que a qualidade de vida passa por aqui, pelo que fazemos, em todas as idades e, como sempre, estamos presentes com este trabalho profundamente humano. Somos a linha que une a produção cultural ao público, a voz que questiona, aqueles que devolvem a palavra e a descoberta para que o outro se vá construindo em autonomia, fortalecendo a sua capacidade de mudar o mundo em que vivemos. Somos atentos ao meio que nos rodeia aprendendo a ler os sinais da transformação permanente; sabemos que os tempos nos têm levado a um “Retorno ao Privado”(citando Orlando Garcia), migração pessoal e inconsciente acentuada pela pandemia, de braço dado com a prodigiosa velocidade dos meios de comunicação digital. Somos essa conta-corrente que une, que se questiona continuamente numa produção reflexiva, incluímos sem intrusão tendo consciência do tempo próprio dos processos humanos. De certa forma, a Mediação vai trabalhando a ecologia do Ser ou, para os crentes, também uma ecologia da Alma.

No momento em que escrevo estas linhas, tenho sempre presentes os meus mestres da Mediação, Madeira Luís (que já nos deixou), Esaú Dinis e tantos outros que contribuíram decisivamente para a minha formação em intervenção cultural e social. Daqui envio um abraço ao meu colega Carlos Carrilho por ter acordado (de novo) o espírito de combate pelo nosso estatuto e naturais direitos.

(1) E, ainda, Conservador-restaurador.


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De boca em boca, em redor dos livros e das texturas

Por Miguel Horta — 4 de Janeiro de 2022, 19:05

 

Foto, por cortesia do projeto "De Boca em Boca"

Nos dias 3, 4 e 5 de dezembro (2021) estive em Mértola a convite do projeto “De boca em boca” e da Biblioteca Municipal, dinamizando oficinas, participando na Feira do Livro. Acorreu à oficina Máquina da Poesia um grupo de “alunos” da Universidade Sénior que passou um bom momento criando versos soltos a partir do desafio de escrita. Quem não sabia escrever, mas conhecia bem as palavras, formou um par cooperante com outro participante que escutou e escreveu o que dizia. Também no meio do grupo havia quem já trabalhasse as palavras por dentro, não me espantei quando começaram a surgir os primeiros versos, cheios de significado.


Também no contexto do Projeto, participei no debate “Escutando a voz dos que não têm voz”, uma interessante conversa em torno da intervenção sociocultural no Concelho de Mértola que permitiu conhecer a histórias de alguns participantes. O grupo de conversadores iniciais era composto por Cristina Taquelim, Maria do Rosário Fernandes e Natália Caldeira numa conversa moderada por Rita Sales, depois foi-se juntando mais gente à nossa troca de ideias. No Sábado de manhã fomos “Caçar texturas” no centro da Vila, entrando no mercado, recolhendo imagens das calçadas, riscando os lápis de cera sobre os pequenos relevos urbanos. O pequeno grupo de “caçadores” recolheu texturas e criou um desenho bem grande juntando diferentes elementos recolhidos pelo chão, paredes, até nas escadas de uma loja. Montámos uma pequena exposição lá num cantinho da feira … 

Encerrando a minha participação na Feira do Livro de Mértola, moderei a conversa com o fantástico José Fanha que nos encantou a todos com os seus poemas e com algumas histórias da sua vida, que desconhecíamos. Na plateia, Cláudio Torres sorria naquele encontro de amigos. Depois a tarde foi seguindo ao som de Celina da Piedade e Ana Santos (que bem tocam...). Fica um abraço para a Fernanda Mestre e Cristina Taquelim, com os votos de boa continuação deste trabalho pela literacia/leitura em Mértola. Outro abraço em recado para a Rita Sales: cuidem bem da voz dos que não têm voz e continuem a escutar e a registar histórias neste novo ano. Obrigado.

A nossa obra coletiva



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